Num domingo sem fim, volví os olhos a Vinicius. Como que cansada de qualquer coisa que eu inventasse para as horas passarem, lembro de haver ganhado um livro por ser, digamos assim, jornalista. Desde que o recebi, ansiava pela leitura. Mas resolvi dedicar o hábito, há algum tempo perdido, a certames públicos que, até agora, de nada serviu. E, por isso, ele (Vinicius) havia ido a outros olhos. De volta a minha prateleira, folheio e começo a ler aquele que um dia cunharam “meu poetinha preferido”.
Antes dele, motivo por que me cansei, joguei-me só ao sofá e, por coincidência, assisti a filmes sobre Zuzu Angel e Rubin Hurricane Carter, meio que querendo jorrar toda aquela TMP que chorava por dentro. Sorte de estar só nos dois momentos. Canso. Quero sair. Não. Melhor ficar em casa. A solidão invadiu-me neste primeiro domingo de fevereiro. Não, também não quero ver o Fantástico.
Leio O exercício da crônica e invejo os cronistas. Imagino que seja um escrever mais por prazer do que por obrigação. Uma escrita livre das amarras do lead, do factual e da linguagem direta, nua, crua, sem graça, limitada. O bom de ler (preciso voltar à literatura, mas preciso também insistir na carreira) é se transportar a outro mundo, é ser outra pessoa. Vi-me, descrita pelas palavras de Vinicius, sentada na poltrona a olhar através da janela e caçar algo que motivasse o surgimento de um texto.
Mas aí chega o Poema de aniversário e faz-me lembrar que isso acontecerá, não o poema, o aniversário, daqui alguns meses... Não sei se continuo Vinicius ou vou para o Regimento. Duas urgências. Preciso curar dois males. Mas decido continuar Vinicius... Quis um descanso depois de haver acordado às 6h da manhã em pleno domingo sem plantão, mas com um exame no qual permaneci sentada por quatro horas.
E do nada me bate a vontade de escrever. A inspiração que eu procurava para qualquer coisa, para escrever, para começar o dia, para dormir com o pensamento longe. Ler parece que faz escrever. A solidão parece que faz escrever. Cansar-se de qualquer coisa parece fazer escrever. E era tanto cansaço e nenhuma linha saía... Parece que palavras chamam palavras... Pensei em pegar um caderno, mas os punhos me doem ao menor esforço com uma caneta. Ligo o computador... Não tenho nada para fazer, são ainda 20h30...
Jogo quaisquer palavras. Não quero me preocupar se alguém vai ler, o que pode pensar um raro visitante, se sou “vaidosa” por escrever na primeira pessoa. Quis simplesmente fazer alguma coisa para as horas deste domingo interminável passarem. Quis logo outro dia chegar para um outro amanhecer talvez me trazer o inusitado, a surpresa, a mudança. A mesmice incomoda, maltrata, endurece, ensimesma. Tento mudar. Em alguns casos, a mera tentativa é crime. Tomara que, no meu caso, a tentativa seja suficiente para a mudança. E volto ao Poema de aniversário... E o domingo ainda não acabou...
domingo, 6 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Crise dos pré-30
Alguns sinais básicos uma mulher (ou eu) vive ao chegar perto dos 30 anos. São várias coisas que passam pela cabeça ou pelo corpo. A gente acha que uma coisa tem preponderância sobre outra, mas, no fim, tudo somado é uma TPM constante e parece sem fim. Aquelas coisas de chorar, corpo inchado, impaciência (ainda maior) passam a ser mais frequentes, e agradeça o namorado, se tiver, por suportar tudo isso. Mas, talvez, ele também viva uma crise pré-balzaquiana e se entendam com suas respectivas tensões pré-trinta.
Minha crise é um misto-pegando-fogo de envelhecer e não-crescer. Envelhecer porque vejo o corpo mudando. O metabolismo definitivamente não é mais o mesmo. Antes uma dieta de uma semana de saladas à noite era capaz de afinar a silhueta razoavelmente. Agora nem que você morra de inanição e faça aulas de natação, boxe e corrida resolvem a eliminação de quilinhos extras. E é claro que prefiro viver a sobreviver. Rendo-me às maravilhas de dona Gracinha em suas novas descobertas e mudanças de rotina: finger food, batatas com alecrim, medalhões com cogumelos de paris, pão ciabata com cebolas caramelizadas e salmão defumado, e por aí vai.
