terça-feira, 3 de março de 2009

Escolha mal feita

Encontrei um bichinho encolhido agarrado a uma raiz de planta em um lugar escondido, frio, deserto. Desorientada, não soube discernir o local. Olhava-o de longe, observando-o se realizava algum movimento. Tremia-se, estava mal, mas não tanto quanto poderia parecer. Percebi que sentia frio, que estava fraco, mas tinha força suficiente para segurar a raiz de uma hera que não sei porque razão a mantinha tão junto. Chego mais perto e vejo que não era só a raiz, mas também alguns pedadinhos que pareciam haver sido cortados e ele, de alguma forma, queria uni-los novamente.

Não sabia como me aproximar ou até se devia, mas algo não me deixava sair de perto daquele bichinho. Dou alguns passos e vejo que as suas garras estão escondidas para não machucar o que ele tanto protege. Em mais um passo, piso em folhas secas e reparo que há tantas mais espalhadas pelo chão. Não era tempo para isso, era tempo de as folhas ainda estarem presas aos galhos das árvores e tudo pintado de um verde vivo iluminado de tanto sol. Olho mais ao longe e tenho a impressão de que as estações se desentenderam e o outono chegou antes do tempo.

Começo a não entender mais nada e suponho que o que aconteceu ao bichinho aconteceu a tudo ao seu redor. Ando quilômetros para buscar alguma luz, algum verde ou algo que explicasse a mudança do tempo ou a atitude daquele bichinho. Quando começava a me sentir cansada de tanto procurar, enxergo um muro em ruínas, uma espada manchada e restos destruídos do que parecia ser de uma planta, semelhante àquela que o bichinho trazia recôndita em suas mãos. Pensei que pudesse salvar mais alguma coisa da hera e levar-lhe com a intenção de fazê-lo sentir-se melhor, mas tudo que podia ser salvo estava com ele.

Quem o fizera, porque o fizera, não pude descobrir. Vi apenas vestígios que seriam supostamente de alguém que veio de longe e, depois de desferido o golpe, retornou ao seu local. Olhava e não conseguia entender nada daquilo. Mas lembrar aquele bichinho me doía e eu queria encontrar algo que amenizasse o que quer que o estivesse acontecendo. O que restou da plantinha estava com ele. Então, reconstruir o muro me veio como a única idéia capaz de trazer-lhe forças novamente para se levantar e trazer o verde e o brilho a sua volta.

Retorno e ele ainda se encontra do mesmo jeito, na mesma posição, agarrado da mesma forma, com a mesma força àquilo que lhe fazia algum bem. Ao mostrar-lhe uma pedra que trouxe para começarmos a obra, ele suspira e me fala baixinho e lentamente que ainda não era hora e que ele precisava se restabelecer, poupar energia para o longo trabalho pela frente. E, em todo esse tempo, a plantinha não secava, não morria, em suas mãos. Seu calor, sua vida, mantinham-na viva.

Deito então ao seu lado. Faço-lhe carinho, aqueço-o com o meu corpo junto ao seu. A plantinha não morria, mas tampouco crescia. Percebo então que ela precisa do muro para crescer rente, ao alto, longe. E, para construir o muro, haveria necessidade de forças. Ao pensar isso, fiquei tranquila, pois só o tempo para reerguer o bichinho e ele reconstruir seu muro, fincar as raízes de sua hera no solo e deixá-la seguir seu caminho. Deitados ali, a aflição substituiu a tranquilidade inicial. Percebo que o braço que acaricia o bichinho acaricia a mim mesma, o corpo que o aquecia busca calor de outro lugar para aquecer a mim mesma.

Sem nem saber, tornei-me mãe e companheira de mim mesma porque descobri que sou minha única casa. Levanto-me, abro os olhos, um tanto inchados, me preparo para organizar a bagunça que fiz em meu próprio ninho e separo as sementes que se tornarão rosas, girassóis e begônias a embelezar meu caminho. E, assim, construirei meu muro e minha plantinha renascerá...

"A esperança é um urubu pintado de verde".
Mario Quintana

"Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos…"
Vinicius de Moraes

Um comentário:

Jasão disse...

lágrimas penduradas na sala à procura de pálpebras.

é a vida

é a beleza da mistura louca do mundo

do perigo danado que é o viver

das máscaras inquietas que

somos.

Adorei este último texto que leio em BH... quinta-feira, conectado, volto em busca de mais alimento pr'alma...

um beijo e um queijo (de Minas)