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domingo, 9 de maio de 2010

Salada de artistas

Brasileiros, cubanos, argentinos, colombianos, chileno e venezuelano abrem projeto do CCBB

Ana Rita Gondim

Aos que já visitaram a ilha socialista, ir à abertura do projeto Afrolatinidades – Matriz africana da música latina do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), ocorrido na sexta e no sábado, é como revisitar o território de Fidel Castro. Com quatro encontros, com participação de artistas da América Latina, África e Europa, a banda Songoro Consongo conduz todos os shows da série. No primeiro, Tropicalidade caribenha: Cuba e centro América, com o grupo formado por brasileiros, argentinos, colombianos, chileno e venezuelano, subiram ao palco também os cubanos René Ferrer, radicado no Rio de Janeiro, e Pancho Amat.

O grupo abriu o projeto com a canção homônima, o que tornou possível descobrir a pronúncia do nome Songoro Cosongo. Os oito integrantes no palco já impressionam na primeira música, com a variedade de instrumentos e a voz do venezuelano Aléxis José Graterol, que mais parece um cubano devido à familiaridade com a salsa, assim como todo o conjunto. Depois, o bolero Jardín de besos antecede a presença de René Ferrer, que, assim que sobe ao palco, é como transportar o público às ruas de Havana, com seu visual e sua voz forte. Certa vez, em território castrista, uma amiga dissera que a beleza da voz de todos os nativos cubanos pode ter explicação no consumo de rum e charutos. Na apresentação, a teoria ganhou ainda mais sentido.

Além da voz, René anima a plateia com sua alegria e simpatia – presentes do início ao fim por todos os artistas. De sua autoria, ele e o grupo apresentam Como en cada mañana e Ochún, cantadas sempre sorrindo e acompanhadas de sua ginga caribenha. Songoro Cosongo chama a atenção pela versatilidade dos músicos, os quais quase todos tocam mais de um instrumento. O chileno Arturo Cussen lidera o show de uma hora e meia, com um português quase impecável – o sotaque é apenas perceptível em raras palavras –, como o próprio Pancho Amat ressalta mais à frente.

Os dreadlocks de René Ferrer dão lugar aos sapatos bicolores e ao chapéu habitual de Pancho Amat, considerado mundialmente o maior intérprete do tres cubano, uma derivação do violão com três pares de cordas duplas. Em estilo bastante diferente ao conterrâneo anterior, tanto em gênero, como no visual e na faixa etária, Pancho dá um show literalmente com seu instrumento. A figura do compositor e arranjador encanta pela habilidade dos dedos ágeis nas cordas duplas, pelo apreço que demonstra pelos músicos que o acompanham e pela paixão musical que transborda em suas pernas inquietas e tresloucadas, que parecem não suportar tamanha emoção. De Pancho, eles cantam Llegó el tresero, Tal vez a los 50 e En el Café.

O grupo “sui generis”, cunhado dessa forma por Pacho Amat por ser um conjunto de música cubana sem ter um cubano sequer em sua formação, anuncia o fim do show com Lágrimas negras, de Miguel Matamoros. Os cubanos, na plateia e no palco, entram em êxtase e fazem coro com a canção. Todos os espectadores se levantam e alguns se entusiasmam ainda mais. Ao fim, o público bate palmas querendo bis e Arturo Cussen já avisa que haviam se preparado para este momento e apresenta Maracujá, composição da banda de múltiplas nacionalidades. A letra casa com o espetáculo, uma salada de artistas latinoamericanos: “maracujá, abacaxi, melancia, limão, misturado com cachaça fica muito bom”. A impressão é que rum e cachaça dão um belo e frutífero casamento.



Publicado no site Diversão & Arte

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Preciso dizer alguma coisa?! :-)

Lenine e sua flor chegam a Brasília

Ana Rita Gondim

“Só tenho flores pra jogar...” Dessa forma, Elba Ramalho chamou ao palco seu convidado especial para cantarem juntos Lá e Cá no CD Grande Encontro 3 (2000). O artista solicitado era o cantor, compositor e produtor pernambucano Lenine. A cantora paraibana é tida como sua madrinha no meio musical por ter sido a primeira a cantar uma música de autoria do artista. Para ele, ela foi uma “poderosa janela”, assim como para uma geração de artistas. E é com nome de flor que Lenine faz nesta sexta-feira, no Centro de Convenções, o show homônimo de seu oitavo e mais novo disco: Labiata.

Apaixonado por orquídeas, prazer que cultiva e coleciona há nove anos, a escolha da espécie para nomear o novo trabalho foi, segundo ele, totalmente passional. Primeiramente, pela sonoridade da palavra e, depois, para reverenciar o latim que descreve a flor brasileira. Além disso, relacionar a música com outra paixão sintetiza a particularidade do disco. “Também levei em consideração por se tratar de um projeto que tem uma característica muito evidente que é a intimidade porque me cerquei só das pessoas muito próximas pra fazer todo o projeto. Eu optei também por reafirmar esse tipo de intimidade e escolhi um nome de uma paixão minha, que são as orquídeas”, explica o músico de sotaque forte.

A intimidade de que Lenine fala, além das letras das novas composições, foi a continuação da presença dos parceiros de trabalho desde o início da carreira, como Lula Queiroga, Bráulio Tavares, Ivan Santos, Carlos Rennó, Dudu Falcão, Paulo César Pinheiro e Arnaldo Antunes. “Na verdade, eu sofro desta alta fidelidade há muitos anos. É uma doença maravilhosa de estar só com os muito próximos. E nesse disco eu levei isso até as últimas consequências. E os parceiros são os meus desconfiômetros, essas pessoas estão comigo ao longo de 30 anos que estou por aí”, enaltece.