Hoje, entrego-me sem culpa aos prazeres do paladar. Um paladar mais requintado, é claro. Se for para não ver o ponteiro da balança apontar mais à esquerda, que seja com um prato que encha os olhos e salive a ponto de não se conter. Minhas gordurinhas nunca foram consequência de sorvetes, McDonald’s, salames ou tortas. Felizmente, jamais morri de amores pela gordura visível. Imagine o que seria de mim, aos pré-trinta, se gostasse de tudo isso? Mas confesso uma mania de gorda: ao colocar algo no prato, não consigo deixar nada ao fim, a não ser que seja intragável, por falta de esmero ou excesso de sal. Fora isso, como até o último grãozinho.
E o não crescer não é uma Síndrome de Peter Pan. A vontade existe, mas as condições são insuficientes. É aquele sentimento de o nariz ainda não ser propriamente seu, apesar de ele ser seu. É a sensação de adolescente misturada com a de adulto. Agora, sinto-me aos 25 anos, mais tarde, aos 48, amanhã, aos 14. Sou velha demais por ainda não morar sozinha, sou prematura e alérgica ao pensar em filhos. Pareço uma fruta com duas partes independentes: uma já bem madura, tenra, adocicada; outra verde, sem gosto, com muito tempo pela frente. Sempre me fascinou a ideia de nascer velha e rejuvenescer com os anos, antes mesmo de surgir o filme O curioso caso de Bejamin Button ou de ler o livro homônimo de Francis Scott Fitzgerald.
Falar do corpo ou da aparência parece mais divertido que analisar os próprios neurônios. Mas tudo tem sua graça e seu pavor. As antíteses e os paradoxos convivem desarmoniosamente. “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, já disse Caetano. Eu diria que cada um sabe a dor e a delícia de se aproximar dos 30 anos. Um lado delicioso é ver as prateleiras mais cheias de livros e discos. Um lado realista é encarar uma gaveta mais cheia de cremes, ácidos e filtro solar. Espinhas se revezam com manchas de anos de pílula anticoncepcional. Mas tudo tem salvação. Sonho com os esperançosos benefícios do mirena, como a ausência dos pré-historicismos mensais, recuperação de interesse e redução de tudo o que possa ser maléfico ao organismo. Definitivamente, uma promessa que será cumprida até os 30 anos.
Não é nada tão pavoroso ver os 30 anos logo ali na esquina. Quer dizer, é e não é. É por tudo que já falei, de uma forma eufemista, no mínimo. Não é porque todo mundo passa por isso e normalmente todos chegam vivos do outro lado. Sãos e salvos. Talvez menos salvos do que sãos. Brincadeiras à parte, não há como negar que estar próximo de mudar a dezena da idade balança, amedronta, às vezes, apavora. Parece q tudo vai mudar no 30º aniversário. Mas esforço-me em pensar que as mudanças serão para mais e para melhor. É isso. Até os 30. E aí quem sabe eu escreva a “crise dos trinta”...
Minha crise é um misto-pegando-fogo de envelhecer e não-crescer. Envelhecer porque vejo o corpo mudando. O metabolismo definitivamente não é mais o mesmo. Antes uma dieta de uma semana de saladas à noite era capaz de afinar a silhueta razoavelmente. Agora nem que você morra de inanição e faça aulas de natação, boxe e corrida resolvem a eliminação de quilinhos extras. E é claro que prefiro viver a sobreviver. Rendo-me às maravilhas de dona Gracinha em suas novas descobertas e mudanças de rotina: finger food, batatas com alecrim, medalhões com cogumelos de paris, pão ciabata com cebolas caramelizadas e salmão defumado, e por aí vai.
Hoje, entrego-me sem culpa aos prazeres do paladar. Um paladar mais requintado, é claro. Se for para não ver o ponteiro da balança apontar mais à esquerda, que seja com um prato que encha os olhos e salive a ponto de não se conter. Minhas gordurinhas nunca foram consequência de sorvetes, McDonald’s, salames ou tortas. Felizmente, jamais morri de amores pela gordura visível. Imagine o que seria de mim, aos pré-trinta, se gostasse de tudo isso? Mas confesso uma mania de gorda: ao colocar algo no prato, não consigo deixar nada ao fim, a não ser que seja intragável, por falta de esmero ou excesso de sal. Fora isso, como até o último grãozinho.
