segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Em busca ou à espera

Recebi um comentário esses dias que me “espantou”. Numa resposta, num conselho ou numa advertência, o amigo me disse: “o extraordinário vem de dentro pra fora, não o contrário”. Não foi algo que li e rapidamente segui meus afazeres. Detive-me um tempo. No mesmo instante, lembrei da conversa que tive com uma amiga assim que cheguei ao trabalho, lembrei das minhas noites de insônia devido aos incessantes pensamentos e análises e conjecturas e planos e sonhos e frustrações, lembrei do que galguei até hoje e do que consigo vislumbrar nebulosamente mais à frente, lembrei dos meus repetidos fracassos amorosos, juntos com suas alegrias e lágrimas, lembrei da minha inconstância, lembrei de mim.

Caço o extraordinário porque sem ele não há passos. Mas, porque é extraordinário e para sê-lo, ele acontece raramente. Preciso de atenção para enxergá-lo, pois posso confundi-lo com a camuflagem do ambiente. Meus olhos, cansados ou acostumados, podem não discerni-lo à paisana. Preciso apurar minha delicadeza para encontrar o detalhe. Particularidade esta que acredito toda vez que encontro algo reluzente, mas não é isso que o faz extraordinário. E acredito que sua ausência decorra não porque eu procure, mas porque espero. Não vou tanto a campo porque posso me perder e o que poderia me ser encontrado pode ser me desviado do meu caminho. E também porque não sei aonde ir, que direção tomar. Deixo-me levar a mim, mesmo que não seja o correto, mas porque aprendi que comigo tudo me vem lenta e retardatariamente, e vem, tardiamente, mas vem, ou ainda não vivi o suficiente para ter certeza.

Não sei se estou em busca ou à espera. Tampouco sei se sei buscar o que desejo, ou se o que busco seja encontrável. Talvez o extraordinário esteja em mim, esteja no outro que não enxergo, esteja na habilidade que desconheço ou subestime, esteja no ordinário mais comum e imprescindível. E agradeço a este amigo que me ocupou do extraordinário no mais ordinário dos dias.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Cuba

Aos que desejarem saber da viagem à "menina dos olhos de Fidel Castro", a dica é o blog Ilhada da minha companheira, amiga e guia turística Ariadne, conhecida carinhosamente por Riris

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Metades de mim mesma

Não sou visconde ou viscondessa, mas me vejo partida ao meio. Sou metade que enfrenta e metade que chora. Metade que quer continuar, metade que termina. Metade que sonha, metade que finca os pés no chão. Metade que viaja, metade que se esconde. Metade que se abre, metade que se guarda. Metade saudável, metade virulenta. Metade silenciosa, metade algazarra. Metade que acaricia, metade que briga. Metades que no fim não se encontram. Metades que sempre estiveram juntas.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Delírios de férias

Não sei com que língua fala. Num dia, me fala em português. Noutro, me fala em russo. Na verdade, às vezes, não sei me traduzir. Um querer e um conseguir que andam descompassados. Ás vezes, não sei o que palavras e atitudes sugerem simultaneamente. Palavras já me afundaram. Atitudes já me elevaram. As duas juntas sempre me faltaram. Vivo hoje, mas não sei viver pela metade. A gula é meu pecado capital. Quero tudo, de uma vez, inteiro. Canso de esperar, não sei esperar. Mais uma vez, adio. Postergo pela tranquilidade de achar que fui paciente. Anseio pelo dia que estarei em terra distante, longe do que hoje me é também distante. E minha impaciência há de gritar novamente...

sábado, 22 de agosto de 2009

Me perdi

Me perdi quando minhas mãos encontraram as suas
Me perdi com seus olhares demorados
Me perdi antes disso
Me perdi quando te vi
Me perdi nas conversas diárias
Me perdi naquele palpitar adolescente desconhecido
Me perdi no primeiro beijo
E nos encontros cada vez mais frequentes
Nas noites cada vez mais longas
Com amanheceres sempre constantes
Me perdi entre copos e cigarros
Me perdi deitados com filmes
Me perdi em estacionamentos
Me perdi em sua casa
Me perco em continuar
Me perco em interromper
Me perco
Não me deixo perder
Que eu me perca, mas não te perca…

sábado, 15 de agosto de 2009

Geralda e avenca

Assim como Pedro Juan, senti-me completamente só num dia de céu azul e sem trabalho. E, apesar do brilho do sol nas nuvens e nas folhas das árvores, em mim nada brilhava. Era como se tudo estivesse ofuscado como aquela poeira que vai se acumulando nas vidraças. Então, tratei de começar o dia cuidando de mim, mas não tardou até que algo quisesse explodir por dentro. Dei-me o tempo para a explosão. Deitei por uns instantes.

Penso o que poderia fazer até o resto do dia com esta sensação que há tempos não ressurgia. Lembro do que fiz vários meses atrás e decido fazer o mesmo. Coloco um vestido, uma caneta para prender o cabelo e vou para a rua. Compro uma garrafa, não de rum, para brindar o sol que se põe e para me embriagar e afrouxar o nó que me sufoca. Coloco para gelar, ponho Buena Vista Social Club para tocar bem alto e vou para debaixo do chuveiro.

Evito me olhar no espelho, tanto por receio de não gostar do que reflito quando por medo de não me reconhecer. O banho ajuda a levar embora o que se havia incrustado sobre a pele e, aos poucos, vou amolecendo a pedra que se havia formado. Lembro do que me deixou assim e penso.

Constantemente, me engano ou deixo-me enganar com os vagões que passam pela minha estação. Às vezes, pego carona em um e volto em seguida. Às vezes, faço uma longa viagem. Mas sempre retorno. E o retorno começou a ser um pensamento recorrente. A ideia de pular daquele vagão de repente parecia-me o mais sensato. Já que fosse para regressar mais à frente que fosse logo.

Lembro do que o cubano me disse no dia anterior: “gosto de caminhar devagar, mas não consigo. Sempre ando rápido. E é um absurdo. Se estou sem rumo, para que tanta pressa? Bom, na certa por isso mesmo: estou tão apavorado que não paro de correr. Tenho medo de parar por um instante e descobrir que não sei em que porra de lugar estou”.

Corro o tempo inteiro e penso o tempo inteiro. Penso à medida que corro, corro à medida que penso. Porque nada fica, atropelo, me atropelo. O céu vai perdendo a luz e eu vou me amansando. A voz e o violão de Drexler servem como um colo numa cadeira de balanço, o colo que preciso quando deito agarrando o travesseiro. Outras cores vão tomando conta do céu e eu vou também mudando de cor. Mais uma noite, mais um dia, e eu vou voltando a mim...

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Trilogia suja de Ana

Sentei na sarjeta. Senti um odor de merda, diria Gutiérrez. O cheiro do ralo vinha de perto, do meu subterrâneo. Há tempos escondia a sujeira, mas ela veio à tona. Tantas pequenas coisas se somaram que a tampa não suportou a pressão e foi merda pra todo lado. Exijo e sou exigida. Descobri em aulas de Direito Penal que não se é criminoso se agente e paciente recaem sobre a mesma pessoa. Mas talvez eu seja a criminosa de mim mesma. Disfarcei as minhas diferenças e fui pega em flagrante e acusada de mim mesma por mim mesma.

E o subsolo é profundo, mergulho e não encontro o ralo que pudesse mandar tanta sujeira embora. Não sei destampá-lo. A sujeira vai comigo aonde eu for. Às vezes, escondida, às vezes, descoberta. E ninguém gosta de cheiro de merda, nem da própria. Mas deixo ele me incomodar como um cachorro que precisa sentir o cheiro pra nunca mais cagar no lugar errado. Vou tampar mais uma vez e, mais uma vez, esquecer que sou também a minha sujeira. E Pedro Juan vai me contando da sua própria, da sua ilha, de mi Cuba querida...