Além disso, a banda que o acompanha há vários anos – Pantico Rocha na bateria, Guila no baixo e JR Tolstoi na guitarra e coprodutor de Labiata junto com Lenine – retornou ao trabalho em estúdio e para o show de hoje, uma parceria interrompida nos dois trabalhos anteriores (Acústico e In Cité). “Eu acho que talvez esse seja o disco mais íntimo e mais autoral até por consequência de toda essa intimidade”, classifica o artista.

Para a apresentação de hoje, que começa às 22h (com abertura do foyer às 19h para um happy hour), Lenine confirma Labiata como a base do espetáculo. Composições de outros discos poderão entrar no repertório, mas mais por improviso e no momento do bis. “Pra ser honesto, eu estou naquela situação do pai querer mostrar o filho novo. (risos) O menino começa a andar com as próprias pernas, então, eu sempre priorizo esse repertório”, brinca o artista.

O disco
Não bastassem as diferenças com os trabalhos anteriores, o novo disco resgata um som forte, como na faixa O céu é muito, que remete à consciência musical do artista ter surgido com o rock anos atrás. “Tem muito dessa coisa da hibridagem, uma coisa que já faço há muitos anos, mas que, no Labiata, talvez esteja mais evidente uma música mais poderosa, mais pesada, mais rock’n’roll mesmo. Talvez seja um grande exorcismo do meu lado Led Zeppelin”, relaciona. Outra novidade vem com Samba e leveza, composta por Lenine e Chico Science e dedicada a Goretti, irmã de um dos principais colaboradores do movimento manguebeat falecido em 1997.

A participação póstuma do outro também músico pernambucano chegou às mãos de Lenine por meio de Goretti, “a musa da canção”. Segundo ele, ela foi à sua casa com os manuscritos nas mãos e contando que, antes de falecer, ele estava romântico e cantarolava uma canção. “E ela, de uma maneira muito gentil e muito carinhosa, olhou pra mim e disse ‘só você, você é a única pessoa que pode transformar isso em palavras’”, conta emocionado. A própria música revela o encontro e a intimidade entre Goretti e Lenine: “Foi na leveza, só sentimento, e me entregou suas palavras, como quem dava um pedaço”.

Outra novidade é a presença dos seus três filhos (João Cavalcanti, da banda Casuarina, Bruno Giorgi e Bernardo Pimentel) na última canção do disco, que, não por acaso, chama-se Continuação. “Num momento em que eu fazia e reafirmava um disco completamente íntimo, nada mais óbvio do que pegar as minhas crias”, revela carinhosamente. Ao explicar o momento da gravação da música, Lenine compara com a primeira vez que entrou numa destas salas. “Foi um momento muito especial, inesquecível, Foi bacana perceber que, pra eles, não existe aquela coisa ritualística de entrar no estúdio pra gravar. Eu me lembro da primeira vez que entrei num estúdio, pra mim era terrificante, todos aqueles equipamentos em função de você. Eles tiraram de letra”, conta.

Para os que não acompanham a trajetória do músico ou desconhecem o mais novo trabalho, Labiata não é totalmente estranho. É o que Interessa, escrita por Lenine e Dudu Falcão, foi sucesso da trilha sonora da novela A Favorita, da TV Globo. Martelo Bigorna, composta unicamente por Lenine, também é ouvida em Caminho das Índias, no papel da personagem de Letícia Sabatella, também da TV Globo. Várias faixas de outros discos seus ou um trabalho específico já foram temas de outras novelas, minissérie e filme (direção musical de Caramuru – A invenção do Brasil, de Guel Arraes e Jorge Furtado), espetáculo (trilha sonora de Breu, do grupo de dança O Corpo; direção musical de Cambaio, dirigido por João Falcão). Além disso, Lenine também produziu trabalhos de outros artistas, como Segundo de Maria Rita, De uns tempos pra cá de Chico César, Lonji de Tcheka, cantor e compositor do Cabo Verde, e Ponto Enredo de Pedro Luis e a Parede.

Entrevista

Como é dirigir espetáculos, fazer trilha sonora para filmes?
Lenine: Pra te ser sincero, eu achei que minha vida toda eu estava me preparando pra fazer cinema. Foi o estímulo inicial, eu queria trabalhar com audiovisual, e descobri muito cedo que isso saía muito mais caro do que fazer um show... (risos) Então, por falta de grana, eu comecei a fazer show... (risos) Não, mas eu acho que está próximo da música, a música brasileira, a música refinada e aprofundada que a gente tem aqui no Brasil, ela vem de mãos dadas com o cinema, com o teatro, com a literatura. Ela realmente tem uma abrangência muito maior com a arte. Aqui no Brasil, existe esse diálogo entre as artes.

Diante de uma nova música, o violão, a batida já denunciam que é música sua...
Lenine: Você sabe que isso foi engraçado porque nunca foi uma procura minha, parece que eu passei o tempo todo descobrindo e procurando como um cientista maluco, um alquimista (risos), uma maneira de fazer... Não foi assim, não. Foi o exercício. É intuitivo. Então eu vou fazendo muito ao sabor do destino.

A engenharia química tem a ver com não conseguir se classificar num gênero específico?
Lenine: Eu acho que você foi ao cerne da questão. Aliás, tem uma grande regra que rege toda a química e mesmo a alquimia e que é assim: se você tem o objetivo de ser homogêneo, tem que saber ser heterogêneo. Parece paradoxal, mas não é isso. Pra você conseguir uma reação realmente que ela tenha uma homogeneidade, você tem que saber o que está misturando. Eu acho que essa regra eu levei pra minha vida de uma maneira geral. E a música que eu faço é muito dessa alquimia que eu aprendi.

