segunda-feira, 12 de maio de 2014

Tão cansada...

Depois de haver decidido ser feliz em todas as escolhas, acordo com um cansaço sobremaneira. Senti-me cansada com tudo o que de inusitado tenha surgido. São tantos fatos e tantas experiências inesperados que me esgotaram qualquer disposição. Não que surpresas não sejam bem-vindas, mas a fadiga prevaleceu diante de tanto acaso. É como se de tanto ter me aberto, agora eu gostaria de fechar-me. Mas, se eu me fechar, nem o que há de bom poderá me alcançar, mas me livrarei da loucura que atraio no mundo. Mas, para eu continuar aberta, falta-me energia. É como se houvesse, ao mesmo tempo, muita vida ou nada dela. Muitos vazios. Muitos pequenos momentos cheios de vida. Mas talvez eu queira apenas um momento grande cheio de vida. E não dá para prever ou saber se ele virá. Parece que a vida é uma grande inércia, percebamos ou não. É como se eu quisesse preencher todos os segundos diários e, ainda assim, é como se eu não preenchesse nada. Se eu não tiver mais a loucura do mundo perto de mim, sentirei falta? Ou estou cansada da lucidez constante que me denuncia a loucura presente? Vejo os outros e invejo a aparente normalidade. Mas talvez todos sejamos loucos ou tenhamos algo de louco. Não sei esperar. Tenho mania de viver. Tenho mania de dar chance. Vivo a estupidez e a intensidade até porque só vou saber o quanto estúpido ou intenso seja vivendo. Não padeço do “e se”. Só estou cansada de tudo e nada, como se tudo e nada fossem ou pudessem ser a mesma coisa.

segunda-feira, 31 de março de 2014

...

Acordei ínfima. Vi tudo tão pequeno, tão mínimo, tão insignificante, tão inútil. Nada faz sentido. Nem o caminho rotineiro, nem o passar das horas, nem a comida a ser mastigada, tampouco o trabalho a ser feito. Senti-me como se não me pertencesse. Estranhei o corpo que habitava, estranhei a razão das oito horas diárias, estranhei qualquer palavra verbalizada. Como se tudo fosse tão estranho de tão automatizado e sem qualquer sentido, norte, vocação, desejo. Nada familiar nessa estranheza toda. Nem o céu ao amanhecer nem o céu que escurece. Uma preguiça da ignorância própria que não se descobre. Uma inércia que é ela própria que leva o corpo ao banheiro, as mãos a digitar, a boca a responder. É como se meu cérebro tivesse se transportado ou tirado férias. Gestos programados, horários ditados, respostas fabricadas...

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Chuva, vinho e livro

Talvez eu fosse mais sozinha se não gostasse de pele, cheiro, temperatura, cabelo. Tenho tido preguiça, preguiça de mais do mesmo. Olho em volta e não vejo nada. Talvez eu não esteja nos lugares. Tenho impressão de que parte está e outra viaja. Uma é realidade, outra, sonho. Ou apenas proteção. Os anos passam e não se permite mais a perda de tempo. Depois de ler um texto, percebo que minhas escolhas refletiam não-escolhas. Assim, decido pela solitude das noites e de um dia por semana. A literatura faz-me companhia na cama, no sofá, no dia de chuva, na vontade de um abraço. Os livros calam-me o desejo, acalmam-me a mente, levam-me fisicamente distante. Por vezes, acredito que são os culpados de uns sustos que me acometem durante as madrugadas. Suas histórias invadem meus sonhos junto com a insônia, minha ou medicamentosa. Num desses sustos, senti uma mão em meu ombro. Era uma mão sem dono. Sinto que gritei, um grito mudo. Pesadelos me vêm frequentemente. Não sei se são meus pensamentos, as histórias que invadem as madrugadas ou os efeitos do vinho ou do medicamento. Numa tarde chuvosa de domingo, elegi o vinho como companhia. Não aprecio porque traz-me quietude. Mas quis a quietude do vinho, junto com o livro de Chico, a chuva lá fora e a presença de um hóspede canino. Após uma taça e algumas páginas, as pálpebras pesaram. Impossível para mim deitar-me durante o dia. Permiti-me. Depois, retorno à taça e às páginas. Me encanto pelo personagem. Somos só nós e meu cabelo. Tenho mania de ler e fazer-me cafuné, simultânea ou separadamente. Dizem que eu sou assim já mesmo ao nascer. Alguém me desperta para fora, mas na minha preguiça eleita de interação, mantenho-me só. Novamente se me despertam. Não. Prefiro a quietude do domingo que chove. Acompanho a última taça das últimas páginas. O sono volta a arder os olhos. E decido então dormir, com os efeitos do vinho, com Eulálio das páginas, com o abraço do travesseiro, com o cheiro da fronha, com o calor do edredon.


