quinta-feira, 2 de março de 2017

Caixa de reminiscências

A gente já sabe, mas é preciso insistir depois de mais um erro. É preciso deixar o passado no passado. É preciso passar a chave na gaveta do que já foi um dia e jogá-la fora. Nada do que foi será possível retornar. A gente se engana com o que é verbalizado, com gestos e atitudes. A gente imagina um olhar, uma exclamação ou umas reticências onde não há além de um ponto final colocado lá atrás. É uma mania de esperar que ainda persista o que de bom já existiu. É um vício achar que ainda poderia ser especial para alguém. Fantasias são criadas para preencher não se sabe o quê. E as ilusões e desilusões foram fabricadas, não há culpados, além de si mesmo pela loucura ou cegueira. E a dor é inevitável. É preciso parar de abrir a caixa de reminiscências. O que lá existe foi vivido e sentido por um, mais ninguém. Fez parte de um, fez ser quem se é, mas está lá atrás e deve-se deixar que assim permaneça. As memórias são perigosas, deveriam apenas fazer sorrir pelo que foi vivido e não atravancar o que se pode ainda viver. Vontades que devem ser conservadas caladas, inauditas e guardadas entre poeira e emaranhado de teias de aranha na gaveta do passado.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Do nada

Do nada, acordo simplesmente triste. Do nada, lágrimas saem dos meus olhos mal os abro. Ponho a culpa nos sonhos que não me recordo. É mais simples a autoexplicação. Mas é mais profundo. Ao longo do dia, aquela tristeza inaugural mostra-se. Os anos passam, e pareço perder mais do que ganhar, apesar, de, às vezes, achar o contrário. Não perco mais tempo com bobagens ou pessoas rasas. Acredito que tenho mais tolerância com aquilo com que perdia paciência facilmente. Aprendo mais, leio mais. Aprendo a dizer não. Mas, ao mesmo tempo, a solidão cresce, os sonhos padecem, o corpo envelhece, a mente sofre. E a vontade de tudo é sempre maior. Essa vontade que teima ir na contramão da vida, do mundo, dos anos, do padrão. A vontade que está sempre ali e não vai embora. E seria mais fácil se ela se acalmasse. Já tive mais pressa, mas a pressa é inevitável. Preciso fazer isso, preciso fazer aquilo, preciso ir atrás, preciso aprender, preciso ser melhor, preciso… Tantos precisos que fazem a pressa estar sempre ao lado. Acalmo. Mas, logo, lá vem ela de novo. E, com ela, a vontade. É difícil ser sem saber ser-se o que é ou o que se pode ser. É difícil sonhar com o que independe de si e das incógnitas que o tempo traz. É difícil tentar ser sempre melhor e descobrir-se sempre cada vez menor. Quanto mais se lê e se sabe, mais se quer ler e menos se sabe. É um mais que vira menos, um menos que vira mais e esses sinais andam para lá e para cá na mente, se esbarrando, se atropelando, se congestionando. E acho que é nesses mais e menos que nasce a água salgada dos olhos sem saber-se seu real significado.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Adeus, Miuzinho!

Dez meses depois, perdemos mais um da família. Miu foi-se na última sexta-feira. O segundo gatinho que minha irmã trouxe para casa. Chegou tão pequenininho que não conseguia se equilibrar direito, caía ao tentar se coçar. Chegou doentinho e precisando de cuidados de todos.

Com minha irmã com alergia, eu levava-o ao pé da minha cama e o colocava em uma bacia com cobertor e um relógio para que não se sentisse tão só. Mas logo miava e eu o subia para a cama e ele se aninhava embaixo do meu pescoço. Não conseguia dormir, mas tampouco tinha coragem de tirá-lo dali.

Eram banhos frequentes na pia do banheiro para que tratássemos de suas micoses. Logo, foi ficando esperto, brincalhão, saudável. Durante 14 anos, nunca nos cansamos de admirar e sorrir quando ele e Tom brincavam e dormiam juntos.

Com a chegada de Mimiu, Tomzinho “envelheceu”. Dizíamos isso porque ele não pulava mais na cama, não mordia mais os nossos pés embaixo das cobertas. Ele havia se tornado o tio, o paizão da recém-chegada criança.

Miu logo escolheu meu pai. Era incrível a paixão de um pelo outro. E meu pai o mimava. No fim do dia, tinha o costume de lhe dar “meleca” – o apelido a que demos à ração molhada. E ai se não ganhasse. Quando chegava perto do horário, sentava-se na porta da cozinha, miava, dava cambalhotas, fazia de tudo para chamar a nossa atenção.

Mica não dava sossego. Não gostava de beber água no pratinho. Miava para que abríssemos a torneira do banheiro, do tanque, para tomar água corrente. E isso ocorria, inclusive, nas madrugadas. Íamos cansados, mas cheios de amor para com aquele serzinho branco-amarelo.

Recordo-me das inúmeras vezes quando estávamos diante da televisão na sala para assistir ao jornal ou às novelas. Ele subia e postava-se em cima dela. Ainda era daquelas de tubo de imagem. Isso tudo para chamar mais a atenção do que a televisão.

Como não amar aquele bichinho… Era tão querido, mas não podíamos tocar em suas patas ou seu rabo. E nem pegarmos no colo quando não era o seu desejo. Sua brabeza era instantânea. Achávamos graça. Mas quando queria colo, era o maior carinho, chegava a babar de tanto prazer com os cafunés.