Sobre o bloco de carnaval Quanta Ladeira, já existe alguma música prevista?
Lenine: (risos) Quanta Ladeira, rapaz, não existe fora do contexto do Carnaval. (risos) O Quanta Ladeira é catarse. Quanta Ladeira não tem filtro. O Quanta Ladeira é uma besteira da maior qualidade (risos), que, fora do contexto do Carnaval, eu tenho a maior vergonha. É um bando de vagabundo que descobre uma maneira, no meio do Carnaval, de se reunir e fazer uma ode, que se chama as “retrohomenagens”. A gente “retrohomenageia” um bocado de gente. (risos) É o máximo que eu posso dizer sobre esse bloco anarco-exibicionista. (risos)

Fala-se que você é antropofágico, canibal, que faz música predatória brasileira. O que significa isso?
Lenine: Não tenho a mínima ideia, nêga, é a tentativa de neguinho botar um rótulo no que eu faço. Eu brinco. Dentro dos adjetivos que usaram para a música que eu faço, um que eu acho que se adequa mais é o contemporâneo. Então, se me perguntarem ‘o que é que você faz?’: música contemporânea. Está de bom tamanho.

Ainda se diz muito por aí que não se faz mais boa música no Brasil...
Lenine: Eles estão surdos e míopes. (risos)

Você se diverte fazendo música?
Lenine: Ah, minha nêga, eu continuo com a sensação juvenil toda vez que subo um palco, que entro num estúdio. E eu tenho impressão que se um dia eu perder esse tesão, eu vou fazer outra coisa. Eu consegui de alguma maneira preservar esse tipo de paixão que a música tem. Então, eu continuo me divertindo em demasia.

Você diz que é um “cantautor”...
Lenine: Isso. Eu não me permito cantar músicas dos outros porque eu esqueço muito as letras. Imagina? Quando eu estou cantando a minha música, na hora que eu esqueci, a pessoa que está ouvindo diz ‘não, isso é uma adaptação, ele está fazendo uma nova letra para a música’. (risos) Agora imagina se eu faço isso com a música do Tom Jobim ou do Chico Buarque? (risos) ‘Cantautor’ é uma figura histórica que surge no nosso tempo no século XI, que é a figura dos trovadores. Esses trovadores ali que saíam de vila em vila com um instrumento rústico cantando as composições que eles faziam, como repórteres de sua época, como a rádio e o jornal de sua época. Essa figura histórica, eu me identifico muito com ela. Acho que é o que eu faço. Qualquer pessoa que canta o que compõe é uma figura do trovador.

Publicado no Divirta-se

quinta-feira, 26 de março de 2009

Fabiana Cozza faz show na cidade pela primeira vez

Ana Rita Gondim
Do Correiobraziliense.com.br

“O homem que diz vou não vai” é só música para Fabiana Cozza. Mas, contrária ao trecho da canção Canto de Ossanha de Vinicius de Moares e Baden Powell, a cantora paulistana diz que vem e estará pela primeira vez em Brasília nesta quinta-feira (26/03) pelo projeto Engate a Quinta do Espaço Brasil Telecom. E o afro-samba não é mera brincadeira, é parte de seu mais novo trabalho que será apresentado em Brasília.

Fabiana Cozza explica que prefere não criar expectativas em relação à sua estreia na cidade. “Eu gosto de me misturar. Cada lugar é um lugar, cada gente é uma gente. Farei o melhor espetáculo, bastante alegre, vivo e que tenha sinceridade. Cada vez eu me esforço para que seja bem brasileiro e que seja visto dessa forma”, avisa.

E essa mistura vem dela própria. Filha de mãe italiana e de pai negro, Fabiana explica que essa miscigenação transborda para a música. “Essa minha identidade misturada me possibilita ter um passaporte para o mundo”, conta. E o mundo tem, de fato, se tornado seu palco após as últimas experiências, quando gravou um disco em língua basca e participou de shows no Japão.

A paulistana é considerada uma das mais importantes intérpretes da música brasileira na atualidade. Ela, inclusive, chegou a ser considerada herdeira legítima de Elizeth Cardoso por nomes como Ivan Lins, João Bosco e Nelson Motta. “Eu fico muito lisonjeada, esta é a verdade. E é muita responsabilidade. Faz com que eu tenha muita disciplina com o meu trabalho, muita dedicação. A proposta efetivamente é levar adiante essa bandeira da música que mulheres como Elizeth e Clara Nunes levaram”, revela.

Com dois CDs lançados em 12 anos de carreira – O Samba é meu dom (2005) e Quando o céu clarear (2007) –, Fabiana Cozza foi indicada ao Prêmio TIM 2008 na categoria Melhor Cantora de Samba pelo último trabalho. Em 2005, por conta do primeiro disco, recebeu as indicações para Revelação e Melhor Cantora de Samba e participou do Prêmio Rival Petrobras na categoria Artista Revelação.

Prova das fusões que realiza, seu último registro tem participações especiais da grande dama do samba Dona Ivone Lara, do Quinteto em Branco e Preto e dos talentosos cubanos Julio Padrón (trompetista), que fez uma leitura inédita de Canto de Ossanha, e Yaniel Matos (pianista). “Padrón é um dos maiores trompetistas do mundo. Yaniel também é um músico extraordinário, com quem tenho a maior identidade. E Dona Yvone Lara veio abençoar a minha caminhada com a sua voz no meu disco”, vangloria-se.