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Eu e meus souvenirs

Talvez jamais se encontre o que se procura. Talvez o que se busca sequer existe. E, sem certezas ou respostas, caminha-se. Olho para os lados e o incomum é obviamente sempre tão raro. Às vezes, me deparo com algo diferente e guardo como uma lembrança de uma viagem. Carrego, para cima e para baixo, para conhecer, descobrir, me encantar e, quiçá, me desvencilhar depois... Ah, como já me enganei e posso enganar-me novamente... Hoje talvez eu diga que a vida são os enganos e desenganos. Uma dor sofrida ali que virou piada aqui e nos tornou diferentes, uma cicatriz tão profunda que remexeu lá dentro e alterou nosso código genético.

Saber se o que se faz é correto, direito, justo... Eu bem gostaria de ter o sexto sentido apurado para que me dissesse ou pelo menos desse sinais. Jamais soube se as minhas escolhas foram a alternativa escorreita do gabarito das provas que encontro nas encruzilhadas. Me perco, lembro de ontem. Palavras, gestos, olhares embaralham-se, confundem-se. Um ontem repaginado ou um hoje realmente diferente? Ah, respostas, respostas, procuro e jamais encontro... Tento evitar as caraminholas que insistem em pousar nos pensamentos. Elas me atrapalham, mas me protegem. Protegem-me porque insisto em querer carregar um souvenir de uma viagem por todo o caminho, e talvez ele pereça após apenas alguns passos.

Doem-me os tornozelos, os degraus cansam-me, a corrida tira-me o fôlego. Mas os pés são inquietos, levam-me a todos os lados. Perdi a minha bússola em alguma parte da viagem. Logo no início, acredito. Perdi os instrumentos náuticos que poderiam me avisar de uma tempestade que se aproxima. Perdi o rádio para pedir resgate no meio de uma tormenta. O vento levou a minha rosa dos ventos. Olho um mapa e não entendo, não me entendo. Caio em precipícios dos mapas geográficos conhecidos ou intuídos. Às vezes um tombo de que dou risada, às vezes um tombo que me deixa hematomas, às vezes um tombo de onde deslizo e chego mais leve a outro lugar... Tudo deve ser mesmo sem sentido, sem norte, sem resposta, sem porque, apenas vários pontos finais ou reticências... E eu e minha coleção crescente de souvenirs, velhos, quebrados, podres, novos, lustrados...

sábado, 4 de julho de 2009

Sempre 80

Adoro tudo em demasia, o que gosto e o que desgosto. Do que não me apraz, sofro, me desmancho, me desmonto para construir-me melhor. Do que me deleito, aproveito, com uma compulsão voraz de ser o último instante. Engano-me. Que possa ser o derradeiro momento, se não, por querer existir e que exista em excesso cada segundo, cada muitos, cada dois, para morrer ali ou eternamente. Não sei porque escrevo, talvez por ser mais um momento ímpar de desejar viver em demasia...

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Preciso dizer alguma coisa?! :-)

Lenine e sua flor chegam a Brasília

Ana Rita Gondim

“Só tenho flores pra jogar...” Dessa forma, Elba Ramalho chamou ao palco seu convidado especial para cantarem juntos Lá e Cá no CD Grande Encontro 3 (2000). O artista solicitado era o cantor, compositor e produtor pernambucano Lenine. A cantora paraibana é tida como sua madrinha no meio musical por ter sido a primeira a cantar uma música de autoria do artista. Para ele, ela foi uma “poderosa janela”, assim como para uma geração de artistas. E é com nome de flor que Lenine faz nesta sexta-feira, no Centro de Convenções, o show homônimo de seu oitavo e mais novo disco: Labiata.

Apaixonado por orquídeas, prazer que cultiva e coleciona há nove anos, a escolha da espécie para nomear o novo trabalho foi, segundo ele, totalmente passional. Primeiramente, pela sonoridade da palavra e, depois, para reverenciar o latim que descreve a flor brasileira. Além disso, relacionar a música com outra paixão sintetiza a particularidade do disco. “Também levei em consideração por se tratar de um projeto que tem uma característica muito evidente que é a intimidade porque me cerquei só das pessoas muito próximas pra fazer todo o projeto. Eu optei também por reafirmar esse tipo de intimidade e escolhi um nome de uma paixão minha, que são as orquídeas”, explica o músico de sotaque forte.

A intimidade de que Lenine fala, além das letras das novas composições, foi a continuação da presença dos parceiros de trabalho desde o início da carreira, como Lula Queiroga, Bráulio Tavares, Ivan Santos, Carlos Rennó, Dudu Falcão, Paulo César Pinheiro e Arnaldo Antunes. “Na verdade, eu sofro desta alta fidelidade há muitos anos. É uma doença maravilhosa de estar só com os muito próximos. E nesse disco eu levei isso até as últimas consequências. E os parceiros são os meus desconfiômetros, essas pessoas estão comigo ao longo de 30 anos que estou por aí”, enaltece.

Além disso, a banda que o acompanha há vários anos – Pantico Rocha na bateria, Guila no baixo e JR Tolstoi na guitarra e coprodutor de Labiata junto com Lenine – retornou ao trabalho em estúdio e para o show de hoje, uma parceria interrompida nos dois trabalhos anteriores (Acústico e In Cité). “Eu acho que talvez esse seja o disco mais íntimo e mais autoral até por consequência de toda essa intimidade”, classifica o artista.

Para a apresentação de hoje, que começa às 22h (com abertura do foyer às 19h para um happy hour), Lenine confirma Labiata como a base do espetáculo. Composições de outros discos poderão entrar no repertório, mas mais por improviso e no momento do bis. “Pra ser honesto, eu estou naquela situação do pai querer mostrar o filho novo. (risos) O menino começa a andar com as próprias pernas, então, eu sempre priorizo esse repertório”, brinca o artista.

O disco
Não bastassem as diferenças com os trabalhos anteriores, o novo disco resgata um som forte, como na faixa O céu é muito, que remete à consciência musical do artista ter surgido com o rock anos atrás. “Tem muito dessa coisa da hibridagem, uma coisa que já faço há muitos anos, mas que, no Labiata, talvez esteja mais evidente uma música mais poderosa, mais pesada, mais rock’n’roll mesmo. Talvez seja um grande exorcismo do meu lado Led Zeppelin”, relaciona. Outra novidade vem com Samba e leveza, composta por Lenine e Chico Science e dedicada a Goretti, irmã de um dos principais colaboradores do movimento manguebeat falecido em 1997.

A participação póstuma do outro também músico pernambucano chegou às mãos de Lenine por meio de Goretti, “a musa da canção”. Segundo ele, ela foi à sua casa com os manuscritos nas mãos e contando que, antes de falecer, ele estava romântico e cantarolava uma canção. “E ela, de uma maneira muito gentil e muito carinhosa, olhou pra mim e disse ‘só você, você é a única pessoa que pode transformar isso em palavras’”, conta emocionado. A própria música revela o encontro e a intimidade entre Goretti e Lenine: “Foi na leveza, só sentimento, e me entregou suas palavras, como quem dava um pedaço”.

Outra novidade é a presença dos seus três filhos (João Cavalcanti, da banda Casuarina, Bruno Giorgi e Bernardo Pimentel) na última canção do disco, que, não por acaso, chama-se Continuação. “Num momento em que eu fazia e reafirmava um disco completamente íntimo, nada mais óbvio do que pegar as minhas crias”, revela carinhosamente. Ao explicar o momento da gravação da música, Lenine compara com a primeira vez que entrou numa destas salas. “Foi um momento muito especial, inesquecível, Foi bacana perceber que, pra eles, não existe aquela coisa ritualística de entrar no estúdio pra gravar. Eu me lembro da primeira vez que entrei num estúdio, pra mim era terrificante, todos aqueles equipamentos em função de você. Eles tiraram de letra”, conta.

Para os que não acompanham a trajetória do músico ou desconhecem o mais novo trabalho, Labiata não é totalmente estranho. É o que Interessa, escrita por Lenine e Dudu Falcão, foi sucesso da trilha sonora da novela A Favorita, da TV Globo. Martelo Bigorna, composta unicamente por Lenine, também é ouvida em Caminho das Índias, no papel da personagem de Letícia Sabatella, também da TV Globo. Várias faixas de outros discos seus ou um trabalho específico já foram temas de outras novelas, minissérie e filme (direção musical de Caramuru – A invenção do Brasil, de Guel Arraes e Jorge Furtado), espetáculo (trilha sonora de Breu, do grupo de dança O Corpo; direção musical de Cambaio, dirigido por João Falcão). Além disso, Lenine também produziu trabalhos de outros artistas, como Segundo de Maria Rita, De uns tempos pra cá de Chico César, Lonji de Tcheka, cantor e compositor do Cabo Verde, e Ponto Enredo de Pedro Luis e a Parede.