"... e já sei que o caminho do sono é como um corredor cheio de pensamentos."
(Leite derramado, Chico Buarque)

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Uma saudade...

Descubro uma saudade. Descubro que sinto falta daquela ansiedade. Aquela ansiedade do reencontro. Sinto falta daquela empolgação, de querer estar perto, de sentir-se perto e longe, de sentir-se perto mesmo distante. Sinto falta do arroubo, daquele abraço que não quer se desabraçar, daqueles beijos que se encontram. Sinto falta de sorrir gratuitamente ao acordar. Sinto falta de sorrir gratuitamente ao dormir. Sinto falta de sorrir gratuitamente em qualquer momento. Sinto falta de me surpreender com um olhar, um sorriso. Sinto falta de me surpreender com palavras e quereres. Sinto falta de encontrar e não querer se desencontrar. Sinto falta de descobrir um mundo. Sinto falta de descobrir-me. Sinto falta de abrir-me a um mundo. Sinto saudades de me jogar, de mergulhar e flutuar. Sinto saudades de sentir-me viva. Sinto saudades de sentir-me parte. Saudades de um tempo que passa devagar e rápido. Saudades de pensar e lembrar. Saudades de uma saudade que aperta, que não se mata e é a todo instante. Uma saudade da saudade que se canta, que assovia, que se lê, que se diz, que grita. Uma saudade que me é primeira e que se vê saudade triste por sentir-se saudade. Uma saudade sem prazo.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Com licença, mundo.

É triste descobrir que certas coisas acontecem em nosso corpo. E não gosto do verbo acontecer, mas é exatamente essa a palavra. Lembro-me de um dos primeiros chefes que tive em minha vida. Ele me contaminou com a birra ao verbo. Acontecer, para ele, era quase como um aparecimento de uma entidade. E é isso que, às vezes, acontece com o nosso corpo. Há coisas que fazemos que propiciam o surgimento ou que corremos o risco e elas aparecem. Mas outras não. Há aquelas que simplesmente vêm para nos deixar tristes. Existe controle. Não há regresso. Existe o conformismo. Não há cura. Elas começam pequenas, mas podem se espalhar. Elas começam com sintomas e podem se tornar graves. E se só mexesse internamente, talvez fosse mais fácil. Mas não, elas são exibidas, têm que se mostrar para nós e para os outros. E eu cada vez mais gostaria de entrar para dentro de mim mesma, esconder minhas marcas, meus aumentos, minhas feiúras. É como se a vida quisesse piorar aquilo que justamente nos incomodou a vida inteira. Como costumo dizer, nunca estrago o que não gosto, é sempre o que mais gosto. E assim é no corpo. As coisas aparecem como que por provocação, nos lugares que mais prezamos ou naqueles que toda a vida mereceram mais atenção porque já tinham alguns mínimos problemas. Disseram-me que é a idade. Respondi, no auge do meu humor, que só se eu tiver envelhecido 20 anos em quatro meses. Não existe diálogo. É apenas um silêncio solitário e triste. Preciso de tempo para aceitar e me conformar com um novo formato de mim mesma. Ainda não consigo. Tenho esperanças, mas sei que são esperanças com grandes chances de frustração. Imagino tudo o que possa existir de mais grave, mais doloroso, mais difícil e mais feio no mundo. Mas hoje pedi licença ao mundo. Deixe-me com minha tristeza. Deixe-me com a música no volume mais alto para nem ouvir a mim mesma. Deixe-me com o pior de mim. Deixe-me esperar surgir o melhor de mim. Permita-me que eu corra e deixe pedaços de mim no caminho. Dê-me um tempo de egoísmo que já volto, mundo. Com licença.