Seu próximo trabalho é o lançamento do DVD de Quando o céu clarear, que deverá sair em meados de junho. Gravado no Auditório Ibirapuera, o registro tem participação da cantora Maria Rita e do rapper Rappin’Hood.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Pequeno gigante pernambucano

Ah! O que falar do show de Antônio Nóbrega, o que falar de Antônio Nóbrega… Falta a palavra específica para definir o encantamento diante de um verdadeiro show, de um artista multifacetado, de um palco utilizado em todos os seus centímetros. A grandeza que os pernambucanos colocam em tudo que é do seu estado torna-se a mais completa verdade ao assistir ao músico, compositor, cantor, dançarino, entre vários outros adjetivos que cabem neste homem de aparência miúda.

O quinteto já tendo iniciado a primeira música, entra ele, de chapéu, camisa e calça largas, com o seu violino já preparado para arrebatar o público. Aplausos eufóricos. E ele sorri, começa seu próprio show, brinca com o instrumento e com as suas pernas, que mais parecem feitas de mola e não denunciam jamais a sua idade. Todo o espetáculo é um paradoxo de seriedade e jocosidade; seriedade pela excelência de tudo o que se apresenta; jocosidade pelos tantos sorrisos, comentários, pernas malemolentes, participações com o público.

Sua grandeza também está na variedade de instrumentos e gêneros que domina e culmina em aplausos antes mesmo de uma composição acabar. Violino, violão, bandolim. Instrumentais, frevos, choros, sambas. A maestria em tudo que se vê dá uma vontade de não querer nem piscar os olhos para não perder um segundo, sem falar dos ouvidos, que permanecem o tempo inteiro atentos para tanta virtuosidade. Flashes relampejam constantemente diante da vontade de registrar para sempre aquele momento único, que, no entanto, foi delicadamente pedido pelo artista para que se interrompesse.

Minha ignorância pede urgência para ser demolida. Como é possível eu já não ter visto este pequeno gigante é a grande pergunta que me fiz após o espetáculo. Além de brasileiro e, ainda mais, pernambucano (minhas grandes paixões musicais), é inovador, é aglutinador, é encantador. Quase duas horas de tantas maravilhas retiram todo o cansaço, todo o sono, e nos alegra com beleza e excelência.

Para terminar, me utilizo de suas próprias palavras: "licença, que eu vou rodar no carrossel do destino".

sábado, 7 de março de 2009

Roberto Corrêa e Siba Veloso lançam CD em em show na Granja do Torto

Ana Rita Gondim

A fusão da cultura do planalto central com a do nordeste é a peculiaridade da terceira noite do 9º Encontro de Folia de Reis do Distrito Federal. O violeiro mineiro Roberto Corrêa, residente em Brasília há mais de 30 anos, e o pernambucano Siba Veloso - um dos criadores do extinto grupo Mestre Ambrósio - estarão juntos neste sábado (07/03), às 22h30, no palco da Granja do Torto para lançar o disco Violas de Bronze. A entrada é franca e a classificação indicativa, livre.

“Nós criamos as nossas músicas tendo como base nossas referências culturais. Então, o disco tem uma sonoridade peculiar, é um encontro singular das regiões. As pessoas vão apreciar o trabalho, tanto o público do Nordeste como o público daqui vão gostar do resultado”, promete Roberto Corrêa.

Para caracterizar suas respectivas regiões, Corrêa toca viola caipira e viola de cocho (instrumento típico de Mato Grosso). Siba entra com a viola nordestina e com a rabeca. “Ao mesmo tempo que representa a junção das duas regiões, é também um trabalho autoral de dois artistas individuais, com histórias bem diferentes. Para mim, foi uma experiência enriquecedora. O Corrêa me obriga a correr muito para acompanhá-lo, ele é um virtuose, dedicou-se a vida inteira a tocar muito bem um instrumento. Eu já sou mais ligado ao texto, à poesia rimada. A gente somou bastante um ao outro”, conta o músico pernambucano.

A apresentação de Roberto Corrêa e Siba integra o terceiro dia do encontro, que começou na última quinta-feira e vai até amanhã. O evento mantém viva a tradição das folias de reis, herdada da colonização portuguesa, e permite ao público assistir a um repertório variado da cultura popular, tanto em termos musicais como de crenças, valores e conhecimentos tradicionais (confira a programação).

Para o violeiro Roberto Corrêa, o encontro é uma oportunidade única tanto para os convidados quanto para o público. “É como assistir a um show num galpão, num bar, é bem informal. Na verdade, é um grande pouso de folia”, compara. Siba se diz animado com a apresentação de hoje à noite. “Brasília tem tradicionalmente um público bem aberto. Minha expectativa aqui é sempre a melhor possível”, revela. Após o show da dupla, André e Andrade sobem ao palco.

Amanhã, os brasilienses assistirão à grande dama da cena caipira brasileira, Inezita Barroso, que será acompanhada do Grupo Feminino de Folia de Reis de Vazante (MG). A abertura do show ficará por conta das duplas Kleuton & Karen, Rosa Branca & Canarinho e Caipira & Caipora.

Publicado no Divirta-se

quarta-feira, 4 de março de 2009

Quarteto Radamés Gnattali apresenta o concerto Bem Brasileiro no Teatro da Caixa

Ana Rita Gondim
Do Correiobraziliense.com.br

Brasília será duplamente presenteada com espetáculos esta semana, no ano marcado pelos 50 anos de morte do maior compositor brasileiro de música erudita, Heitor Vill-Lobos, e pelo Dia Nacional da Música Clássica, comemorado em 5 de março. Para a homenagem, o celebrado Quarteto Radamés Gnattali faz duas apresentações pelo concerto Bem Brasileiro no Teatro da Caixa, nesta quarta e nesta quinta-feira (04 e 05/03), às 20h.