Entrevista

Como é dirigir espetáculos, fazer trilha sonora para filmes?
Lenine: Pra te ser sincero, eu achei que minha vida toda eu estava me preparando pra fazer cinema. Foi o estímulo inicial, eu queria trabalhar com audiovisual, e descobri muito cedo que isso saía muito mais caro do que fazer um show... (risos) Então, por falta de grana, eu comecei a fazer show... (risos) Não, mas eu acho que está próximo da música, a música brasileira, a música refinada e aprofundada que a gente tem aqui no Brasil, ela vem de mãos dadas com o cinema, com o teatro, com a literatura. Ela realmente tem uma abrangência muito maior com a arte. Aqui no Brasil, existe esse diálogo entre as artes.

Diante de uma nova música, o violão, a batida já denunciam que é música sua...
Lenine: Você sabe que isso foi engraçado porque nunca foi uma procura minha, parece que eu passei o tempo todo descobrindo e procurando como um cientista maluco, um alquimista (risos), uma maneira de fazer... Não foi assim, não. Foi o exercício. É intuitivo. Então eu vou fazendo muito ao sabor do destino.

A engenharia química tem a ver com não conseguir se classificar num gênero específico?
Lenine: Eu acho que você foi ao cerne da questão. Aliás, tem uma grande regra que rege toda a química e mesmo a alquimia e que é assim: se você tem o objetivo de ser homogêneo, tem que saber ser heterogêneo. Parece paradoxal, mas não é isso. Pra você conseguir uma reação realmente que ela tenha uma homogeneidade, você tem que saber o que está misturando. Eu acho que essa regra eu levei pra minha vida de uma maneira geral. E a música que eu faço é muito dessa alquimia que eu aprendi.

Sobre o bloco de carnaval Quanta Ladeira, já existe alguma música prevista?
Lenine: (risos) Quanta Ladeira, rapaz, não existe fora do contexto do Carnaval. (risos) O Quanta Ladeira é catarse. Quanta Ladeira não tem filtro. O Quanta Ladeira é uma besteira da maior qualidade (risos), que, fora do contexto do Carnaval, eu tenho a maior vergonha. É um bando de vagabundo que descobre uma maneira, no meio do Carnaval, de se reunir e fazer uma ode, que se chama as “retrohomenagens”. A gente “retrohomenageia” um bocado de gente. (risos) É o máximo que eu posso dizer sobre esse bloco anarco-exibicionista. (risos)

Fala-se que você é antropofágico, canibal, que faz música predatória brasileira. O que significa isso?
Lenine: Não tenho a mínima ideia, nêga, é a tentativa de neguinho botar um rótulo no que eu faço. Eu brinco. Dentro dos adjetivos que usaram para a música que eu faço, um que eu acho que se adequa mais é o contemporâneo. Então, se me perguntarem ‘o que é que você faz?’: música contemporânea. Está de bom tamanho.

Ainda se diz muito por aí que não se faz mais boa música no Brasil...
Lenine: Eles estão surdos e míopes. (risos)

Você se diverte fazendo música?
Lenine: Ah, minha nêga, eu continuo com a sensação juvenil toda vez que subo um palco, que entro num estúdio. E eu tenho impressão que se um dia eu perder esse tesão, eu vou fazer outra coisa. Eu consegui de alguma maneira preservar esse tipo de paixão que a música tem. Então, eu continuo me divertindo em demasia.

Você diz que é um “cantautor”...
Lenine: Isso. Eu não me permito cantar músicas dos outros porque eu esqueço muito as letras. Imagina? Quando eu estou cantando a minha música, na hora que eu esqueci, a pessoa que está ouvindo diz ‘não, isso é uma adaptação, ele está fazendo uma nova letra para a música’. (risos) Agora imagina se eu faço isso com a música do Tom Jobim ou do Chico Buarque? (risos) ‘Cantautor’ é uma figura histórica que surge no nosso tempo no século XI, que é a figura dos trovadores. Esses trovadores ali que saíam de vila em vila com um instrumento rústico cantando as composições que eles faziam, como repórteres de sua época, como a rádio e o jornal de sua época. Essa figura histórica, eu me identifico muito com ela. Acho que é o que eu faço. Qualquer pessoa que canta o que compõe é uma figura do trovador.

Publicado no Divirta-se

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Não esperar...

Páginas me fazem falta. Por duas semanas, abstive-me delas para desempenhar compromissos. O intervalo também me permitiu viajar ludicamente a partir de premissas reais. Mas esses quinze dias trouxeram de volta a insônia, as caraminholas. Não que escritos não façam isso, mas eles me deixam sair de mim por alguns instantes, são minhas férias necessárias e diárias. Retorno na noite anterior. Um livro enfadonho pôs-me a dormir tranquilamente. Na manhã, pego a revista emprestada com a sugestão de uma entrevista com o filósofo André Comte-Sponville. Encontrei nele um “salvador”. Chamo assim os momentos, pessoas, palavras, quando, com quem, onde encontro coincidências, sejam elas manias, pensamentos, “teorias”, “viagens”. Segue um trecho interessante, não totalmente coincidente, mas com razões semelhantes às que pensei muitos anos atrás para defender-me... de mim mesma...

“Você conhece a fórmula de Gramsci: “Pessimismo da inteligência, otimismo da vontade”. Pessimismo da inteligência, porque é preciso ver as coisas como elas são, sobretudo quando são inquietantes, e mesmo vê-las de maneira um pouco mais sombria do que realmente são: assim seremos mais vigilantes. Mas otimismo da vontade, porque depende de nós mudá-las, ao menos em parte, e evitar o pior. Isso me faz pensar naquela outra fórmula do estóico Sêneca: “Quando você tiver desaprendido a esperar [ou seja, desejar o que não depende de você], eu o ensinarei a querer” [ou seja, a desejar o que depende de você e, portanto, a agir]. Não se trata de ser otimista ou pessimista. Trata-se de ser lúcido e corajoso. Não se trata de esperar ou temer; trata-se de querer, de prever e de agir.
Dito isso, serei menos exigente que Sêneca: não peço que você não espere nada, pois isso está, sem dúvida, fora de nosso alcance. Eu diria antes: não se contente em esperar, ou seja, em desejar aquilo que não depende de você; aprenda a desejar o que existe e o que depende de você, ou seja, a amar e a agir. É a única sabedoria que não mente: uma sabedoria da lucidez, do amor e da ação”.

terça-feira, 2 de junho de 2009

É o que me interessa

Desconhecia há algum tempo, os benefícios da liberdade. Vantagens que há em tudo, é verdade. Mas, quando ser quer sempre voltar para a cama e não ser um corpo sozinho, esquece-se de algumas maravilhas. As delícias de fazer o que se quer, na hora que desejar, com a companhia que escolher. Redescobrir coisas grandes em coisas pequenas. Um paradoxo que é a própria quem escreve. E estes momentos têm sido recorrentes... Tão constantes que falta tempo e ideias para escrever. Sinto saudades das linhas que me vinham à mente e eram digitadas no teclado... Ao mesmo tempo, é tanto encanto para pouco tempo e, se houvesse tempo, precisaria de dias duplicados para transpor os assombros positivos. Não perder mais tempo com coisas indesejáveis, com desejos incoerentes, com seres rastejantes... Sentir saudades também é outra característica desta que escreve, saudades de um arroubo de abraço, saudades de um beijo que se prometeu... As saudades não mais doem, são lembranças que ficam do que um dia foi. E novas lembranças serão sempre bem-vindas, assim como os bons momentos e as simples descobertas que hoje abrem janelas e abrirão tantas mais... E, para musicar as benesses de hoje e adiantar as que se aproximam:

