sexta-feira, 18 de julho de 2014
Silêncios
A tevê a cabo não funciona. O carregador do computador estragou. O telefone não toca. Os vizinhos não emitem sons. Devoro Marçal Aquino. Cama vazia. Apenas Madalena, minha gata, dorme ao meu lado. Lavo o carro na hora do almoço. Vou ao supermercado depois do trabalho. Tentativas de me mexer. Mas meu corpo não quer andar. Pernas tremem como a não quererem que eu siga. Respeito. Paro. Volto. Vou para onde me sinto bem. Bebo. Bebida me faz parecer normal. Durmo com a facilidade de um cansaço inexplicável. Acordo com as mordidinhas de Madalena no meu nariz. Enjoei de comer na rua. Invento possibilidades. Aspiro a casa. Lavo a louça. Limpo o banheiro de Madalena. Lavo roupa. Tomo banho. Volto a Marçal Aquino. Estou prestes a terminar o livro. É muito silêncio para calar a solidão.
quarta-feira, 18 de junho de 2014
Por que tenho tantos amigos gays?
Ouvi umas poucas vezes essas perguntas. E parei para pensar que, real e ultimamente, meu círculo de amigos gays cresce a cada dia. São pessoas que eu amo naturalmente porque me fazem bem, cuidam de quem gostam, sabem se divertir, me procuram porque gostam de mim e se sentem à vontade comigo. Já ouvi afirmação semelhante: “você sai com casais gays, mas não sai com casais heteros”. Os heteros quando encontram seu par, normalmente, ficam mais entocados em suas casas ou fazem mais programas com outros casais heteros. São poucos com quem eu, solteira, consigo sair. Convido uma, duas, três, quatro, cinco vezes e nada. Se eu estivesse emparelhada, será que topariam? Com os gays, isso não existe. Tenho inúmeras histórias de amizade e divertidíssimas com os casais homossexuais. São gentis simplesmente pela amizade. Um hetero, se e quando é gentil, normalmente, é porque tem outro interesse. Também já ouvi comentário do tipo “cuidado. Você anda tanto com gay que vão achar que você também é”. Ah... Esse é o tipo de comentário que já me irritou e hoje nem me dou ao trabalho de dizer mais nada. Não tenho que dar satisfação da minha vida ou dar prova de quem eu sou para ninguém além de meus pais e, de acordo com a circunstância, da minha chefe. “Diga-me com quem andas e eu te direi quem és”. Sim, ando com pessoas maravilhosas, trabalhadoras, inteligentes, amáveis. Já disseram que eu deveria ser musa de parada gay e que defendo mais os gays que eles próprios. Sorri imediatamente. E eu sonho com o dia em que eu não ouça mais essas perguntas e esses comentários. Sonho com um mundo melhor, em que todos tenham os mesmos direitos a ser feliz. Já fui a casamento gay. Já dormi em casa de amigos gays. Já viajei com amigos gays. E isso deveria ser a coisa mais natural do mundo. Por que? Porque são pessoas. Que pena quem não tem amigos gays para dançar, rir, chorar, desabafar, fazer um churrasco, gritar num jogo do Brasil, ir ao casamento mais divertido da vida, combinar uma viagem, ouvir broncas e elogios verdadeiros, morrer de trocar abraços e amanhecer com uma taça de espumante. Eu amo os meus e sou mais feliz por tê-los em minha vida!