O quarteto de cordas – grupo musical formado tradicionalmente por dois violinos, uma viola e um violoncelo – é integrado por Carla Rincón (primeiro violino), Vinícius Ferreira (segundo violino), Fernando Thebaldi (viola) e Paulo Santoro (violoncelo). Para o violista Fernando Thebaldi, o quarteto de cordas é o filet mignon da música clássica. “Desde o classicismo, o quarteto de cordas é sempre um desafio, é o crème de la crème da composição. E Villa-Lobos é um dos compositores mundiais com maior número de obras para quarteto”.

O grupo vai apresentar ao público uma pequena parte da obra de Heitor Villa-Lobos, os Quartetos números 5 e 6. O violoncelista Paulo Santoro explica que o número 5 é o mais leve de Villa-Lobos (intitulado por ele próprio de popular), em que há elementos folclóricos brasileiros e que, por isso, há uma resposta muito rápida da plateia. Já o número 6 acompanha o músico há tempos, desde que começou a se embrenhar nas trilhas de Villa-Lobos.

Além de tocar peças do mestre carioca, os instrumentistas não podiam deixar de executar obras de outro grande compositor nacional, o Radamés Gnattali. “Nós temos, entre aspas, uma obrigação de tocar Radamés”, brinca o violoncelista, referindo-se ao fato de o nome do conjunto ser uma referência ao artista. Serão duas peças com cerca de três minutos cada. “Essas composições são referência na obra de Radamés, por isso quem não o conhece tem uma amostra de todo o seu trabalho”.

Diante da tamanha importância de Villa-Lobos para a música brasileira e da sua representatividade no exterior, Santoro lamenta que as comemorações feitas em Brasília e no restante do país são muito poucas. “Eu acho que ele deveria ter muito mais homenagens do que tem. Foi a partir de Villa-Lobos que a nossa música ficou conhecida lá for a. Hoje as orquestras já o incluem em seu repertório, mas deveriam tocá-lo ainda mais”.

Em novembro, o Quarteto Radamés Gnattali enfrenta o desafio de tocar ao vivo no Rio de Janeiro todas as 17 composições de Villa-Lobos para quarteto de cordas.

Dia Nacional da Música Clássica

A data foi instituída no município do Rio de Janeiro em 2006. No ano seguinte, o governo do estado oficializou a comemoração. Em 13 de janeiro deste ano, o dia 5 de março foi definido como o Dia Nacional da Música Clássica, assinado em decreto pelo presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva. A data foi escolhida em homenagem ao dia de nascimento de Heitor Villa-Lobos.

Publicado no Divirta-se

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Estréia cultural

Hoje registro a minha estréia (meu espaço fica fora da nova ortografia até eu decidir o contrário) jornalística na área em que sempre sonhei atuar. E, modéstia à parte, inaugurei-me com três gênios da música brasileira.

A quem quiser criticar, fique à vontade. :-)

Confira no Divirta-se

Hamilton de Holanda, Marcos Suzano e Jaques Morelenbaum gravam CD em show em Brasília


Ana Rita Gondim
Do Correiobraziliense.com.br



Um palco com grandes músicos interpretando obras-primas brasileiras e um CD que marque a união de um trio inédito é algo que um apreciador da boa música não pode perder. Os cariocas Marcos Suzano (pandeiro e percussão) e Jaques Morelenbaum (cello) e o carioca de nascença e brasiliense de criação Hamilton de Holanda (bandolim 10 cordas) gravarão CD ao vivo no Espaço Brasil Telecom em duas apresentações, nesta sexta-feira e neste sábado (27 e 28/02).

Os músicos privilegiarão os brasilienses em estreia mundial do trio com nada menos que um repertório que inclui Dorival Caymmi, Tom Jobim, Baden Powell e Egberto Gismonti, além de outros compositores brasileiros. “O disco manterá aquela respiração diferente, aquela nota que só sai em um show, diferentemente de um trabalho feito em estúdio”, garante aos fãs o bandolinista Hamilton de Holanda.

O artista explica que o trio oferecerá o máximo no espetáculo e espera que o público também vá com esse desejo. "Tocarei para encontrar a beleza, para encontrar as músicas certas, no roteiro certo, e para sentir o retorno do público sobre isso, quer dizer, a expectativa que eu tenho é de ter um namoro muito amoroso com a plateia".

A união dos virtuoses surgiu de uma participação especial de Marcos Suzano em um recente show do grupo do bandolinista – Hamilton de Holanda Quinteto – em Curitiba. No final de novembro de 2008, a parceria ganhou força no Festival de Jazz de Barcelona e seguiu para Itália e França com uma ideia a mais: gravar um disco juntos. No início de 2009, Jaques Morelenbaum surgiu para incrementar a turma. "O trio é de uma nacionalidade única, nunca vi esse tipo de formação, dá um ineditismo, e isso é bom pra gente, é bom para o público", vangloria-se o artista de gestos inquietos e apaixonados.

"Confesso que eu estou gostando e acho que as pessoas vão gostar também. O trabalho está sendo feito com critério de arrepiar, muita gente vai ficar emocionada. Eu sou muito crítico com as coisas que faço, é um repertório agradável e de releituras", conta o "Jimmy Hendrix do bandolim", alcunhado dessa forma pela imprensa americana.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Descoberta leninística

Diante de tanta beleza ouvida, lida, trocada, perdi a inspiração. Talvez porque precise ler, ouvir e trocar mais; talvez porque dezembro me consumiu em confraternizações, presentes e trabalho; talvez porque não tenha dedicado tempo a refletir na escrita a cabeça que não pára (aqui não respeitarei a famigerada reforma ortográfica e quiçá me rebele, em meu blog, friso).