“Daqui desse momento/ Do meu olhar pra fora/ O mundo é só miragem/ A sombra do futuro/ A sobra do passado/ Assombram a paisagem/ Quem vai virar o jogo e transformar a perda/ Em nossa recompensa/ Quando eu olhar pro lado/ Eu quero estar cercado só de quem me interessa

Às vezes é um instante/ A tarde faz silêncio/ O vento sopra a meu favor/ Às vezes eu pressinto e é como uma saudade/ De um tempo que ainda não passou/ Me traz o teu sossego/ Atrasa o meu relógio/ Acalma a minha pressa/ Me dá sua palavra/ Sussurre em meu ouvido/ Só o que me interessa

A lógica do vento/ O caos do pensamento/ A paz na solidão/ A órbita do tempo/ A pausa do retrato/ A voz da intuição/ A curva do universo/ A fórmula do acaso/ O alcance da promessa/ O salto do desejo/ O agora e o infinito/ Só o que me interessa”
(É o que me interessa: Lenine/Dudu Falcão)

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Luna Clara & Apolo Onze

Luna Clara & Apolo Onze foi um presente. Um livro que recebi de uma pessoa ímpar. Li 327 páginas como se me salvassem dos desatinos de cobras e lagartos em que a vida nos põe de vez em quando. As fantasias de Aventura, Doravante, Pilhério, Luna Clara, Apolo Onze, Equinócio, Seu Erudito, Odisséia, Divina, entre outros, me levaram longe, me transportaram às nuvens. Uma autora que desconhecia, mas que me foi apresentada da melhor forma.

Ao ler o calhamaço à noite, percebia despertar de forma incomum. Os devaneios de Adriana Falcão habitaram meus sonhos, profundos, não mais insones. Também de forma singular, não separei o último capítulo. As últimas cem páginas foram lidas ininterruptamente. Queria alcançar logo os encontros, as possibilidades.

E rezo a Nossa Senhora do Não me Torne Chata. Quero que o aniversário dos anos não me aborreça e que eu continue a me divertir com livros assim e filmes como o Divã... Além, também, de rezar para a "Nossa Senhora do Final Feliz"...

Obrigada, minha doce e querida amiga, Flavinha! (E não venham me dizer que esta vírgula não existe. Neste caso, ela é obrigatória)

“Luna Clara mais uma vez se deu conta do quanto era desorganizada sua cabeça.
Uma lembrança, uma imaginação, uma decepção, uma nova esperança, uma reflexão, um dane-se, um desejo, outro, muitos, tudo fora das gavetas, numa bagunça muito maior do que a de seu quarto.
Um lado queria ir, um lado preferia ficar, um pensava em Doravante, outro gostava de Apolo Onze, outro estava na dúvida, outro...”

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Tempo seco

Não posto mais minhas matérias no blog por motivos diversos. Algumas eu colocarei devido a algumas particularidades. A de hoje, por exemplo, é um texto que escrevi sobre o lançamento do livro da editora de cultura do jornal onde trabalho. Obviamente, a insegurança esteve comigo antes, durante e depois de entrevistar e escrever. No fim, acredito que saíram boas palavras... E, é claro, obrigada, Clara!

13/05/2009
Clara Arreguy lança seu terceiro livro nesta quarta-feira

Ana Rita Gondim

Miriam deixa sua cidade natal, Belo Horizonte, e chega a Brasília. Para se locomover, prefere os táxis ao transporte público. Nisso, se relaciona costumeiramente com os motoristas, para os quais se torna confidente e ouvinte. Um deles, Rodrigues, torna-se grande amigo devido à afinidade que sentem. Esses momentos, “enquanto o taxímetro está ligado”, são seus instantes menos solitários, únicos em que se relaciona com outras pessoas e onde encontra “umidade” na “secura” da capital federal.

É assim a história inicial do terceiro livro, segundo romance, de Clara Arreguy, editora do caderno de cultura do Correio Braziliense. Tempo seco, que será lançado nesta quarta-feira (13/05), às 19h30, no Bar Brahma (201 Sul), conta esses encontros e diálogos ambientados em corridas de táxi. Miriam e Rodrigues são os protagonistas, mas outros personagens, assim como o momento político do enredo, dão força às linhas inicialmente escritas durante as férias da jornalista.

Apesar das semelhanças entre Miriam e Clara, ambas vindas de Belo Horizonte e moradoras de Brasília, a autora avisa que o livro é uma ficção. “Miriam tem muito a ver comigo, mas é uma personagem mesmo. Ela não é autobiográfica, nem as histórias são reais”, elucida. Para provar a divergência entre as duas, Clara Arreguy conta que está satisfeita na cidade onde reside desde 2004. “Uma diferença é que a personagem chega a Brasília e tem uma adaptação difícil. Hoje eu sou feliz aqui. A personagem não, ela patinou aqui, é solitária, tem dificuldade de se relacionar com os desconhecidos, vive muito dessa conversa e dessa relação que dura enquanto o taxímetro está ligado”.

Ambientado no momento em que Luiz Inácio Lula da Silva torna-se, pela segunda vez, o presidente do país, a realidade é novamente trazida um pouco para a ficção nas páginas de Tempo seco. Política é outro assunto de que a autora gosta bastante e que foi tema de seu livro de memórias lançado em 2005, Fafich. Muitas das conversas nos bancos de táxis têm como base o momento da época. “Tem muita política no fundo, com personagens que defendem o Lula, que estava muito à frente nas eleições, ponho na fala dos personagens esse apoio. Mas a história é dela, não é a minha”, esclarece Clara, mais uma vez.

A imagem da capa e o título da obra remetem imediatamente ao quadrilátero central do Brasil, mas diz ainda mais. “A secura não é só meteorológica”, afirma a autora. Tempo seco é também a solidão de Miriam, de Rodrigues, da inabilidade em se adaptar, em construir laços, da dificuldade de se misturar onde tantos de origens diversas estão em convivência comum. “É uma marca da cidade e da infelicidade das personagens principais. Sou muito feliz aqui, mas muita gente não conseguiu. Ela é uma exilada”, pontua secamente a autora, em contraposição à “umidade” que transborda. Questionada sobre se era uma obra dramática, Clara afirma verbal e gestualmente: “muitos me perguntam isso e ele é um livro triste, sim”.

Nascida em 1959 em Belo Horizonte, Clara Arreguy é jornalista formada pela UFMG e escritora. Foi crítica de teatro, repórter, editora assistente de Cultura do Estado de Minas entre 1986 e 2004. Desde maio de 2004, atua como editora de cultura do Correio Braziliense. Ela é autora de Segunda divisão (romance, Editora Lamparina) e Fafich (memórias, Editora Conceito), lançados em 2005.

Publicado no Divirta-se

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Descobrindo-me

Descubro-me velha. Gostos, preferências, vontades, mudaram. Descubro-me antiga. Quando muitos riem, eu me constranjo. Descubro-me cansada. Histórias se repetem. Descubro-me medrosa. Medo dos sonhos permanecerem apenas fantasias. Descubro-me criança. Ainda procuro o dedo-mindinho a me guiar quando já aprendi a andar. Descubro-me adulta. Dias atribulados, contas a pagar. Descubro-me menina. Invento amores impossíveis para florear noites solitárias. Descubro-me mulher. Os anos correm.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Dois irmãos


Guardo o último capítulo, assim como já fiz com outros livros. Não gosto de despedidas, nem que sejam com as últimas páginas. Além disso, tenho receio de a obra me decepcionar com o final. Uma das manias que tenho não é ler as primeiras palavras de um livro em uma prateleira, mas procurar a última frase. Talvez como se pudesse me trazer uma resposta, talvez para descobrir como termina uma história.

Por um mês, Dois irmãos, de Miton Hatoum, me acompanhou nas manhãs e nas últimas horas do dia. Queria alcançar o fim da rinha entre os irmãos gêmeos, me fascinava o amor de Halim por Zana, desenhava Manaus em meus pensamentos com as descrições do autor. Por fim, o mistério de Domingas e do narrador tornou-se o cerne da leitura. E o mistério não se desvenda.