quinta-feira, 22 de maio de 2014
Rita
Esta semana, foi aniversário de morte de minha avó. E fiquei a pensar sobre como é carregar uma homenagem no nome. Parte de meu nome, Rita, foi escolhido para homenagear minha avó materna. Como filha mais velha de sua filha caçula (11ª), não tive oportunidade de conhecê-la melhor ou de conviver com ela, seja pela distância geográfica (eu na capital federal, ela em Areia, brejo paraibano) ou pela distância das idades. Lembro de suas letras bordadas, pois trocávamos cartas. Lembro de sua cabecinha branca. Mas não lembro da pessoa. Não sei o que carrego dela em meu nome. Diz minha mãe que escolheu Ana para abrandar ou adoçar a dureza do nome Rita. Será que vovó Rita era durona como soam as letras? Será que o meu jeito bravo vem do nome ou da terra de origem de minha família? Numa das vezes que tive a chance de pedir autógrafo ao Lenine, ele escreveu, numa das capas dos discos, a dedicatória “para Ana Rita Moleza” em oposição a Ana Rita Durão, que, como disse, era o nome de uma escritora. Mas acredito que essa “moleza” está apenas naquelas letras pernambucanas, não nesta brasiliense de sangue paraibano. Tive problemas com meu nome quando mais jovem, pois sempre me confundiam, ainda confundem, com o nome da filha de Elis Regina ou da paixão de Roberto Carlos. Aprendi a não corrigir. Aprendi a amar meu nome. Um nome raro, cuja única homônima que conheço tem diversas coisas em comum comigo. Será responsabilidade do nome? Jamais daria nome de uma pessoa que desgosto a um filho ou uma filha. Não gostaria de chamar alguém que amo, ainda mais saído de mim, com uma lembrança desagradável. Ou talvez porque possa carregar algo não muito simpático da pessoa do nome original. Então, penso no peso que tem meu nome. Quem foi vovó Rita para que eu não estrague a herança que carrego? Espero que sua grandeza não tenha sido tamanha que eu não dê conta de levar. Espero que sua grandeza tenha sido tamanha para que ela também me alcance. É difícil saber o que vem com esse nome ou o que espero desse nome. Então, culpo Ana. Ana quebra a totalidade da minha responsabilidade. Posso ser Rita, mas sou e serei sempre também Ana. Rita, cujas palavras os pequenos não consegue pronunciar. Posso ser também Naíta, na língua das crianças. Posso ser as duas, posso ser uma, alternada com a outra. Mas Rita é inevitável. Os amigos escolhem mais este nome, talvez por combinar mais comigo ou porque é menos comum que Ana. E, há 15 anos, morria a homenageada de parte de meu nome. É muito ter o nome do amor de quem amamos. Espero que eu corresponda a tanto.
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| Rita e Ana Rita |
segunda-feira, 12 de maio de 2014
Tão cansada...
Depois de haver decidido ser feliz em todas as escolhas, acordo com um cansaço sobremaneira. Senti-me cansada com tudo o que de inusitado tenha surgido. São tantos fatos e tantas experiências inesperados que me esgotaram qualquer disposição. Não que surpresas não sejam bem-vindas, mas a fadiga prevaleceu diante de tanto acaso. É como se de tanto ter me aberto, agora eu gostaria de fechar-me. Mas, se eu me fechar, nem o que há de bom poderá me alcançar, mas me livrarei da loucura que atraio no mundo. Mas, para eu continuar aberta, falta-me energia. É como se houvesse, ao mesmo tempo, muita vida ou nada dela. Muitos vazios. Muitos pequenos momentos cheios de vida. Mas talvez eu queira apenas um momento grande cheio de vida. E não dá para prever ou saber se ele virá. Parece que a vida é uma grande inércia, percebamos ou não. É como se eu quisesse preencher todos os segundos diários e, ainda assim, é como se eu não preenchesse nada. Se eu não tiver mais a loucura do mundo perto de mim, sentirei falta? Ou estou cansada da lucidez constante que me denuncia a loucura presente? Vejo os outros e invejo a aparente normalidade. Mas talvez todos sejamos loucos ou tenhamos algo de louco. Não sei esperar. Tenho mania de viver. Tenho mania de dar chance. Vivo a estupidez e a intensidade até porque só vou saber o quanto estúpido ou intenso seja vivendo. Não padeço do “e se”. Só estou cansada de tudo e nada, como se tudo e nada fossem ou pudessem ser a mesma coisa.
segunda-feira, 31 de março de 2014
...
Acordei ínfima. Vi tudo tão pequeno, tão mínimo, tão insignificante, tão inútil. Nada faz sentido. Nem o caminho rotineiro, nem o passar das horas, nem a comida a ser mastigada, tampouco o trabalho a ser feito. Senti-me como se não me pertencesse. Estranhei o corpo que habitava, estranhei a razão das oito horas diárias, estranhei qualquer palavra verbalizada. Como se tudo fosse tão estranho de tão automatizado e sem qualquer sentido, norte, vocação, desejo. Nada familiar nessa estranheza toda. Nem o céu ao amanhecer nem o céu que escurece. Uma preguiça da ignorância própria que não se descobre. Uma inércia que é ela própria que leva o corpo ao banheiro, as mãos a digitar, a boca a responder. É como se meu cérebro tivesse se transportado ou tirado férias. Gestos programados, horários ditados, respostas fabricadas...
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