No entanto, especialmente hoje, quero falar de uma descoberta que me segurou no carro. Enquanto organizava os CDs da estrada do mês passado, de repente ouço a voz inconfundível do meu músico preferido. Lenine cantando um samba. Obviamente, me detive com os discos na mão e escutei-a até o fim, atenta para a voz, a melodia, o ritmo.

Encantada, subo com o passo acelerado cantando “estrada de quatro sentidos...” para descobrir logo esse novo trabalho. Indignada com o desconhecimento, sento à frente do computador. Rapidamente descubro a música, me deleito com a letra e busco uma forma de ouvi-la novamente. Que maravilha a internet! A agonia de ver 1%, 29%, 50%...

Antes de ouvir o cd, tenho convicção de mais um trabalho de excelência desse galego de rosto largo e corpo delgado que tanto admiro e acompanho.

“Só tenho flores pra jogar... Lenine!”:*

4 horizontes
(Música: Lenine / Letra: Pedro Luís )

É que no fim da estrada
Eu vejo quatro horizontes
Há mar
Há montes de histórias
Mistérios
Sedes distintas

Aquilo que te sacia
Pra mim é um três por quatro
O que retrata meu medo

Pra você não tem segredo
O que pra ti é degredo
Pro outro é porto seguro
Seu furo de reportagem
Pra nós é mera bobagem

Viagem sem paradeiro
Nos faz tão perto e distantes
Depois da minha chegada
Sua partida, seu antes

Estrada de quatro sentidos
Encruzilhada de destinos
Quanto mais flor mais mulher
Quanto mais velho mais menino


*Palavras ditas por Elba Ramalho ao convidar Lenine para cantar Lá e Cá em O Grande Encontro 3


2008

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Cartola: música e poesia para a vida

Perdi de ver Cartola – Música para os olhos, de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, no cinema. Posterguei o filme até que encontrasse o dia perfeito, mas esqueci-me de que as películas brasileiras permanecem em circuito muitíssimo menos tempo. Procurei DVD, mas tampouco o encontrava. Um dia, finalmente, vejo a capa com sua foto preto e branca, de perfil e cabeça baixa.

Não perguntei o preço. Alguns motivos me impediram de vê-lo logo em seguida. Mas, em um domingo em que o Brasil parou para assistir a Felipe Massa correr em Interlagos ou para homenagear pessoas queridas no Dia de Finados, eu parei para conhecer mais do maior nome do samba. Um amor antigo que desconheço quando exatamente começou.

Angenor de Oliveira, conhecido como Cartola, é um dos artistas que ocupam o topo da minha pirâmide alimentar; é minha fonte de energia, alegria, admiração, respeito, veneração. Ouvir Cartola me transporta a outro mundo, é fechar os ouvidos para os ruídos de fora. É acreditar que se é grande sem ter (fisicamente, materialmente) nada. É a voz que dá um recado, é a melodia que abre um sorriso, é a letra que faz pensar, é a música da dor e do sonho.

É uma pena que o filme não signifique tanto ou que não revele com mais precisão a grandeza desse poeta que fundou a Estação Primeira da Mangueira. Mas vê-lo com Zica, com seu pai, com seu violão, com seus óculos grandes a esconder os olhos de um rosto delgado, são imagens preciosas para quem somente conhecia suas feições por fotos.

Falar de Cartola é não saber falar dele; é recomendar que se conheça, que se ouça, apenas. Aquele que não gosta, eu prefiro não saber.

“Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar

Preste atenção querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó

Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés

(O mundo é um moinho, Cartola)

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Que belo estranho dia pra se ter alegria

Semanas atrás, voltei à minha curiosidade com a música brasileira. Dessa vez, conheci um pouco da potiguar Roberta Sá. Tive a oportunidade de vê-la, no ano passado, em uma participação em show em homenagem a Gonzaguinha, mas ainda não conhecia sua história ou seu trabalho.

Em um dia que não me apetecia a introspecção de ler um livro, baixo seu último disco – Que belo estranho dia pra se ter alegria (sim, baixei o disco. Meu modesto salário não comporta que cada conhecimento origine um novo cd, apesar de adorar a idéia). Coloco o cd no carro e ele perdura lá por vários dias.

Encantada, busco também seu primeiro disco, leio sua biografia, faço propaganda a amigos. Poucos sabem me dizer sobre ela ou têm opinião sobre a artista. Descobri a delícia de “descobrir” algo sem alguém ter feito referências ou elogios e eu mesma tecer minha própria idéia sem induzimento de outra.

Considero a cantora no rol de pessoas que me colocam pra baixo, no bom sentido. Com apenas 27 anos, ela tem dois belos discos com participações de grandes como Lenine e Ney Matogrosso. Com repertório de boníssimo gosto, entre suas músicas estão composições de Lula Queiroga, Dorival Caymmi, Chico Buarque, Pedro Luís.

Uma linda voz, um ritmo gostoso, belas interpretações. A isso se somam sua beleza e simpatia percebidas (ressalte-se, pois posso estar enganada) em apenas uma música no palco do Centro de Convenções de Brasília com Daniel Gonzaga. Sua jovialidade encanta e faz pensar o que virá de tanto melhor ainda pela frente.

Espero que a impressão de discos iniciais se confirme após mais trabalhos e que o Brasil tenha mais uma artista de valor crescente. E que ela venha a Brasília para me presentear ao vivo com o que conheço de gravação em estúdio.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Mallu tchubadubando

Como boa entediada do dia-a-dia, costumo levar a Bravo! para o trabalho quando, além do marasmo, o mundo decide parar por uns instantes. Decidi não ler a revista em ordem, pulei logo para ler a matéria sobre uma molequinha que faz sucesso em plenos 16 anos. Estava curiosa com o que ela tinha a oferecer musicalmente ao mundo em fase tão pueril, pelo menos assim me sentia em sua idade.