Opino, talvez, por bons ou maus livros pelas anotações e grifos que realizo. Houve alguns que gostei sem ter riscado muita coisa. Mas vários me chamam a atenção por passagens e ditos interessantes, inteligentes, que me põem a pensar e voltar um dia a reler. E Dois irmãos teve um pouco disso. E certamente outro volume de Milton Hatoum ocupará meu tempo.

“’Louca para ser livre’. Palavras mortas. Ninguém se liberta só com palavras. Ela ficou aqui na casa, sonhando com uma liberdade sempre adiada. Um dia, eu lhe disse: Ao diabo com os sonhos: ou a gente age, ou a morte de repente nos cutuca, e não há sonho na morte. Todos os sonhos estão aqui, eu dizia, e ela me olhava, cheia de palavras guardadas, ansiosa por falar. (...)
Naquela época, tentei, em vão, escrever outras linhas. Mas as palavras parecem esperar a morte e o esquecimento; permanecem soterradas, petrificadas, em estado latente, para depois, em lenta combustão, acenderem em nós o desejo de contar passagens que o tempo dissipou. E o tempo, que nos faz esquecer, também é cúmplice delas. Só o tempo transforma nossos sentimentos em palavras mais verdadeiras, disse Halim durante uma conversa, quando usou muito o lenço para enxugar o suor do calor e da raiva ao ver a esposa enredada ao filho caçula. (...) Alguns dos nossos desejos só se cumprem no outro, os pesadelos pertencem a nós mesmos.”

sexta-feira, 1 de maio de 2009

domingo, 26 de abril de 2009

Suíte floral

Uma das coisas mais linda que vi na vida: Suíte floral – As quatro estações. Um quarteto de músicos fantásticos à esquerda e solos e pas de deux de incríveis bailarinos à direita. Os músicos: Lilian Barretto (piano), Cristiano Alves (clarineta), Hugo Pilger (violoncelo) e André Boxexa (percussão). Os bailarinos: Ana Botafogo e Joseny Coutinho.

Antecipadamente, já estava convicta que assistiria a um espetáculo estupendo. Mas nem a imaginação alcançou o encanto de vê-los e ouvi-los no palco. Ficava sem saber a que lado prestava mais atenção. Deixava, então, os ouvidos em alerta e mirava os pés e movimentos tão leves e delicados.

Esta foi apenas a segunda vez que tive o privilégio de ver a bailarina deslizar sobre as sapatilhas. Vê-los dançarem ao som de Águas de março e Eu sei que vou te amar foi uma emoção única. Era como se um conto de fadas transcorresse à minha frente. Se tivesse e estivesse à venda um DVD, teria passado o restante da noite vendo e revendo, vendo e revendo.

E não dá pra não falar do belo Joseny Coutinho. Uma sensualidade que não se encontra nas ruas, nas passarelas, nas telas. É uma coisa das estrelas, dos sonhos, de palco. E me faltam palavras para falar dele, dela, deles todos...

sábado, 25 de abril de 2009

O leitor


O leitor é um belo filme. A sensação que o enredo provoca é semelhante a de outra película, A vida dos outros. Longas-metragens que tocam intimamente, talvez pela esperança com um gesto mínimo de humanidade que se vê perdida a olha nu no dia-a-dia. A obra de Stephen Daldry revela generosidade apesar do envolvimento em circunstâncias onde normalmente não haveria qualquer sentimento de compaixão, onde o desprezo costumaria ser coadjuvante ou ator principal.

Kate Winslet e David Kross estão admiráveis numa história que emociona, sem qualquer pieguice, numa espécie de pureza de sentimentos, conciliações e reconciliações. Isso tudo em contraposição ao Holocausto, na participação do genocídio que marcou a história mundial. E um caso de amor que marcou e problematizou a história dos protagonistas para sempre.

Difícil que isso possa ocorrer na atualidade, mas é recompensador que pelo menos tenha existido na mente do escritor e tenha sido adaptado para o cinema. Cenas de leitura de inúmeros livros a uma analfabeta, da visita aos campos de concentração, da gravação de leituras de obras depois de ter sido presa, do encontro após tantos anos, dos pés em cima de pilhas de tomos, o intuito de recompensar a perda causada por um amor do passado. Imagens simples que surpreendem o olhar sedento de surpresas. Simples, mas sensíveis.

“A sociedade acredita que é guiada pela moralidade, mas isto não é verdade.” Esta é uma das assertivas do filme, mas será? A sociedade seria guiada pelas leis, como propõe o filme? Eu, particularmente, acredito que a sociedade seja guiada a partir dos umbigos que cada um mira a todo instante, segundo suas próprias leis, morais, princípios e consciências.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Um degrauzinho acima

Há tempos algo não me encanta profundamente. Algo, digo, em termos culturais. Não gostei nenhum pouco de A história do pranto, de Alan Pauls. Talvez tivesse me encantado pela beleza do autor em fotografias de resenhas de jornal. Me perdia no texto, não via importância nas palavras, mas não me permitia largar o livro sem ler até o fim.

Então, finalmente, decido ler um autor que sempre quis ler: Gabriel García Márquez. Não gastaria dinheiro para comprar porque este era uma das coisas que uma pessoa em mudança diria que “daria fim”. “Não, não jogue fora, me dê”. Comecei a ler Memórias de minhas putas tristes e me encantei por não me perder na trama e com a “candura” da história.

Pagamento de IPVA e outros gastos com o “meu neguinho” (apelido carinhoso dado a uma das raras conquistas em 27 anos) me impedem de passar o cartão na Livraria Cultura. Então, um livro, presente na estante do corredor, que sempre me apavorou pelo tamanho e pelo título esteve em minhas mãos por longo período. Cem anos de solidão me divertiu no início e me transtornou em algumas partes.

Depois, decido ler mais um autor dos tempos atuais. Não sei porque, mas os livros que sempre figuravam em minhas leituras eram os considerados clássicos, autores consagrados no mundo e na história da literatura. Decido, então, por influência de uma doce, querida, admirada amiga e devoradora de livros, ler Milton Hatoum. Um autor que eu soube, pela primeira vez, por meio de uma tese analisada em conjunto com o “meu escritor”, Samuel Rawet.

Li matérias a respeito dele e assisti a entrevistas com o manauense, e me encantei. Figurinha adorável. Atraída por títulos, vou à Livraria e escolho Dois irmãos. Não, não me apeteceu os nomes Cinzas do norte ou Relato de um certo Oriente. Dois irmãos pulou em minha frente perante os outros da estante. Deliciosamente escrito, trama interessante. Interrompo para buscar uma certa ajuda em outro livro.

Concomitantemente, tento ir a shows. Digo “tento” porque me obrigo a ser Buendía pelo menos uma vez por semana, mais do que isso é penitência. Entrevistar o João Cavalcanti, filho do “meu” Lenine, e ver o show do Casuarina foi gostoso, mas me faltava o ânimo verdadeiro dos pés irrequietos. Falar com Chico Pinheiro ao telefone e vê-lo depois no palco do Clube do Choro foi uma sensação indescritível, pequena para outros, mas inesquecível pelo meu início.

Com Chico, tive a sensação primeira de não conhecer, ler apressadamente algo sobre, entrevistá-lo por duas vezes interrompidos pelas falhas na transmissão de voz por estar em estúdio, comparecer ao show e... “Você já falou com o Chico, Ana?”, pergunta Marco Guedes, assessor do Clube. “Ah, Marco, não, mas...”. “Chico, esta é a Ana Rita, que falou com você esta semana”. Um misto de vergonha, curiosidade, assombro, admiração, degrau acima.

Iniciação a “cara-dura”: “Oi, aqui é Ana Rita. Eu queria ver Nina Becker...” “Ok, Ana, o seu nome está na lista”. Não conhecia a cantora, a não ser pela referência à Orquestra Imperial. Em um dia atribulado por trabalho e curso, decido incorporar o sobrenome Buendía e sigo longe para assistir à cantora. Saí do Espaço sem saber que opinião ter sobre ela. Gostei da voz, mas não gostei de várias coisas. Muito barulho, brincadeiras insossas no palco, letras bobas, para não dizer pior. Mmmmmmmmmm... Não, definitivamente não gostei de Nina. Uma pena. Mas conhecer tem sido o grande combustível.