E o não crescer não é uma Síndrome de Peter Pan. A vontade existe, mas as condições são insuficientes. É aquele sentimento de o nariz ainda não ser propriamente seu, apesar de ele ser seu. É a sensação de adolescente misturada com a de adulto. Agora, sinto-me aos 25 anos, mais tarde, aos 48, amanhã, aos 14. Sou velha demais por ainda não morar sozinha, sou prematura e alérgica ao pensar em filhos. Pareço uma fruta com duas partes independentes: uma já bem madura, tenra, adocicada; outra verde, sem gosto, com muito tempo pela frente. Sempre me fascinou a ideia de nascer velha e rejuvenescer com os anos, antes mesmo de surgir o filme O curioso caso de Bejamin Button ou de ler o livro homônimo de Francis Scott Fitzgerald.
Falar do corpo ou da aparência parece mais divertido que analisar os próprios neurônios. Mas tudo tem sua graça e seu pavor. As antíteses e os paradoxos convivem desarmoniosamente. “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, já disse Caetano. Eu diria que cada um sabe a dor e a delícia de se aproximar dos 30 anos. Um lado delicioso é ver as prateleiras mais cheias de livros e discos. Um lado realista é encarar uma gaveta mais cheia de cremes, ácidos e filtro solar. Espinhas se revezam com manchas de anos de pílula anticoncepcional. Mas tudo tem salvação. Sonho com os esperançosos benefícios do mirena, como a ausência dos pré-historicismos mensais, recuperação de interesse e redução de tudo o que possa ser maléfico ao organismo. Definitivamente, uma promessa que será cumprida até os 30 anos.
Não é nada tão pavoroso ver os 30 anos logo ali na esquina. Quer dizer, é e não é. É por tudo que já falei, de uma forma eufemista, no mínimo. Não é porque todo mundo passa por isso e normalmente todos chegam vivos do outro lado. Sãos e salvos. Talvez menos salvos do que sãos. Brincadeiras à parte, não há como negar que estar próximo de mudar a dezena da idade balança, amedronta, às vezes, apavora. Parece q tudo vai mudar no 30º aniversário. Mas esforço-me em pensar que as mudanças serão para mais e para melhor. É isso. Até os 30. E aí quem sabe eu escreva a “crise dos trinta”...
sábado, 22 de maio de 2010
Santa mega sena
Incumbência desta quarta-feira após o trabalho: jogar na mega sena. Pela primeira vez na vida eu, de espontânea vontade, escolhi meus números, beijei a cartela e rezo, desde então, para ser a sorteada dos milhões. O que me levou até isso parece até uma longa história, mas a vida acontece tão rapidamente, ou não, que poderia ser resumida em apenas um dia. 24 horas seriam suficientes para contabilizar os degraus que subi e o patrimônio que construí. 24 horas? Um segundo.
Cheguei a pensar em desenhar-lhe um rosto e, assim, montar uma santinha para colocá-la num altar e lhe fazer reverências. Mas que santo ceticismo! Nunca fui capaz de desenhos coerentes com a imaginação. No máximo, aquelas pessoas feitas de pauzinhos e pés de bola. Mas que a vontade foi muita foi. Tem gente que acredita em santo milagreiro, por que eu não acreditaria? É... Nunca achei um santo a quem me devotaria, mas dedicaria todos os meus domingos à santa mega sena.
Pensei até em escrever umas linhas, montar uma oração, para agradecer e pedir todos os dias. Imaginei-me como aquelas crianças ajoelhadas ao pé da cama que se reservam uns instantes antes de dormir para lembrar os santos. No entanto, ainda não modifiquei o hábito. Continuo a dedicar estes momentos a mergulhar na leitura prometida de anos: O idiota. O idiota é o livro.
Passo a deitar e sonhar com as mega realizações que faria. Cheguei a imaginar onde seria minha casa, o que compraria, com o que a rechearia. Uma mansão no Lago Sul ou um mega apartamento na 316 Sul? Ah, um novo guarda roupa isso eu faria de imediato. De primeira, reformaria inteiramente meu quarto enorme, com um mega banheiro, um closet imenso, um armário de metros e metros e metros, com muitíssimas gavetas.
