sexta-feira, 26 de abril de 2013

Fases

Tenho fases de passado, memória e saudades.
Tenho fases de imaginar, sonhar e prever.
Tenho fases de insônia, aflição e medo.
Tenho fases de ímpeto, decisão e coragem.
Tenho fases de bar, altas horas e histórias.
Tenho fases de livro, quietude e silêncio.
Tenho fases de alegria.
Tenho fases de solidão.
Tenho fases de colos e afagos.
Tenho fases de brigas e discussões.
Tenho fases de arrumar armários e gavetas.
Tenho fases de jogar e guardar.
Tenho fases de aprendizado e disposição.
Tenho fases de preguiça e negação.
Tenho fases que me privo.
Tenho fases que me esbaldo.
Tenho fases de cuidar e não ser cuidada.
Tenho fases de me cuidar e cuidar de poucos.
Tenho fases de dieta.
Tenho fases de comer o que me falta.
Tenho fases de amar e viver.
Tenho fases de só viver e viver só.
Tenho fases de me prender e depender.
Tenho fases de me soltar e saltar por aí.
Tenho fases de conhecer e experimentar.
Tenho fases de me calar e me entocar.
Tenho fases de pensar demais.
Tenho fases inconsequentes.
Tenho fases de viver demais.
Tenho fases de viver sem querer.
Tenho fases de querer viver o que não existe.
Tenho fases de não sofrer com o que não existe.
Tenho fases de querer o que já foi.
Tenho fases de saber que o ontem já passou.
Tenho fases de fazer tudo de uma vez.
Tenho fases de adiar até não poder.
Tenho fases de me encontrar.
Tenho fases de me perder.
Tenho fases de ontem.
Tenho fases de amanhã.
Hoje, minha fase é hoje.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Meu mundo

Avistei um lugar ao longe. A ideia era me transportar, mas não era possível.  O peso por dentro era tão grande que se refletia em peso externo. Me senti obesa. Os pés se arrastavam. Os braços pendiam. A cabeça e os olhos teimavam em olhar para baixo. Estes não suportavam encarar o mundo. Não era vergonha de mim. Era vergonha do próprio mundo. Não porque eu fosse melhor que o mundo, mas porque a descoberta de um mundo pior do que penso fez-me perder forças. Um mundo que era o meu e se descobriu pior do que o mundo alheio. Ou porque aceitava que o alheio pudesse ser pior que o meu. Ou apenas me iludia. Doces e amargas ilusões. Então, fechei-me num mundo só meu que, de tão imensa, fui meu próprio mundo. Preciso aumentar a mim mesma e encolher o meu mundo para me recobrar.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Férias

Depois de algum tempo sem tirar férias, pensei que a sua chegada fosse me empolgar. E qual não é o meu espanto, zero de empolgação. Pelo contrário, me apavora a ideia de passar os dias em casa com o único plano de uma viagem, que também me assusta. Não planejei as férias. Não planejei a viagem. Resultados de um impulso de reação à solidão. Propus-me leveza para 2013. Tentei. Tento. Em menos de um mês, saudade, solidão, prejuízos e discussões. Está difícil, mas tento ser leve. Não gosto de promessas. Tampouco as faço. Mas, de vez em quando, faço, mas a mim mesma. E uma das coisas que mais me incomoda sobremaneira é a frustração dos meus próprios planos, é a frustração de não alcançar a meta que eu mesma tracei. Disseram-me tempos atrás que eu era teimosa. Duvidei. Invejava e invejo a determinação alheia. Mas vejo que hoje posso ter algo de insistente. Pois continuo tentando. Continuo sonhando. No fundo, continuo acreditando. No fundo mesmo. É como se houvesse uma luz, mesmo fraquinha, lá dentro, que não deixo apagar. Se eu deixar ou se ela se apagar, é como se não houvesse mais jeito, não teria energia para o próximo passo, não haveria porque seguir em frente. Mas sigo porque, no fundo, acredito que as mudanças possam vir, que boas notícias podem chegar, que boas surpresas podem acontecer. As coisas boas são assim. Vêm sem avisar, vêm sem motivos, vêm sem nem se buscar. Será? Espero que sim. Canso de buscar. Espero que venham mesmo assim. Já foi assim. Por que não mais? E assim começam as minhas férias. Sem muita alegria, sem comemorações, sem planos. Apenas o medo de acabarem e não se ter feito o que umas férias se propõem.

sábado, 29 de dezembro de 2012

É difícil...

É difícil ir embora depois de ter amado tanto. É difícil deixar ir quando ainda se ama tanto. É difícil mudar de ideia a cada instante. É difícil acreditar que não está mais por perto. É difícil vestir uma roupa que fez parte de um bom momento com você. É difícil lembrar cada momento ao seu lado. É difícil ser incoerente. É difícil recordar o primeiro olhar, o primeiro beijo. É difícil pensar o último olhar, o último beijo. É difícil andar por cada lugar que andamos juntos. É difícil não ter mais o meu melhor amigo. É difícil não ouvir mais o elogio que recebia a cada vez que saíamos. É difícil não ter mais a sua mão dada à minha. É difícil não receber as mensagens de boa noite. É difícil não ter mais seu corpo colado ao meu ao dormir. É difícil ouvir rock’n’roll. É difícil não encontrar mais os seus olhos. É difícil pensar em você a cada segundo. É difícil adivinhar o que está fazendo. É difícil saber que a minha boca não beijará mais a sua. É difícil ver uma nova foto sua. É difícil nos ver juntos nas fotos. É difícil não ter mais o melhor abraço. É difícil lembrar o seu cheiro. É difícil saber como lava o cabelo. É difícil não poder fazer mais cócegas. É difícil não sentir mais seus pés enquanto durmo. É difícil não dizer mais os nomes pelos quais te chamava. É difícil querer viajar e não ter mais você. É difícil não te ter mais no carro sem acreditar que sou tão desorientada. É difícil não ter você para me convencer a tomar uma Heineken. É difícil saber que não posso mais dizer que está na hora de cortar as unhas. É difícil não poder mais te apressar. É difícil não ver mais o seu andar. É difícil não ser mais sua personal stylist. É difícil lembrar como aprendeu a gostar de carpaccio e pesto. É difícil não beijar mais o canto do seu olho. É difícil não ter mais os nossos planos. É difícil não rir mais ao seu lado. É difícil usar os presentes que me deu. É difícil não ter mais de quem roubar o edredon. É difícil não ter mais o colo para ver um filme. É difícil não ter a quem pedir carinho. É difícil não ouvir você reclamar do tanto que gosto de um carinho. É difícil não comer mais spoleto depois de várias cervejas. É difícil não saber mais como está o seu trabalho. É difícil não ter lhe dado um presente no Natal. É difícil não estar com você na virada do ano. É difícil estar sozinha. É difícil te amar e estar longe. É difícil você ser meu grande amor. É difícil saber que me devolve este amor. É difícil... Demasiadamente difícil...