Suspeitei que pudesse ser boa coisa devido às dez páginas que lhe foi dedicada. Uma vida interessante, em que subiu degraus de forma bem rápida se comparada a outros músicos, como, por exemplo, o meu admirado e querido Lenine. Depoimentos de gente grande fizeram minhas suspeitas penderem cada vez mais para o lado positivo.

Talvez não satisfeita e talvez incrédula, entro no site da revista e encontro um espaço reservado a ela, com clipes, áudios e fotografias. Sua voz me chama a atenção pela certa maturidade, pelo bom tom, pela suavidade. Em Noil (lion ao contrário), a sua mais cotada música do cd segundo dizem, percebe-se talvez uma dor expressa numa voz forte contrastada com sua doçura.

“... Mallu sempre se considerou um ponto fora da curva. O patinho feio da turma, com opiniões e gostos difíceis de compartilhar”, diz a matéria. No clipe de J1, ela canta “I’m weird, i’m sou strange”. Mallu Magalhães: uma estrangeirinha em ascensão, que encanta os nativos e que provavelmente surpreenderá muito a muitos, como a mim.

Surpreenda-se! Ou não...

domingo, 24 de agosto de 2008

Verdurinhas no palco

No castelo mal assombrado, um mineiro com traços de Gérard Depardieu desassombra com sua simpatia, com sua guitarra tranqüila, com seu falatório. Uma horta com bons frutos cultivados desde a década de 60, dos tempos do Clube da Esquina. Toninho Horta é como uma daquelas figurinhas queridas que mal se acaba de conhecer e se tem por elas um sentimento de carinho.

E não é à toa. Sua irmã, Leila Horta, o acompanha em algumas músicas com sua flauta. Ao final, Toninho brinca, quer pegá-la no colo e lhe faz reverências ao sair do palco. O rosto caricato não me arrebatou como outros, mas sempre vale a pena conhecer o desconhecido.

Toninho Horta:
5º melhor guitarrista do mundo pela revista britânica Melody Maker em 1977
7º melhor guitarrista em 1978 pela mesma revista

domingo, 17 de agosto de 2008

Marco Pereira – Celebração e despedida

Uma noite que começa com Eu sei que vou te amar é prenúncio de excelência. Assim, iniciou o show o violonista e compositor Marco Pereira, que transformou o Clube do Choro numa espécie de uma grande roda de amigos. Nas primeiras músicas, portou-se como paulista que é, de poucas palavras, meio nervoso. Mas, logo depois, mostrou-se carioca por devoção, com conversas e brincadeiras ao microfone e com uma seleção musical bem ao estilo boêmio do Rio de Janeiro de décadas atrás.

Além do hino de Tom Jobim que professa o amor eterno, tocou outras tantas perfeições do grande maestro brasileiro – Luísa, Passarim, Se todos fossem iguais a você –, já que este é o homenageado do projeto do Clube deste ano. Além dele, não puderam faltar Vinicius de Moraes, Baden Powell, Dorival Caymmi, Jacob do Bandolim, Radamés Gnattali, Cachimbinho, entre outros.

Triste foi o dia seguinte. Alguém em casa acorda maravilhado com a noite anterior e cantarola Dorival Caymmi. Mais tarde, tem-se a notícia da morte do baiano mais baiano do Brasil. Marco Pereira ainda conseguiu despedir-nos com as músicas da voz mais tranqüila que cantou mar e pescadores. É amargo viver na terra sem Caymmi, mas são doces a lembrança que deixou e a eternidade de suas composições e de sua voz.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

O malandrão carioca

Luiz Melodia em um palco não é um show, é uma festa. Num visual de um verdadeiro malandro carioca – terno branco, camisa branca por fora da calça e sapatos bicolores – o cantor agitou a sala Villa Lobos do Teatro Nacional com sambas das décadas de 30, 40 e 50. O repertório integra seu último cd – Estação Melodia –, que inclui músicas de Ismael Silva, Cartola, Oswaldo Melodia (seu pai), Jamelão, entre outros compositores. Este é o 13º álbum de sua carreira.

Irreverência é o tom da festa. Brincadeiras com integrantes da banda, o andarzinho à la Charles Chaplin, o samba no pé de um autêntico morador dos morros cariocas, fazem-nos sentir próximos ao artista. Não há distância, não há palco elevado, não há artista e platéia. São todos juntos ao mesmo nível na celebração da boa música brasileira.

Um belo momento da festa é quando Melodia senta-se em um daqueles banquinhos altos e anuncia uma música em homenagem à sua gente do Morro de São Carlos, comunidade no bairro do Estácio, zona norte do Rio de Janeiro. Composta por Garoto, Chico Buarque e Vinicius de Moraes, o sambista canta Gente humilde numa linda e carinhosa interpretação. O interessante de Luiz Melodia é sua história e relação com o morro. Não faz disso piedade ou “espetáculo da miséria”. Sua origem e sua vivência são naturais, espontâneas e inegáveis.

Ninguém nunca foi a um show em que um artista possa dizer: "Não riam. Vou precisar sair do palco e vocês fiquem com essa banda maravilhosa". Após risadas e umas duas músicas sem Melodia, ele volta de sandálias e com uma camisa estampada com coqueiros. Ainda mais irreverente, Luiz circula pelas composições de anos atrás. A despedida de palco é única. Melodia e toda a sua banda de pé na percussão cantarolam o sambão de seu pai Linda Tereza. Um fim que não chega nunca e quando termina dá uma saudade e uma certeza de nunca perder um show de Luiz Melodia.