Pensei que ainda era um sonho barato. De um gol 0km (que pobreza de pensamento!), me imaginei logo dentro do jipe dos meus sonhos. Eu, bela e magra, na direção, a escolher meu rumo. Com um rayban? Nada. Rayban é para gol 1.0, 2006, “pelado”, como costumo apelidar meu pretinho. Coitado do meu “gol pelado”. Seria trocado no mínimo por um TR4, sem bancos de couro porque sou fumante, e amarelo (porque os únicos belos coches amarelos são jipe e ferrari... mas não, não quereria uma Ferrari).
Cheguei a me imaginar indo a uma agência de viagens e comprando um mega pacote de viagem para a Europa para meus pais e todos os regalos e a boa vida que lhes daria na terceira melhor idade. Minha irmã? Ah, ela já teria boa vida logo no recebimento dos milhões. Meus gatinhos? Teriam a melhor ração do mundo e cobertas. Amor, mimo, colo, cafuné, eles já os têm desde sempre.
Como é bom sonhar e como é terrível acordar. Desperto com meu celular que mais parece um modelo do século passado. Ralé que é já foi anunciada a sua troca como um presente. Não, deixe ele aí, disse, aquele dinheiro que pinga todo 5º dia do mês não merece ser gasto com um aparelho de ligações. Depois de sair da minha gostosa cama, infantil, mas gostosa, olho para meu armariozinho, pego uma roupinha e entro no meu carrinho. Hora de trabalhar, como todos os dias. “Ave mega sena, cheia de graça, a senhora é convosco, bendita sois vós entre os felizardos, e bendito é o fruto da nossa conta. Santa mega sena, mãe dos sonhadores, rogai por nós, assalariados, agora e na hora do nosso desvario. Amém.”
Cheguei a pensar em desenhar-lhe um rosto e, assim, montar uma santinha para colocá-la num altar e lhe fazer reverências. Mas que santo ceticismo! Nunca fui capaz de desenhos coerentes com a imaginação. No máximo, aquelas pessoas feitas de pauzinhos e pés de bola. Mas que a vontade foi muita foi. Tem gente que acredita em santo milagreiro, por que eu não acreditaria? É... Nunca achei um santo a quem me devotaria, mas dedicaria todos os meus domingos à santa mega sena.
Pensei até em escrever umas linhas, montar uma oração, para agradecer e pedir todos os dias. Imaginei-me como aquelas crianças ajoelhadas ao pé da cama que se reservam uns instantes antes de dormir para lembrar os santos. No entanto, ainda não modifiquei o hábito. Continuo a dedicar estes momentos a mergulhar na leitura prometida de anos: O idiota. O idiota é o livro.
Passo a deitar e sonhar com as mega realizações que faria. Cheguei a imaginar onde seria minha casa, o que compraria, com o que a rechearia. Uma mansão no Lago Sul ou um mega apartamento na 316 Sul? Ah, um novo guarda roupa isso eu faria de imediato. De primeira, reformaria inteiramente meu quarto enorme, com um mega banheiro, um closet imenso, um armário de metros e metros e metros, com muitíssimas gavetas.
Pensei que ainda era um sonho barato. De um gol 0km (que pobreza de pensamento!), me imaginei logo dentro do jipe dos meus sonhos. Eu, bela e magra, na direção, a escolher meu rumo. Com um rayban? Nada. Rayban é para gol 1.0, 2006, “pelado”, como costumo apelidar meu pretinho. Coitado do meu “gol pelado”. Seria trocado no mínimo por um TR4, sem bancos de couro porque sou fumante, e amarelo (porque os únicos belos coches amarelos são jipe e ferrari... mas não, não quereria uma Ferrari).
Cheguei a me imaginar indo a uma agência de viagens e comprando um mega pacote de viagem para a Europa para meus pais e todos os regalos e a boa vida que lhes daria na terceira melhor idade. Minha irmã? Ah, ela já teria boa vida logo no recebimento dos milhões. Meus gatinhos? Teriam a melhor ração do mundo e cobertas. Amor, mimo, colo, cafuné, eles já os têm desde sempre.
