terça-feira, 3 de junho de 2008

Estranho de volta ao ninho


Após quatro anos da reedição de sua obra ficcional, Rawet encontra-se mais abundante nas prateleiras. Agora foi a vez de seus ensaios ganharem novamente os olhos do mundo. O volume Samuel Rawet: ensaios reunidos é continuação do projeto da editora Civilização Brasileira, que publicou, em 2004, Contos e novelas reunidos.

A nova coletânea abrange textos que Rawet escreveu e publicou entre as décadas de 1960 e 1980. Apesar de gêneros distintos, os temas são semelhantes aos perseguidos em seus contos e suas novelas, mas com um tom especulativo, filosófico. Os organizadores do novo volume, Rosana Kohl Bines e José Leonardo Tônus, explicam, no prefácio, que ler os ensaios de Samuel Rawet é sempre um desafio.

“A cada linha e cada página o leitor é convocado a acompanhar a ruminação obstinada pela palavra adequada que não se deixa apropriar e que finalmente se desdobra em tantas outras, martelando o drama da incompreensão do homem diante da impossibilidade de dizer o mundo, de dizer-se a si mesmo e de se fazer compreender pela linguagem. Nessa busca sem limites, seu pensamento se dilui e torna-se errante, como se o próprio autor recusasse o estabelecimento em seus textos de uma ‘leitura-fechada, leitura-atenta ou leitura-rigorosa’”, preambulam Bines e Tonus.

Os ensaios rawetianos, assim como as obras em geral, proporcionam uma falta de ar, uma insônia que não permite o descanso, uns pontos de interrogação que bóiam em suas linhas e entrelinhas que permearam sua vida e permeiam a de quem se torna espectador e ator de suas obras. É concomitantemente uma leitura perigosa e atraente, atenta e inquieta, angustiante e fascinante. “Se a escrita de Rawet é desconcertante, intrigante, até enigmática, não é óbvia sua importância para a literatura brasileira”, assevera Saul Kirschbaum na tese de doutorado Ética e literatura na obra de Samuel Rawet.

Stefania Chiarelli esclarece a relevância de Rawet. “A obra rawetiana reúne características que situam o autor em um lugar especial na literatura brasileira: sua escolha pelo tema do imigrante, sua configuração como estranho e a ruptura que fez com uma determinada tradição do conto brasileiro fazem dele figura ímpar em nossa literatura. Assim, adquire a capacidade de tocar fundo em questões anteriormente apenas esboçadas no conjunto de nossas narrativas, uma vez que é pioneira a conquista do espaço enunciativo a partir da ótica descentrada do imigrante”, discorre Stefania na tese de doutorado Vidas em trânsito: as ficções de Samuel Rawet e Milton Hatoum.

“O solitário caminhante do mundo” foi e ainda é um escritor desconhecido de muitos e conhecido mais particularmente de estudiosos. É como se a criatura seguisse o caminho de seu criador. Uma vez se disse que jamais houve no Brasil um poeta que viveu verdadeiramente como poeta como o foi Vinicius de Moraes. Daí é possível uma paródia: talvez não haja alguém além de Rawet que tenha não só escrito, mas vivido visceralmente o que se propriamente escreveu – a estrangeiridade, o estranhamento, o exílio, “o silêncio do estrangeiro”.

Ensaio

Em Consciência e valor, um dos ensaios presentes na coletânea, Rawet parte da burrice para tratar dessa dicotomia. Para isso, ele experimenta a idiotice e a ingenuidade diante do mundo e disserta que são a consciência e o valor os problemas da loucura e, ao mesmo tempo, da filosofia. E são essas as questões tratadas nas linhas deste ensaio. A partir da discussão, o autor alcança os sonhos como mecanismo de estudo para se chegar à consciência e finaliza com o relato de um devaneio pessoal para finalizar sua experiência.

Trecho:

“(...) Estava eu nessa etapa, vagabundo da consciência, embrenhado em algumas pesquisas ligadas à sexualidade. Deixo o aspecto fisiológico e hormonal para os sábios da matéria, deixo o aspecto psicológico para os eminentes monges dos divãs bem forrados, deixo o aspecto ético para quem de direito. Como é impossível efetuar essa pesquisa em laboratório, só havia um caminho: o mundo. E o mundo é a rua, a praça, o bairro, a cidade, a estrada, o bordel, o parque, o cinema, o hotel de luxo, a hospedaria de cubículos sem luz nem ar, onde mal se fica de pé, porque de um pavimento fizeram dois, o mundo é o ônibus, o saguão de um edifício, uma sala de visitas de madrugada, um mictório, um consultório, um gabinete bem atapetado. (...)”


O silêncio do estrangeiro

A literatura rawetiana é “uma literatura do ponto de vista do estranhamento geográfico, existencial, étnico, social e econômico. O estrangeiro, no seu sentido mais amplo, que não significa somente a mudança geográfica, mas toda a estranheza que um indivíduo causa aos outros, a estranheza dentro de si perante o mundo ao seu redor”.
Trecho da monografia de conclusão do curso de jornalismo em que se analisou seu livro de estréia Contos do imigrante.

Brasília, 29 de maio de 2008

Texto também publicado no site Biblioteca de Babel

3 comentários:

Srta T. disse...

Esse sentimento de estranheza me traz várias lembranças... Estranho-familiar, até mesmo a escrita parecida (não sei se dá pra dizer isso, mas o Ezio desperta esse tipo de sentimento em mim também - de busca por palavras, palavreados, palavrões - assim, sem deixar de tentar expor, com a melhor das palavras ou das frases). Eu preciso ler Rawet, mesmo.

Por isso que eu digo que me deu uma vontade de ler mais. O texto tá gostoso de ler, acho que não ia encher o saco se tu escrevesse mais (internet, blaba). Até porque quem pára para ler esse artigo, já deve estar "estranhamente familiarizado" com essas sensações e conceitos rawetianos.

Pra quem não conhece, como eu, digo que dá vontade de saber mais desses pontos - a forma como ele aborda.

Bom, de qq forma é um texto que merece continuidade.

Adorei,
(ah, vou te linkar no meu blog babe!)

Cheia de Graça disse...

Delícia! Estou, definitivamente, curiosa.

QAE disse...

Querida Aninha,

Que bom ouvir de voce de maneira tao prazerosa e conveniente. Realmente o texto do Rawet eh unico, extranho ele nao ser reconhecido amplamente pelo seu talento em usar a palavra, mas isso nao significa nada.

Fico feliz de vc estar se aprofundando em seu tema de monografia, sinal de que fez a escolha certa.

Seu blog teve um valor especial para mim, tanto por ser voce a escreve-lo como pelo teor do texto. Estou aqui na Australia a quase um ano e aqui eu sou o estrangeiro. Confesso que minhas fantasias vagam por outros territorios, entre Alexandre e Leonardo. Nos dias de hoje escolheria a primeira opcao. Nao tenho apegos literarios, devoro e descarto, assim fiz com Rawet, mas esse periodo no universo rawetiano, me marcou o suficiente para admirar seu mergulho. Como que nesses livros tao curtos podem conter tanta coisa?

Me foi ensinado a nao se curvar diante de nada, que nao seja o talento e o caracter...
Minhas reverencias a voce.

Te vejo nas esquinas do mundo e nas encrusilhadas da vida.
(a falta de acentuacao eh devido ao teclado em ingles)

Abracos

Giordano