quinta-feira, 29 de outubro de 2015
Dia Mundial da Psoríase 2015
E chegou o dia dela, mais um. Ela que tanto me fez chorar, mas que, finalmente, hoje a enxergo com outros olhos. Hoje percebo que precisei dela para frear muito do que me fazia mal e não percebia. Precisei dela para aprender a fazer bem a mim mesma. Já encharquei travesseiros, já me cocei enlouquecidamente, já sangrei em meus lençóis, já me achei a coisa mais abominável, já não consegui vestir calça jeans. Hoje, acho que aprendi a aceitá-la e tento não dar mais tanta importância. E parece que, com isso, ela se acalmou e não me traz mais os seus sintomas mais fortes. Vejo meus lençóis limpos, não coço mais, visto calças jeans e choro por outros motivos. Hoje sinto que sou desejada e posso ser amada pelo o que sou, com minha feridas, minhas marcas, minhas lesões, minhas cicatrizes. Elas não me tornam pior ou menor. Essa doença faz parte de mim, mas não me resume. Começou pequenina e tomou e toma conta de metade do meu corpo. E não cheguei aqui sozinha. Precisei de broncas, afagos, preconceitos, lágrimas, abraços, para entendê-la, aceitá-la e me aceitar. E jamais pensei que agradeceria a ela, mas, sim, obrigada. Hoje sou uma pessoa melhor.
domingo, 27 de setembro de 2015
A doçura esquecida
Por mais breve ou longo que seja, por mais que um infinito seja menor ou maior que outros infinitos, é surpreendente sentir a doçura esquecida do mundo. Uma mão que toca a sua pele sem sentir a aspereza que ela possui. Um colo para assistir um filme que sempre vem junto com uma mão a afagar o cabelo e as costas. Olhos que enxergam o que pode haver de melhor. A disposição de acompanhar momentos de farra, preguiça ou supermercado. A naturalidade de brincar com os gatos que insistem em ficar próximos na cama. Um abraço que já viu gargalhadas e lágrimas e deu passos de samba. Um cuidado, um carinho, por quem se conhece tão pouco e, por ser tão pouco, emociona. Disse-me que é preciso olhar nos olhos. Disse-me que meus olhos falam. E jamais entendi a língua que falam, mas ele parece interpretá-los. Não sei o que será de meus olhos, de mim e da doçura esquecida do mundo. Mas vale a pena que tenha me lembrado de sua existência e do quanto isso pode adoçar a esperança, a vida, o dia a dia.
Para uma pessoa especial com quem esbarrei na madrugada em meio a uma roda de violão
Para uma pessoa especial com quem esbarrei na madrugada em meio a uma roda de violão
quinta-feira, 30 de julho de 2015
Sem novidades
Não. Não tenho novidades. A vida parece que estacionou. Nada parece acontecer. Ao menos, nada sensacional ou extraordinário. As coisas simplesmente seguem como vêm sendo. Nem um arrebatamento. Nem uma previsão de viagem. Nem uma esperança de ver as perebas sumirem. Nem uma possibilidade de um salário que volte a me dar independência. Nem uma grande emoção, nem uma boa surpresa. Nada. Não que isso me torne infeliz, mas, até para sentar em uma mesa de bar, elejo a companhia. Tenho preferido os poucos amigos de verdade, os perdidos, os solitários, os pensantes da vida. Aqui, não há ouvidos para julgamentos, lições de moral, cobranças de otimismo. Quero ouvidos parceiros, de quem sabe mostrar a vida em suas vertentes boa e ruim. Quero ao lado gente de verdade, que ri e chora, que eu dê e receba colo, que cuide e aceite ser cuidado. Essas pessoas quase não existem, mas tenho buscado as poucas que tenho. Elas sabem conversar sobre o simples e o complexo, se emocionam com o cômico e o trágico, riem e choram comigo. Se não fossem essas pessoas, eu realmente estaria estacionada, em uma vaga distante, escura, sem vestígio de vida.
segunda-feira, 27 de julho de 2015
Que pena de você,
que um dia eu ajudei sem pensar duas vezes e nunca me perguntou como eu estava tempos depois,
que me definiu por uma pele de aspecto e tato diferentes,
que, pelo meu jeito introspectivo, me subestimou,
que não possa pensar uma milésima chance para o sentimento que, ao que se diz, seja mútuo,
que, por defender os homossexuais, pensou ser eu homoafetiva,
que me tratou como uma comida que se joga fora,
que é incapaz de dar a mão a quem quer que seja,
que me trata como invisível por qualquer motivo,
que, pela minha franqueza, não percebeu exatamente o sentido,
que me traiu em todas as possibilidades da palavra,
que tem o ego acima de todas as coisas,
que me mostra, em cada um, a preguiça deste mundo,
que não chora, não se declara, não ama, não ajuda e não sonha.
que me definiu por uma pele de aspecto e tato diferentes,
que, pelo meu jeito introspectivo, me subestimou,
que não possa pensar uma milésima chance para o sentimento que, ao que se diz, seja mútuo,
que, por defender os homossexuais, pensou ser eu homoafetiva,
que me tratou como uma comida que se joga fora,
que é incapaz de dar a mão a quem quer que seja,
que me trata como invisível por qualquer motivo,
que, pela minha franqueza, não percebeu exatamente o sentido,
que me traiu em todas as possibilidades da palavra,
que tem o ego acima de todas as coisas,
que me mostra, em cada um, a preguiça deste mundo,
que não chora, não se declara, não ama, não ajuda e não sonha.
domingo, 28 de junho de 2015
Medo do mundo
Fotos coloridas, em arco-íris. Aos montes. Me pego a pensar. Tantos agredidos e assassinados simplesmente por amarem uma pessoa do mesmo sexo. Séculos vários anos antes de Cristo ou século XXI. Ouvi histórias de pessoas próximas ao longo da minha vida sobre a recusa de assim o serem pela sua família ou pela sociedade.