Ele adorava fazer “caverninha” – procurar espaço embaixo dos cobertores, fosse para dormir ou para se esconder das visitas. Ele odiava tomar banho, virava literalmente um leão. Ele amava dormir com papai, entre as pernas, acompanhá-lo ao banheiro. Se papai saísse de casa, nem que fosse à garagem, era uma miação sem fim, um verdadeiro escândalo.

Tantas histórias que me torno incapaz de relatá-las todas. Nosso segundo gatinho vinha adoecendo, ficando cada vez mais frágil e fraco. Colocamos nosso egoísmo de lado e decidimos por ele se juntar ao nosso também amado lord Tom. Os meninos da casa partiram, mas deixam nossos corações repletos de tanto amor, tantas memórias lindas e tantos momentos inesquecíveis.

Obrigada, Miuzoca, por tudo de bom e lindo que nos proporcionou! Você, assim como Tomtom, sempre serão parte de nossas melhores recordações!


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Um dia de cada vez

Esperava, há tempos, uma notícia boa. Ela chegou e fico desconfiada. Não sei se vou dar conta. Não sei se é mesmo verdade. Não sei se, desta vez, será duradoura.

Ser humano é um bicho mesmo esquisito. Mas vivo como os alcoólicos anônimos: um dia de cada vez. Tento me equilibrar entre o otimismo e o pessimismo, pendendo para a realidade, em vez de para as expectativas.

Apesar de os anos passarem, sinto o contraditório de me sentir como se menos soubesse a cada dia. Cada vez que me aventuro, cada vez que busco uma nova experiência, percebo que fiz, lá atrás, apenas um ínfimo do possível. E tenho medo de quantos anos restarão, se poucos ou muitos, ambos me amedrontam.

É como se eu crescesse e emburrecesse ao mesmo tempo. Tento somente não me sentir incapaz ou não deixar que a minha insegurança me limite ou me impeça de começar e continuar. Aquele frio na barriga parece tão constante como na juventude, apesar de não confessá-lo.

E sigo, metade tranquila, metade enlouquecida. Metade que acredita, metade que hesita. Metade que faz, metade que sonha. Tantas metades, que nem sei se são metades. Acho que sou frações antitéticas, em silêncio e em gritaria, em dialetos que nem consigo decifrar.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Uma aventura em um triciclo de bambu


Já imaginou rodar mais de um país em cima de três rodas? E em um triciclo feito de bambu? Isso não é roteiro de filme nem uma aventura de um louco. Breno Lobo, 40 anos, fará uma viagem de mais de 2 mil quilômetros durante aproximadamente dois meses por Tailândia, Laos e Malásia. O veículo? Ele mesmo o fabricou, junto com um arquiteto tailandês. Breno pretende iniciar a viagem no fim de fevereiro.

Por que o bambu? Porque é um material ecofriendly, renovável e flexível. Além disso, a planta demora apenas três anos para chegar a um tamanho em que pode ser cortada e aproveitada para fabricação de diversos materiais. E logo volta a crescer. Segundo Breno, o seu triciclo de bambu é mais confortável para uma viagem de longas distâncias do que uma bicicleta comum.

“As pessoas acham que eu sou louco. Mas sou um cara normal que abriu mão do luxo, saiu da sua zona de conforto para ser 100% feliz. Faço tudo por paixão. Ela que norteia a minha vida. Com mais essa viagem, quero promover um estilo de vida diferente e mostrar que não é preciso estar ligado a algo que não te faz feliz”, explica Breno.

Não bastam apenas a viagem e o triciclo. Breno convida a todos para a sua aventura. E não é necessário acompanhá-lo durante todo o trajeto. Pode ser um dia, uma semana ou um mês.

Se não puder ou tiver coragem de segui-lo, pode fazer a viagem junto com ele acompanhando suas fotos e seus vídeos feitos e editados por celular. Breno vai publicá-los, diariamente, em sua página Nomadik Breno.

Se ele tem patrocínio? Não. Mas Breno não descarta qualquer parceria. Em sua aventura, ele ainda utilizará roupas feitas por ele próprio a partir de fibras de determinadas plantas para seu conforto e para não abdicar da boa aparência. Mas isso já é outra história.

Quer saber mais sobre o Breno?

Breno é aventureiro desde sempre. Mineiro, de Belo Horizonte, saiu do Brasil aos 17 anos e foi aos Estados Unidos. Lá se formou em Marketing e Turismo. Depois, viajou pela América do Sul, onde escalou, durante quatro meses, a Cordilheira dos Andes, conheceu a Patagônia e a Polinésia.

Ao retornar ao Brasil, teve sua própria agência de publicidade em Brasília. Mas não se viu mais no padrão escritório-reuniões-gravata. Decidiu conhecer mais outros locais e suas respectivas culturas. Ao todo, Breno já visitou 52 países em 16 anos na estrada.

Breno tornou-se instrutor de mergulho de cilindro e de mergulho livre (apneia) e chegou a montar seu próprio veleiro, onde velejou durante dois anos e meio pela costa da Tailândia e Malásia. Hoje, mora na Tailândia há quatro anos. Seu veleiro é sua casa e seu escritório.

Em sua “casa”, convidou também quem quisesse acompanhá-lo. Mas as recusas eram várias, desde o enjoo que o mar provoca em algumas pessoas ao pequeno espaço que muitos alegavam não conseguir aguentar por muito tempo. De bicicleta, ele acredita que não haverá tantas desculpas. Vamos nos juntar a ele?