Me arrependi de não ter visto Fabiana Cozza, com quem também pude falar. Apaixonada por samba, faço download de um disco seu e simplesmente me apaixono. Não sai do aparelho de som há algumas semanas. Confesso que saber de Canto de Ossanha me fez favorável à primeira vista. E, além de tudo, com dois cubanos fazendo a releitura de uma das grandes paixões de minha vida... Cuba e Vinicius. Um sonho. Ainda prefiro a versão do poetinha-poetão, mas Cozza me surpreendeu...

Me arrependo de antemão por não poder ver Teresa Cristina. Apesar de oscilar entre admiração e “não sei do que esse homem fala”, Caetano é um dos artistas que não quero morrer sem ver. E seu show coincide de ser no mesmo dia do de Teresa. Meses antes garanto meu ingresso para assisti-lo de longe, longe... Mas morrerei tranquila por tê-lo visto. rs Mas ainda faltam tantos... Também quero presenciar o show de outro Chico, o Chico Buarque, mas, claro, sem entrevistar. Com este, eu não teria voz, pernas, neurônios, condição alguma.

Mais uma “cara-dura”. “Alô! Oi,... Será que tem como eu poder ver o espetáculo com a Ana Botafogo?” “Claro, mas não vai poder ser quinta-feira, é dia de muitos convidados. Pode ser sábado”. Então, no fim de semana, terei o imenso prazer de ver o “virtuosismo nos pés e nas teclas”. Além de ir a shows, preciso ler, ler, ler. Num dia de semana qualquer, a mesma querida amiga e devoradora de livros me entrega um presente. “Por que isso, ‘meiguinha’?” “Porque não quero só presentear em datas especiais”. Ela só não sabe o tanto que aquilo me tocou. Exigi dedicatória. Rs E, mais uma vez, ela não sabe como me tocou. Três livros ao meu lado, tantos milhares na vontade.

E tem sido assim. Descobertas maravilhosas neste 2009 que proporcionou com que eu atuasse na área que sempre desejei. Poder conversar com artistas, conhecer a cada instante, descobrir novos mundos, voltar a escrever, poder ver meu nome impresso no jornal que sempre me amedrontou. Perdi ali, ganhei aqui. E quem sabe, compareço um dia para o que fui convidada ontem ao telefone por Serjão Loroza: “Você vai lá, Rita? Pô, vai lá, tomar uma cervejinha comigo no camarim!” rs

terça-feira, 21 de abril de 2009

Flores murchas

Em um passado não muito remoto, cantei Skap, de Zeca Baleiro. Num instante subsequente, identifiquei-me com o calhamaço de Gabriel García Márquez. Deve ser aquela coisa de conhecer a escuridão a partir do que são as luzes, reconhecer o barulho porque se sabe o silêncio. O ruim em experimentar efemeridades é a insistência em se querer perpetuar o que é naturalmente fugaz.

“Você me faz parecer menos só menos sozinho/ Você me faz parecer menos pó menos pozinho”. A quem possa cantá-la frequentemente, não invejo, alegro-me. Não cobiço porque me descobri Buendía. Escapar é coisa rara, momento fugaz. Macondo é minha cidade, minha realidade. Flores de azeviche murcham em Macondo. É apenas uma questão de acostumar-me. Deixo a música para aqueles de outra linhagem, para os sonhos, para conversas lúdicas.

“Nas noites de inverno, enquanto fervia a sopa no fogão, desejava o calor dos fundos da loja, o zumbido do sol nas amendoeiras empoeiradas, o apito do trem na sonolência da sesta, da mesma forma como desejava em Macondo a sopa de inverno no fogão, os pregões do vendedor de café e as cotovias fugazes da primavera. Aturdido por duas saudades colocadas de frente uma para a outra como dois espelhos, perdeu o seu maravilhoso sentido de irrealidade até que terminou por recomendar a todos que fossem embora de Macondo, que esquecessem tudo o que ele ensinara do mundo e do coração humano, que cagassem para Horácio e que em qualquer lugar em que estivessem se lembrassem sempre de que o passado era mentira, que a memória não tinha caminhos de regresso, que toda primavera antiga era irrecuperável e que o amor mais desatinado e tenaz não passava de uma verdade efêmera”.
(Cem anos de solidão, Gabriel García Márquez)

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Corra, Rita, não corra

Hoje tento acalmar minhas pernas, que tanto têm pressa. Elas que já andaram tão esbaforidas, entre tantos compromissos de vidas alheias. Elas não mais correm. Elas me pedem calma. A sábia paciência que alcança. Sabedoria desconhecida, mas que se faz tentativa. Erros e acertos, mas tentativas. No ímpeto da impaciência, seguro-as. Impeço que saiam desbandeiradas. Não é fácil. As pernas sou eu. Eu contra minhas pernas. As pernas contra mim. Impulsos nervosos contraditórios. Elas querem correr. Eu não devo. Eu quero correr. Elas me seguram. Dizem para correr pelos sonhos... Dizem que a paciência é a grande virtude... Tento a alternativa jamais tentada. Os caminhos sempre bifurcados. Vai, não vai. Corra, ande. Diga, não diga. Esparrame-se, controle-se. Sonhe, pense. E a explosão tenta fazer com que outros céus não a enxerguem...

sábado, 28 de março de 2009

Volta!

Hoje eu sonhei que você voltava
E você voltou para outra volta
Das voltas que a vida dá
Um dia quem sabe você volta pra cá
E você volte a dar voltas em minha volta
E a gente volte a dar voltas
Nas voltas que só a vida sabe dar

quinta-feira, 26 de março de 2009

Fabiana Cozza faz show na cidade pela primeira vez

Ana Rita Gondim
Do Correiobraziliense.com.br

“O homem que diz vou não vai” é só música para Fabiana Cozza. Mas, contrária ao trecho da canção Canto de Ossanha de Vinicius de Moares e Baden Powell, a cantora paulistana diz que vem e estará pela primeira vez em Brasília nesta quinta-feira (26/03) pelo projeto Engate a Quinta do Espaço Brasil Telecom. E o afro-samba não é mera brincadeira, é parte de seu mais novo trabalho que será apresentado em Brasília.

Fabiana Cozza explica que prefere não criar expectativas em relação à sua estreia na cidade. “Eu gosto de me misturar. Cada lugar é um lugar, cada gente é uma gente. Farei o melhor espetáculo, bastante alegre, vivo e que tenha sinceridade. Cada vez eu me esforço para que seja bem brasileiro e que seja visto dessa forma”, avisa.

E essa mistura vem dela própria. Filha de mãe italiana e de pai negro, Fabiana explica que essa miscigenação transborda para a música. “Essa minha identidade misturada me possibilita ter um passaporte para o mundo”, conta. E o mundo tem, de fato, se tornado seu palco após as últimas experiências, quando gravou um disco em língua basca e participou de shows no Japão.

A paulistana é considerada uma das mais importantes intérpretes da música brasileira na atualidade. Ela, inclusive, chegou a ser considerada herdeira legítima de Elizeth Cardoso por nomes como Ivan Lins, João Bosco e Nelson Motta. “Eu fico muito lisonjeada, esta é a verdade. E é muita responsabilidade. Faz com que eu tenha muita disciplina com o meu trabalho, muita dedicação. A proposta efetivamente é levar adiante essa bandeira da música que mulheres como Elizeth e Clara Nunes levaram”, revela.

Com dois CDs lançados em 12 anos de carreira – O Samba é meu dom (2005) e Quando o céu clarear (2007) –, Fabiana Cozza foi indicada ao Prêmio TIM 2008 na categoria Melhor Cantora de Samba pelo último trabalho. Em 2005, por conta do primeiro disco, recebeu as indicações para Revelação e Melhor Cantora de Samba e participou do Prêmio Rival Petrobras na categoria Artista Revelação.

