domingo, 9 de maio de 2010

Salada de artistas

Brasileiros, cubanos, argentinos, colombianos, chileno e venezuelano abrem projeto do CCBB

Ana Rita Gondim

Aos que já visitaram a ilha socialista, ir à abertura do projeto Afrolatinidades – Matriz africana da música latina do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), ocorrido na sexta e no sábado, é como revisitar o território de Fidel Castro. Com quatro encontros, com participação de artistas da América Latina, África e Europa, a banda Songoro Consongo conduz todos os shows da série. No primeiro, Tropicalidade caribenha: Cuba e centro América, com o grupo formado por brasileiros, argentinos, colombianos, chileno e venezuelano, subiram ao palco também os cubanos René Ferrer, radicado no Rio de Janeiro, e Pancho Amat.

O grupo abriu o projeto com a canção homônima, o que tornou possível descobrir a pronúncia do nome Songoro Cosongo. Os oito integrantes no palco já impressionam na primeira música, com a variedade de instrumentos e a voz do venezuelano Aléxis José Graterol, que mais parece um cubano devido à familiaridade com a salsa, assim como todo o conjunto. Depois, o bolero Jardín de besos antecede a presença de René Ferrer, que, assim que sobe ao palco, é como transportar o público às ruas de Havana, com seu visual e sua voz forte. Certa vez, em território castrista, uma amiga dissera que a beleza da voz de todos os nativos cubanos pode ter explicação no consumo de rum e charutos. Na apresentação, a teoria ganhou ainda mais sentido.

Além da voz, René anima a plateia com sua alegria e simpatia – presentes do início ao fim por todos os artistas. De sua autoria, ele e o grupo apresentam Como en cada mañana e Ochún, cantadas sempre sorrindo e acompanhadas de sua ginga caribenha. Songoro Cosongo chama a atenção pela versatilidade dos músicos, os quais quase todos tocam mais de um instrumento. O chileno Arturo Cussen lidera o show de uma hora e meia, com um português quase impecável – o sotaque é apenas perceptível em raras palavras –, como o próprio Pancho Amat ressalta mais à frente.

Os dreadlocks de René Ferrer dão lugar aos sapatos bicolores e ao chapéu habitual de Pancho Amat, considerado mundialmente o maior intérprete do tres cubano, uma derivação do violão com três pares de cordas duplas. Em estilo bastante diferente ao conterrâneo anterior, tanto em gênero, como no visual e na faixa etária, Pancho dá um show literalmente com seu instrumento. A figura do compositor e arranjador encanta pela habilidade dos dedos ágeis nas cordas duplas, pelo apreço que demonstra pelos músicos que o acompanham e pela paixão musical que transborda em suas pernas inquietas e tresloucadas, que parecem não suportar tamanha emoção. De Pancho, eles cantam Llegó el tresero, Tal vez a los 50 e En el Café.

O grupo “sui generis”, cunhado dessa forma por Pacho Amat por ser um conjunto de música cubana sem ter um cubano sequer em sua formação, anuncia o fim do show com Lágrimas negras, de Miguel Matamoros. Os cubanos, na plateia e no palco, entram em êxtase e fazem coro com a canção. Todos os espectadores se levantam e alguns se entusiasmam ainda mais. Ao fim, o público bate palmas querendo bis e Arturo Cussen já avisa que haviam se preparado para este momento e apresenta Maracujá, composição da banda de múltiplas nacionalidades. A letra casa com o espetáculo, uma salada de artistas latinoamericanos: “maracujá, abacaxi, melancia, limão, misturado com cachaça fica muito bom”. A impressão é que rum e cachaça dão um belo e frutífero casamento.



Publicado no site Diversão & Arte

segunda-feira, 29 de março de 2010

Os paradoxos e os enigmas de Manuel Carreiro

E-book do autor canadense é um convite a buscar a curiosidade infantil para então se divertir com sua obra

Ana Rita Gondim

"Este livro é dedicado para quem não tem voz", avisa o autor logo na dedicatória do livro. Paradoxalmente, também logo no início, o escritor antecipa o bom humor que virá em algumas das páginas seguintes com opiniões de David Foster Wallace, Friedrich Nietzsche, Johannes Gutenberg e Tomás Antônio Gonzaga, datadas de séculos passados e próximos anos. Os pequenos deuses da trapaça, de Manuel Carreiro, é um misto de universal e atual, de brincadeira e reflexão, de antigo e moderno, de catarse e ficção.

O livro, ou melhor, o e-book (livro eletrônico) do autor canadense, filho de pai português e mãe brasileira, vivido há muito tempo no Brasil, pode ser encomendado pelo site http://manuelcarreiro.com e o interessado pode pagar o valor que achar justo. Para os que preferem ler da forma tradicional, basta imprimir as 67 páginas. "Literatura é literatura impressa no papel, em arquivo virtual, rascunhada num guardanapo, inscrita num tronco de árvore. Foi-se o tempo em que ser publicado por uma editora de renome legitimava a boa qualidade (ou não) de um artista", explica Manuel Carreiro ao divulgar sua segunda obra (o primeiro é Eram os deuses escritores?, de 2004, uma brincadeira com Eram os deuses astronautas?, de Erick von Daniken) em site e por e-mail.

Resultado de um trabalho de seis anos - dois anos de rascunhos e quatro para afiar a linguagem -, o novo livro de Carreiro apresenta uma compilação de estórias - sim, estórias, que, apesar do desuso, ele mesmo assume e informa ao final: "o texto deste livro (des)obedece às normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. E também às regras do mercado editorial" - as mais variadas. Algumas são mais catárticas, outras se utilizam mais de espelhos, umas mais silenciosas, outras mais doloridas, algumas mais enigmáticas, outras mais paradoxais. O jogo com as palavras também é uma característica marcante na obra.