E, num dia em que os Estados Unidos aprovam em todos os seus estados o casamento gay, decido ir além de colocar uma foto colorida. Questiono a beleza de todas aquelas fotos coloridas. A mim caiu-me muito bem postar a própria foto em arco-íris. E nisso pensei, por exemplo, se essas mesmas pessoas aceitariam seus filhos, gerados em suas barrigas, crescendo em seus lares, sofrendo com a desconfiança e o preconceito alheios, gays. Em resposta, fui criticada e agredida por alguns pela má interpretação, pela falta de cuidado com a leitura das palavras que escrevi.
Não coloquei a foto colorida simplesmente para ir contra à "manada". Apenas pensei e quis além. Questionei para que se pensasse além de um belo gesto. Recebi concordâncias de quem entendeu o que eu propus. Mas, em um caso, me apontaram a minha doença. Uma questão que não pus em xeque, apesar de ser "militante" para o esclarecimento de tantos que a desconhecem.
Não entendi a agressividade, principalmente, de quem conheceu grande parte da minha história de vida e de quem eu conheço um pedaço da história de vida. Choquei-me. Hoje fujo, o que posso, de problemas e discussões desnecessários. Foi apenas um raciocínio, uma reflexão que pensei positiva sobre mais uma vitória dos gays. Mas isso gerou repercussão negativa de alguns.
Estou cansada. E cansei-me ainda mais. Tenho medo do mundo. E tive ainda mais medo do mundo. Percebi como é possível a deturpação das palavras, do desejo, de um pensamento, de vários sonhos. Percebi como a falta de interpretação pode levar a julgamentos opostos. Percebi como pode existir uma agressividade gratuita por o que se entendeu errado. Percebi como se pode ser taxado por uma coisa que não foi defendida.
Eu quero a cura da minha doença. Não queria ter perdido uma pessoa por uma doença rara e incurável. Não queria ter perdido uma pessoa em um acidente de trânsito. Não queria que uma das pessoas que eu mais amo tivesse uma doença. Queria que um amigo voltasse a andar. E queria e quero muitas outras coisas. Mas, naquele momento, não foi sobre isso que falei. Naquele momento, não falei sequer da minha doença.
Sim, eu tenho muitos medos. E tenho, principalmente, medo do mundo.
E, num dia em que os Estados Unidos aprovam em todos os seus estados o casamento gay, decido ir além de colocar uma foto colorida. Questiono a beleza de todas aquelas fotos coloridas. A mim caiu-me muito bem postar a própria foto em arco-íris. E nisso pensei, por exemplo, se essas mesmas pessoas aceitariam seus filhos, gerados em suas barrigas, crescendo em seus lares, sofrendo com a desconfiança e o preconceito alheios, gays. Em resposta, fui criticada e agredida por alguns pela má interpretação, pela falta de cuidado com a leitura das palavras que escrevi.
Não coloquei a foto colorida simplesmente para ir contra à "manada". Apenas pensei e quis além. Questionei para que se pensasse além de um belo gesto. Recebi concordâncias de quem entendeu o que eu propus. Mas, em um caso, me apontaram a minha doença. Uma questão que não pus em xeque, apesar de ser "militante" para o esclarecimento de tantos que a desconhecem.
Não entendi a agressividade, principalmente, de quem conheceu grande parte da minha história de vida e de quem eu conheço um pedaço da história de vida. Choquei-me. Hoje fujo, o que posso, de problemas e discussões desnecessários. Foi apenas um raciocínio, uma reflexão que pensei positiva sobre mais uma vitória dos gays. Mas isso gerou repercussão negativa de alguns.
O comentário doeu-me fundo. Doeu-me pela qualquer falta de comparação entre ser homossexual e ter uma doença. Doeu-me pela ofensa gratuita. Doeu-me pela deturpação ou falta de interpretação de minhas palavras que apenas tiveram a intenção de pensar, desejar e sonhar além da fotos coloridas. Ao final, li que eu fui amarga em relação a um movimento bonito.
Li e reli. Olhei para dentro e me revirei. Em nenhum momento de minha vida, fui contra os direitos dos homossexuais. Em nenhum momento do que escrevi, fui contra mais uma vitória do bem no mundo. Minha doença e a alegada amargura foram duas das respostas que recebi.
Li e reli. Olhei para dentro e me revirei. Em nenhum momento de minha vida, fui contra os direitos dos homossexuais. Em nenhum momento do que escrevi, fui contra mais uma vitória do bem no mundo. Minha doença e a alegada amargura foram duas das respostas que recebi.
Estou cansada. E cansei-me ainda mais. Tenho medo do mundo. E tive ainda mais medo do mundo. Percebi como é possível a deturpação das palavras, do desejo, de um pensamento, de vários sonhos. Percebi como a falta de interpretação pode levar a julgamentos opostos. Percebi como pode existir uma agressividade gratuita por o que se entendeu errado. Percebi como se pode ser taxado por uma coisa que não foi defendida.
Eu quero a cura da minha doença. Não queria ter perdido uma pessoa por uma doença rara e incurável. Não queria ter perdido uma pessoa em um acidente de trânsito. Não queria que uma das pessoas que eu mais amo tivesse uma doença. Queria que um amigo voltasse a andar. E queria e quero muitas outras coisas. Mas, naquele momento, não foi sobre isso que falei. Naquele momento, não falei sequer da minha doença.
Sim, eu tenho muitos medos. E tenho, principalmente, medo do mundo.
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