quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Olhos de mar revolto

Do sabor doce ao tanino que trava a língua
De um olhar sereno a olhos de mar revolto
De palavras carinhosas a ofensas gratuitas
De cartas doídas a poemas desonestos
De uma conversa em lágrimas a pedidos e gritos de adeus
De um mês de bem-querer a um mês de pesadelo
Um mês sem compromisso
Cartas e abraços guardados
Outro mês com compromisso
Sem nada material na gaveta
Dois meses díspares e ímpares
E retorno à paz de seguir em frente
Desta vez, inteira.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Dia Mundial da Psoríase 2015

E chegou o dia dela, mais um. Ela que tanto me fez chorar, mas que, finalmente, hoje a enxergo com outros olhos. Hoje percebo que precisei dela para frear muito do que me fazia mal e não percebia. Precisei dela para aprender a fazer bem a mim mesma. Já encharquei travesseiros, já me cocei enlouquecidamente, já sangrei em meus lençóis, já me achei a coisa mais abominável, já não consegui vestir calça jeans. Hoje, acho que aprendi a aceitá-la e tento não dar mais tanta importância. E parece que, com isso, ela se acalmou e não me traz mais os seus sintomas mais fortes. Vejo meus lençóis limpos, não coço mais, visto calças jeans e choro por outros motivos. Hoje sinto que sou desejada e posso ser amada pelo o que sou, com minha feridas, minhas marcas, minhas lesões, minhas cicatrizes. Elas não me tornam pior ou menor. Essa doença faz parte de mim, mas não me resume. Começou pequenina e tomou e toma conta de metade do meu corpo. E não cheguei aqui sozinha. Precisei de broncas, afagos, preconceitos, lágrimas, abraços, para entendê-la, aceitá-la e me aceitar. E jamais pensei que agradeceria a ela, mas, sim, obrigada. Hoje sou uma pessoa melhor.

domingo, 27 de setembro de 2015

A doçura esquecida

Por mais breve ou longo que seja, por mais que um infinito seja menor ou maior que outros infinitos, é surpreendente sentir a doçura esquecida do mundo. Uma mão que toca a sua pele sem sentir a aspereza que ela possui. Um colo para assistir um filme que sempre vem junto com uma mão a afagar o cabelo e as costas. Olhos que enxergam o que pode haver de melhor. A disposição de acompanhar momentos de farra, preguiça ou supermercado. A naturalidade de brincar com os gatos que insistem em ficar próximos na cama. Um abraço que já viu gargalhadas e lágrimas e deu passos de samba. Um cuidado, um carinho, por quem se conhece tão pouco e, por ser tão pouco, emociona. Disse-me que é preciso olhar nos olhos. Disse-me que meus olhos falam. E jamais entendi a língua que falam, mas ele parece interpretá-los. Não sei o que será de meus olhos, de mim e da doçura esquecida do mundo. Mas vale a pena que tenha me lembrado de sua existência e do quanto isso pode adoçar a esperança, a vida, o dia a dia.

Para uma pessoa especial com quem esbarrei na madrugada em meio a uma roda de violão

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Sem novidades

Não. Não tenho novidades. A vida parece que estacionou. Nada parece acontecer. Ao menos, nada sensacional ou extraordinário. As coisas simplesmente seguem como vêm sendo.  Nem um arrebatamento. Nem uma previsão de viagem. Nem uma esperança de ver as perebas sumirem. Nem uma possibilidade de um salário que volte a me dar independência. Nem uma grande emoção, nem uma boa surpresa. Nada. Não que isso me torne infeliz, mas, até para sentar em uma mesa de bar, elejo a companhia. Tenho preferido os poucos amigos de verdade, os perdidos, os solitários, os pensantes da vida. Aqui, não há ouvidos para julgamentos, lições de moral, cobranças de otimismo. Quero ouvidos parceiros, de quem sabe mostrar a vida em suas vertentes boa e ruim. Quero ao lado gente de verdade, que ri e chora, que eu dê e receba colo, que cuide e aceite ser cuidado. Essas pessoas quase não existem, mas tenho buscado as poucas que tenho. Elas sabem conversar sobre o simples e o complexo, se emocionam com o cômico e o trágico, riem e choram comigo. Se não fossem essas pessoas, eu realmente estaria estacionada, em uma vaga distante, escura, sem vestígio de vida.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Que pena de você,

que um dia eu ajudei sem pensar duas vezes e nunca me perguntou como eu estava tempos depois,
que me definiu por uma pele de aspecto e tato diferentes,
que, pelo meu jeito introspectivo, me subestimou,
que não possa pensar uma milésima chance para o sentimento que, ao que se diz, seja mútuo,
que, por defender os homossexuais, pensou ser eu homoafetiva,
que me tratou como uma comida que se joga fora,
que é incapaz de dar a mão a quem quer que seja,
que me trata como invisível por qualquer motivo,
que, pela minha franqueza, não percebeu exatamente o sentido,
que me traiu em todas as possibilidades da palavra,
que tem o ego acima de todas as coisas,
que me mostra, em cada um, a preguiça deste mundo,
que não chora, não se declara, não ama, não ajuda e não sonha.