Prova das fusões que realiza, seu último registro tem participações especiais da grande dama do samba Dona Ivone Lara, do Quinteto em Branco e Preto e dos talentosos cubanos Julio Padrón (trompetista), que fez uma leitura inédita de Canto de Ossanha, e Yaniel Matos (pianista). “Padrón é um dos maiores trompetistas do mundo. Yaniel também é um músico extraordinário, com quem tenho a maior identidade. E Dona Yvone Lara veio abençoar a minha caminhada com a sua voz no meu disco”, vangloria-se.

Seu próximo trabalho é o lançamento do DVD de Quando o céu clarear, que deverá sair em meados de junho. Gravado no Auditório Ibirapuera, o registro tem participação da cantora Maria Rita e do rapper Rappin’Hood.

terça-feira, 24 de março de 2009

Em seu segundo concerto, Orquestra Sinfônica homenageia o austríaco Haydn

Ana Rita Gondim
Do Correiobraziliense.com.br

Esta terça-feira (24/03) é dia de homenagem na sala Villa-Lobos do Teatro Nacional. A segunda apresentação desta nova temporada da Orquestra Sinfônica irá celebrar os 200 anos de falecimento do grande compositor austríaco Franz Josef Haydn (1732-1809). Além de um dos maiores nomes da música erudita, ele é considerado o iniciador do classicismo vienense.

No currículo do austríaco, estão 104 sinfonias, 50 sonatas para piano e 83 quartetos de cordas. O maestro titular da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro (OSTNCS), Ira Levin, explica que serão apresentados os vários aspectos do compositor. “É muito difícil escolher uma música dele entre tantas que compôs”. Para hoje, então, foram escolhidas As Sete Últimas Palavras de Nosso Senhor na Cruz, op. 51; Sinfônica n° 102, O Relógio e o Concerto para violoncelo e orquestra n° 1, que tem como solista Antonio Del Claro.

Del Claro é um dos mais conhecidos artistas brasileiros de sua geração e presença constante nas salas de concerto do Brasil. Foi spalla de violoncelos da Orquestra do Teatro Municipal de São Paulo e da Orquestra da Universidade de São Paulo (USP). Faz parte do Trio Américas, com Eva Székely (violino, EUA) e Daniel Schene (piano, EUA), que realiza turnês pelos Estados Unidos e pelo Brasil. Obteve o primeiro prêmio no Concurso de Verão de Taormina, além de receber por três vezes o prêmio de Melhor Solista da Associação Paulista de Críticos de Arte e também o Prêmio Carlos Gomes como Melhor Solista Instrumental.

O maestro Ira Levin garante que este ano a temporada será ainda mais rica. “Apresentaremos várias obras que nunca foram feitas no Brasil. Temos muitas novidades, muitos convidados, tanto internacionais como brasileiros”, promete. O destaque de 2009 fica para a data do aniversário de Brasília, no dia 21 de abril, com apresentação de obras dos compositores brasileiros Heitor Villa-Lobos e Camargo Guarnieri. Para a regência, estão previstos também outros maestros, como Gil Jardim, Lutero Rodrigues e Emílio de Cesar.

A apresentação será hoje, às 20h, na sala Villa-Lobos do Teatro Nacional. A entrada é franca, mas os ingressos devem ser retirados na bilheteria com antecedência. Classificação indicativa: 12 anos.

Exposição
Além da homenagem prestada pela OSTNCS, Haydn também será celebrado em exposição documentária com 42 painéis trazidos pela Embaixada da Áustria. Ela estará aberta ao público na quarta-feira no foyer da sala Villa-Lobos. A entrada é franca. Classificação indicativa livre.

PROGRAMA:

Joseph Haydn (1732-1809)

“As Sete Últimas Palavras de Nosso Salvador Jesus Cristo na Cruz”
Hob. XX.1
- Introduzione – Maestoso ed adagio em ré menor
- Sonata I – Largo em si bemol maior
- Sonata VII – Largo em mi bemol maior
- Il Terremoto – Presto con tutta la forza em dó menor

Concerto para violoncelo em dó maior Hob. VIIb.1
- Moderato
- Adagio
- Allegro molto
Antonio Del Claro - VioloNcelo

Sinfonia n° 102 em si bemol maior
- Largo – Vivace
- Adagio
- Menuet (Allegro)
- Finale (Presto)
Maestro: Ira Levin
Solista: Antonio Del Claro

Publicado no Divirta-se

quarta-feira, 18 de março de 2009

Caixa Cultural abre as portas para duas mostras nesta quarta

Ana Rita Gondim
Do Correiobraziliense.com.br

Uma viagem ao teatro, desde a Grécia antiga ao Império Romano, da época medieval à Commedia dell´Arte, até Goldoni e o teatro contemporâneo. Essa é a proposta da exposição A Máscara Teatral na Arte dos Sartori: da Commedia Dell´Arte ao Mascaramento Urbano, que ocupa, a partir desta quarta-feira, a Galeria Principal da Caixa Cultural. Os amantes da arte podem pegar carona e viajar na mostra, composta por mais de 200 peças, entre quadros, objetos, máscaras de rosto e corporais exibidos no espaço.

São objetos produzidos por dois escultores italianos que são referência internacional na arte da confecção de máscara teatral: Amleto e Donato Sartori. De acordo com o ator e diretor do Teatro Commune de São Paulo Augusto Marin, Amleto e Donato são dois grandes escultores mascareiros do século XX. “Eles praticamente reinventaram a Commedia”, lembra.

Commedia dell’Arte é um gênero teatral surgido na Itália, no século XVI, que se caracteriza pela improvisação, pelo uso da máscara cômica, pelo grotesco, pelas obscenidades, pela relação direta com o público e pela crítica social. Augusto Marin explica que o gênero desapareceu por quase dois séculos. Amleto Sartori, então, inicia toda uma pesquisa, onde realiza trabalhos como escultor e resgata a máscara no século XX.

Após a Segunda Guerra Mundial, nasce a máscara neutra para traduzir a calma absoluta, o silêncio, e deixar o corpo do ator em evidência, além de promover o movimento corporal e a apuração dos gestos. Quando Amleto morre, em 1962, o filho, Donato Sartori, dá continuidade ao trabalho e vai além: cria outros tipos de máscaras neutras e da própria Commedia. Na década de 70, Donato inventa máscaras que cobrem todo o corpo. “É para expandir o conceito de máscara para além do rosto”, conta Augusto, explicando que os objetos eram utilizados em manifestações e protestos.

Nos anos 80, ele cria o conceito da máscara total, material que cobre não só a pessoa, mas um espaço público. É o chamado mascaramento urbano. “Na verdade, é uma grande teia, instalada em praça pública, onde acontecem eventos, espetáculos, manifestações. As pessoas interagem com essa teia. É uma mascara que resgata o ritual primitivo na cidade hoje tecnológica”, elucida Marin. “É um trabalho belíssimo, de sofisticação, de beleza estética incrível, de perfeição. São dois gênios que realmente revolucionaram, que trouxeram identidades perdidas, que fizeram e fazem parte do teatro mundial”, ressalta.

Além da exposição, a Commedia dell’Arte será tratada também em workshop nesta quarta-feira (18/03), às 19h, que será ministrado pelo ator e diretor Augusto Marin, do Teatro Commune de São Paulo. Na ocasião, os alunos podem conhecer um pouco mais sobre a história e a estética da Commedia dell´Arte. Criação de personagens e cenas e a exibição – em vídeo – de trechos de peças. “Vai ser uma grande festa, uma grande alegria”, alegra-se Marin.

Meio ambiente
A Caixa Cultural abre as portas nesta quarta-feira (18) para outra exposição que, para casar com uma preocupação bastante atual, tratará de sensibilizar as pessoas para um maior cuidado com o meio ambiente. Trata-se de Fauna e Flora Brasileira - Aquarelas de Álvaro Nunes, em destaque nas galerias Piccolas I e II. São 250 ilustrações científicas que revelam a exuberância e a diversidade da natureza do Brasil.

O artista confessa o lado militante da exposição: “É meio clichê, mas o objetivo é criar oportunidades de contato com as pessoas. O trabalho está estreitamente ligado em levar o conhecimento”, conta. Ele acrescenta que as crianças se afinarão bastante com a mostra devido à grande variedade de desenhos de animais, insetos e plantas.