É comum se deparar com vestígios de Clarice Lispector e Nietzsche em suas páginas. Não à toa, além de escritor e leitor contumaz, Jason é bacharel em Filosofia (2002) e mestre em Letras (2006), ambos pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG). E hoje ele é doutorando e pesquisador em Filosofia da Educação na Simon Fraser University, no Canadá. Ademais, ele dá aulas inglês numa escola em Vancouver, terminou recentemente a tradução, do português para o inglês, do romance Monte verità, do carioca Gustavo Bernardo, e há um ano trabalha numa tradução, do inglês para o português, do conto Good old neon, do escritor americano David Foster Wallace. Apesar disso, o autor afirma que não é preciso bagagem ou iniciação filosófica para entender as suas palavras:

"É um livro pra quem gosta mesmo de pensar e se encantar com a falta de sentido. Tem muita vida no meio daquela solidão e tragédia toda dos contos. Precisa ser naturalmente curioso. Uma criança seria capaz de ler e se divertir com meu livro melhor do que um adulto porque elas sabem brincar e são curiosas. Mas, desde crianças, aprendemos a calar as perguntas. O menino pergunta: porque o céu é azul, pai? E a gente manda ele calar a boca. No fim das contas, a ideia é essa. Perdemos a capacidade de nos indignar com o mundo, de nos espantar. Quem tem essa indignação, esse encanto, acaba até se divertindo [com o livro]".

Apesar de divertir, o livro exige atenção para não cair nas armadilhas do autor. O próprio título é um enigma. Quem são os pequenos deuses da trapaça? Leia e descubra, assim como as demais relações, números e jogos de palavras. De antemão, o escritor adverte que a obra tem pistas falsas. E conclui: "é um livro pra pirar mesmo, não pra vender".

Trecho de Alma nômade

"(...) Agora me vejo, subitamente, apanhado por um desejo profundo de correr e correr, porque minha mente e meu espírito anteviram a cidade abaixo de mim - lá há crianças famintas, há adultos abusando de crianças, há maridos enganando suas esposas e esposas enganando os seus maridos (estou parecendo um código de ética, hoje, mas perceba leitor, que este comentário ultrapassa qualquer moralismo que você queira imbricar em minha narração - eu apenas constato as máscaras que os homens usam, esses pequenos deuses da trapaça) há pessoas matando por pouco dinheiro, e há jogos de dissimulação nojentos e mentiras mentiras mentiras e há também coisas boas, há também pessoas que se ajudam, não sou um pessimista, há aqueles que se dedicam com ardor a ajudar os perdidos, há muito amor sincero, há pessoas pacientes e calmas e alegres e contadores de estórias e (eu acho que vou desistir, vou me fundir aos prédios cinza da cidade e desistir) - (...)"

Os pequenos deuses da trapaça
Manuel Carreiro
Preço sugerido (o interessado pode pagar quanto quiser): USD $ 9,90/ R$ 14,99
E-book em formato PDF - venda exclusiva pela Internet
Pelo endereço http://manuelcarreiro.com
Todos os cartões de crédito e débito são aceitos. Assim que o valor for creditado na conta, o livro será enviado por e-mail

Publicado no jornal Correio Braziliense e no site Diversão & Arte

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Em busca ou à espera

Recebi um comentário esses dias que me “espantou”. Numa resposta, num conselho ou numa advertência, o amigo me disse: “o extraordinário vem de dentro pra fora, não o contrário”. Não foi algo que li e rapidamente segui meus afazeres. Detive-me um tempo. No mesmo instante, lembrei da conversa que tive com uma amiga assim que cheguei ao trabalho, lembrei das minhas noites de insônia devido aos incessantes pensamentos e análises e conjecturas e planos e sonhos e frustrações, lembrei do que galguei até hoje e do que consigo vislumbrar nebulosamente mais à frente, lembrei dos meus repetidos fracassos amorosos, juntos com suas alegrias e lágrimas, lembrei da minha inconstância, lembrei de mim.

Caço o extraordinário porque sem ele não há passos. Mas, porque é extraordinário e para sê-lo, ele acontece raramente. Preciso de atenção para enxergá-lo, pois posso confundi-lo com a camuflagem do ambiente. Meus olhos, cansados ou acostumados, podem não discerni-lo à paisana. Preciso apurar minha delicadeza para encontrar o detalhe. Particularidade esta que acredito toda vez que encontro algo reluzente, mas não é isso que o faz extraordinário. E acredito que sua ausência decorra não porque eu procure, mas porque espero. Não vou tanto a campo porque posso me perder e o que poderia me ser encontrado pode ser me desviado do meu caminho. E também porque não sei aonde ir, que direção tomar. Deixo-me levar a mim, mesmo que não seja o correto, mas porque aprendi que comigo tudo me vem lenta e retardatariamente, e vem, tardiamente, mas vem, ou ainda não vivi o suficiente para ter certeza.

Não sei se estou em busca ou à espera. Tampouco sei se sei buscar o que desejo, ou se o que busco seja encontrável. Talvez o extraordinário esteja em mim, esteja no outro que não enxergo, esteja na habilidade que desconheço ou subestime, esteja no ordinário mais comum e imprescindível. E agradeço a este amigo que me ocupou do extraordinário no mais ordinário dos dias.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Cuba

Aos que desejarem saber da viagem à "menina dos olhos de Fidel Castro", a dica é o blog Ilhada da minha companheira, amiga e guia turística Ariadne, conhecida carinhosamente por Riris