Como é bom sonhar e como é terrível acordar. Desperto com meu celular que mais parece um modelo do século passado. Ralé que é já foi anunciada a sua troca como um presente. Não, deixe ele aí, disse, aquele dinheiro que pinga todo 5º dia do mês não merece ser gasto com um aparelho de ligações. Depois de sair da minha gostosa cama, infantil, mas gostosa, olho para meu armariozinho, pego uma roupinha e entro no meu carrinho. Hora de trabalhar, como todos os dias. “Ave mega sena, cheia de graça, a senhora é convosco, bendita sois vós entre os felizardos, e bendito é o fruto da nossa conta. Santa mega sena, mãe dos sonhadores, rogai por nós, assalariados, agora e na hora do nosso desvario. Amém.”
domingo, 9 de maio de 2010
Salada de artistas
Brasileiros, cubanos, argentinos, colombianos, chileno e venezuelano abrem projeto do CCBB
Ana Rita Gondim
Aos que já visitaram a ilha socialista, ir à abertura do projeto Afrolatinidades – Matriz africana da música latina do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), ocorrido na sexta e no sábado, é como revisitar o território de Fidel Castro. Com quatro encontros, com participação de artistas da América Latina, África e Europa, a banda Songoro Consongo conduz todos os shows da série. No primeiro, Tropicalidade caribenha: Cuba e centro América, com o grupo formado por brasileiros, argentinos, colombianos, chileno e venezuelano, subiram ao palco também os cubanos René Ferrer, radicado no Rio de Janeiro, e Pancho Amat.
O grupo abriu o projeto com a canção homônima, o que tornou possível descobrir a pronúncia do nome Songoro Cosongo. Os oito integrantes no palco já impressionam na primeira música, com a variedade de instrumentos e a voz do venezuelano Aléxis José Graterol, que mais parece um cubano devido à familiaridade com a salsa, assim como todo o conjunto. Depois, o bolero Jardín de besos antecede a presença de René Ferrer, que, assim que sobe ao palco, é como transportar o público às ruas de Havana, com seu visual e sua voz forte. Certa vez, em território castrista, uma amiga dissera que a beleza da voz de todos os nativos cubanos pode ter explicação no consumo de rum e charutos. Na apresentação, a teoria ganhou ainda mais sentido.
Além da voz, René anima a plateia com sua alegria e simpatia – presentes do início ao fim por todos os artistas. De sua autoria, ele e o grupo apresentam Como en cada mañana e Ochún, cantadas sempre sorrindo e acompanhadas de sua ginga caribenha. Songoro Cosongo chama a atenção pela versatilidade dos músicos, os quais quase todos tocam mais de um instrumento. O chileno Arturo Cussen lidera o show de uma hora e meia, com um português quase impecável – o sotaque é apenas perceptível em raras palavras –, como o próprio Pancho Amat ressalta mais à frente.
Os dreadlocks de René Ferrer dão lugar aos sapatos bicolores e ao chapéu habitual de Pancho Amat, considerado mundialmente o maior intérprete do tres cubano, uma derivação do violão com três pares de cordas duplas. Em estilo bastante diferente ao conterrâneo anterior, tanto em gênero, como no visual e na faixa etária, Pancho dá um show literalmente com seu instrumento. A figura do compositor e arranjador encanta pela habilidade dos dedos ágeis nas cordas duplas, pelo apreço que demonstra pelos músicos que o acompanham e pela paixão musical que transborda em suas pernas inquietas e tresloucadas, que parecem não suportar tamanha emoção. De Pancho, eles cantam Llegó el tresero, Tal vez a los 50 e En el Café.
O grupo “sui generis”, cunhado dessa forma por Pacho Amat por ser um conjunto de música cubana sem ter um cubano sequer em sua formação, anuncia o fim do show com Lágrimas negras, de Miguel Matamoros. Os cubanos, na plateia e no palco, entram em êxtase e fazem coro com a canção. Todos os espectadores se levantam e alguns se entusiasmam ainda mais. Ao fim, o público bate palmas querendo bis e Arturo Cussen já avisa que haviam se preparado para este momento e apresenta Maracujá, composição da banda de múltiplas nacionalidades. A letra casa com o espetáculo, uma salada de artistas latinoamericanos: “maracujá, abacaxi, melancia, limão, misturado com cachaça fica muito bom”. A impressão é que rum e cachaça dão um belo e frutífero casamento.

Publicado no site Diversão & Arte
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