“(...) São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar
Pela varanda
Flores tristes e baldias
Como a alegria
Que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar”
(Gente humilde)

terça-feira, 5 de agosto de 2008

República das bananas! E das melancias...

Em contraste a Sampa de Caetano Veloso, a cantora e compositora paulista Ná Ozzetti é pura elegância. Com discrição e timidez no palco e uma voz exuberante, ela cativa o público. Em show em homenagem a Carmem Miranda, ela e sua banda tocaram os maiores clássicos da “pequena notável”, ressuscitaram o maior ícone da brasilidade, interpretaram a ingenuidade das letras e, sem dúvida, marcaram a platéia com o bom gosto.

Mas, ao mesmo tempo em que as bananas de Carmem Miranda marcaram o Brasil, agora é a vez das melancias taxarem o país com o mau gosto, com a vulgaridade do sexo, com o erotismo baixo do corpo feminino. É de sentir horror, pavor e repugnância uma mulher se prestar a um papel extremamente obsceno em público, mas que gera uma comoção nos homens pela gigante bunda brasileira.

Não se aprecia mais a brasileira pelo seu gingado, pelo seu balançado à semelhança de um poema, como cantou Tom Jobim. Admiram-se movimentos sexuais mostrados a quinhentos mil machos enlouquecidos por uma máquina de bunda cantados ao som de um sujeito com a alcunha de Créu.

Cadê a “garota de Ipanema” e o “menino do rio” da época mais frutífera brasileira? Onde se perderam o bom senso, o bom gosto, o refinamento das melodias, o esmero das canções, o carinho com que se trata a intimidade de um casal? Há os que garimpam, lustram, escavam, descobrem, guardam, cantam, reinventam as boas coisas brasileiras. E é nesses e em Ná Ozzetti que me apego na existência da exuberância, da excelência, da sensualidade elegante, do querido amor, da beleza da vida.

sábado, 2 de agosto de 2008

A benção, Pepeu!

Não é a toa que esse gênio brasileiro é um dos dez maiores guitarristas do mundo e o maior da América Latina. Por mais que se diga, é preciso vê-lo e ouvi-lo de perto, para sentir sua paixão, sua vida dedilhada nas entranhas de uma guitarra. Os trejeitos com os lábios, o fechar dos olhos, o levantar-se da cadeira, são a demonstração de uma paixão que não cabe em si e da genialidade que transborda em uma alquimia de sons e ritmos, brasileiros e estrangeiros. Do bolero a salsa, com direito a samba, choro, jazz, bossa-nova, MPB, frevo, baião, maracatu, reggae, sempre, é claro, com uma sua pitada extragrande de heavy metal, é uma mistura que mostra que tudo é possível com aquela dupla.

A proximidade com o público que o Clube do Choro permite torna explícitas as cenas de amor entre Pepeu e sua guitarra. Ali, pode-se testemunhar a intimidade dos dois, como se ambos fossem os únicos a dominarem determinada língua. Ambos parecem feitos um para o outro e a platéia assiste a orgasmos do artista e a gemidos do instrumento. Uma sinfonia inesquecível e que embevece a qualquer um com sensibilidade e bom gosto. A grandeza do artista está em também apresentar seus músicos com freqüência e dar-lhes instantes de um verdadeiro show. Enaltece todo o tempo seu irmão, Jorginho Gomes, baterista, principalmente quando diz que “sem ele, ele nada seria”.

Pepeu Gomes, com 56 anos, mantém a jovialidade e a sensualidade. Nem com as raízes do cabelo recém-pintadas, suspeita-se que os anos tenham passado para ele. Simpatia e bom-humor são outras características visíveis naquele rockeiro de corpo e alma. Ao final do show, após cerca de duas horas de uma paixão contagiante, Pepeu consegue emocionar ainda mais o seu público. Arrepia-se ao ouvi-lo tocar o Hino Nacional brasileiro naquelas cordas. É uma sensação indescritível... E, como não poderia deixar, ele termina de vez o show com uma palhinha de Satisfaction, dos Rolling Stones. Simplesmente delicioso, inesquecível e arrebatador! Definitivamente, um gênio, um artista, um músico, uma pessoa, um homem apaixonante!

Não sabe quem é Pepeu Gomes?

Pedro Anibal de Oliveira Gomes, conhecido como Pepeu Gomes, é cantor, arranjador, compositor e multi-instrumentista. Ele aprendeu a tocar violão de ouvido, na infância, em Salvador, sua cidade natal. Aos 11 anos, formou sua primeira banda, Los gatos, e, em 1966, com 14 anos, tocou profissionalmente com o grupo Os minos. Com sua próxima banda, The Leif’s, acompanhou Gilberto Gil e Caetano Veloso no lendário show de despedida pré-exilio Londrino em Julho de 1969. Em 1970, com Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor, Galvão e Baby Consuelo (hoje Baby do Brasil), formou o grupo Novos Baianos. Depois de sua carreira solo consolidada, apresentou-se seis vezes no Festival de Montreaux, tocou no Rock in Rio I, II, III, no Free Jazz, e fez varias apresentações no exterior.

Pepeu Gomes foi considerado pela revista americana Guitar World, um dos dez melhores guitarristas do mundo e o melhor na América Latina na categoria world music. A edição brasileira deste mês da revista Rolling Stone elegeu os melhores discos da música brasileira. Como maior disco brasileiro de todos os tempos, foi escolhido Acabou Chorare (1972), dos Novos Baianos, composto por Moraes Moreira, Baby Consuelo, Pepeu Gomes e Paulinho Boca de Cantor.