O trabalho, segundo Nunes, é um aperitivo para o prato principal que será servido em 2010, quando haverá grande exposição com ilustrações do cerrado para comemorar os 25 anos do Jardim Botânico e os 50 anos de Brasília. “É um passo de iniciação para o próximo projeto. O nosso objetivo é, portanto, aumentar a movimentação em torno do cuidado com o que nos cerca.”

Em 2008, Álvaro Nunes teve dois trabalhos premiados pelo New York State Museum, respeitada instituição no âmbito da história natural no mundo. O artista venceu por cinco vezes o prêmio Olho de Boi, conferido pela Empresa de Correios e Telégrafos (ECT) aos artistas que mais se destacaram no design de selos no Brasil.

Publicado no Divirta-se

terça-feira, 17 de março de 2009

Palavra (en)cantada

Assim que li que ia estrear, reservei de antemão o domingo para assisti-lo. Um filme que versa sobre música, poesia e literatura, e com tão grandes paixões ilustres falando sobre o assunto... Não, não poderia ficar inerte justamente no dia em que não se tem muitas tentações ou atribulações.

E me falta tempo para discorrer impressões sobre o filme que, obviamente, recomendo. Salvou meu domingo! Salvou meu fim de semana!

segunda-feira, 16 de março de 2009

Exposição revela Olhares dos jovens com Síndrome de Down

Ana Rita Gondim
Correiobraziliense.com.br

Para comemorar o Dia Internacional da Síndrome de Down (21/03) e o cinquentenário da descoberta do cromossomo 21, a cidade receberá nesta segunda-feira (16/03) exposição de telas e fotografias de jovens portadores da síndrome. Com o nome sugestivo Olhares, a mostra refletirá, como explica a presidente da Associação de Mães em Movimento (Amem/DF), Lurdes Danesy, o ponto de vista deles próprios perante o mundo e as coisas à sua volta.

“A gente tem uma mania de querer falar por eles. Quando alguém quer saber alguma coisa sobre meu filho, eles perguntam para mim e não para ele. E ele já sabe falar direitinho, tem 13 anos, está na 5ª série. Olhares é a forma como eles veem o mundo, é olhar deles, não o nosso”, esclarece Lurdinha, como prefere ser chamada, mãe de Lúcio Piantino, que exporá suas telas esta semana.

A mostra, que é uma só, se divide em duas apenas em formato e local. Na Biblioteca Nacional de Brasília, serão expostas 16 telas de Henrique Grochocki, Lúcio Piantino, Melina Pedroso, e Tonico Araújo. Os jovens pintores, de acordo com Lurdinha, já expuseram seus trabalhos antes. “Já são famosos, digamos assim”, conta alegremente.

A outra parte da mostra é a apresentação de fotografias, no Museu Nacional, dos também portadores da síndrome de Down Henrique Gurgel, Ian Stuckert, Alexandre DJ, Jéssica Mendes, João Pedro Tauil, além de Henrique Grochocki e Lucio Piantino. Esta revelará as fotografias que os próprios jovens realizaram e as que foram tiradas deles durante o trabalho por um pai de um também portador da síndrome.

Lurdinha garante que eles estão felizes, tanto com a realização do trabalho como pelo resultado que esperam obter. “Eles estão numa felicidade enorme. As fotos são muito boas e vão deixar muito fotógrafo com inveja”, brinca a mãe. Ela acrescenta que será uma exposição bastante profissional e que a expectativa é superar os olhares, dela própria, dos jovens artistas e do público que se fará presente. A exposição vai até domingo, dia 22.

Publicado no Divirta-se

domingo, 15 de março de 2009

Face do mundo

Mundo mundo imundo mundo
se em ti eu me inundo
além de rima, eu me confundo
Mundo mundo imundo mundo
mais imundo é o teu coração

Eu não devia escrever
mas essa lua
mas esse sol
brotam-me frágil como uma flor

sábado, 14 de março de 2009

Medo

Medos surgem onde nunca estiveram. É um medo de não ter a mão dada. É um medo de invejar a felicidade alheia. É um medo de borrar a maquiagem. É um medo de acreditar. É um medo de duvidar. É um medo de não ter alguém para se fazer planos. É um medo de faltar alguém para fazer uma viagem. É um medo de não saber o que fazer com as férias. É um medo de não ter com quem se preocupar. É um medo de não ter para quem ligar para contar como foi o dia. É um medo de não ter alguém de quem esperar uma mensagem. É um medo de não receber flores. É um medo da minha cama solteira. É um medo de não ter outros pés para enroscar. É um medo de não ter para quem fazer uma surpresa. É um medo de me bastar a mim mesma. É um medo de me arrumar somente a mim. É um medo do coração endurecido. É um medo de não dividir. É um medo de perder-se com o tempo do fim de semana. É um medo de não saber um beijo. É um medo de se lembrar quando não existe. É um medo das horas. É um medo de não saber-se ser acompanhada de um adjetivo possessivo. É um medo de sobrar. É um medo da falta. É um medo de ser sozinha.

"Meu coração não se cansa
De ter esperança
De um dia ser tudo que quer

Meu coração de criança
Não é só a lembrança
De um vulto feliz de mulher

Que passou por meus sonhos
Sem dizer adeus
E fez dos olhos meus
Um chorar mais sem fim

Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo
Em mim"

quinta-feira, 12 de março de 2009

Pequeno gigante pernambucano

Ah! O que falar do show de Antônio Nóbrega, o que falar de Antônio Nóbrega… Falta a palavra específica para definir o encantamento diante de um verdadeiro show, de um artista multifacetado, de um palco utilizado em todos os seus centímetros. A grandeza que os pernambucanos colocam em tudo que é do seu estado torna-se a mais completa verdade ao assistir ao músico, compositor, cantor, dançarino, entre vários outros adjetivos que cabem neste homem de aparência miúda.

O quinteto já tendo iniciado a primeira música, entra ele, de chapéu, camisa e calça largas, com o seu violino já preparado para arrebatar o público. Aplausos eufóricos. E ele sorri, começa seu próprio show, brinca com o instrumento e com as suas pernas, que mais parecem feitas de mola e não denunciam jamais a sua idade. Todo o espetáculo é um paradoxo de seriedade e jocosidade; seriedade pela excelência de tudo o que se apresenta; jocosidade pelos tantos sorrisos, comentários, pernas malemolentes, participações com o público.

Sua grandeza também está na variedade de instrumentos e gêneros que domina e culmina em aplausos antes mesmo de uma composição acabar. Violino, violão, bandolim. Instrumentais, frevos, choros, sambas. A maestria em tudo que se vê dá uma vontade de não querer nem piscar os olhos para não perder um segundo, sem falar dos ouvidos, que permanecem o tempo inteiro atentos para tanta virtuosidade. Flashes relampejam constantemente diante da vontade de registrar para sempre aquele momento único, que, no entanto, foi delicadamente pedido pelo artista para que se interrompesse.

Minha ignorância pede urgência para ser demolida. Como é possível eu já não ter visto este pequeno gigante é a grande pergunta que me fiz após o espetáculo. Além de brasileiro e, ainda mais, pernambucano (minhas grandes paixões musicais), é inovador, é aglutinador, é encantador. Quase duas horas de tantas maravilhas retiram todo o cansaço, todo o sono, e nos alegra com beleza e excelência.

Para terminar, me utilizo de suas próprias palavras: "licença, que eu vou rodar no carrossel do destino".

domingo, 8 de março de 2009

Às mulheres

Às lindas e grandes mulheres que fazem parte da minha vida – minha mãe cheia de graça, minha irmã de coração doce, as queridas que trabalham comigo e as com quem já trabalhei, as que são minhas vizinhas, as que estão longe, as que se tornaram amigas por meio de outras pessoas, as que me deram colo, as que me deram broncas, as que me disseram verdades – e a todas as outras do mundo inteiro,

Feliz Dia Internacional da Mulher!

Sem clichês de sexo frágil porque somos, sim, o sexo forte. Damos sempre a volta por cima, batalhamos, enfrentamos rejeições, sentimos desatenções, choramos uma saudade, gritamos a nossa alegria, sonhamos também de olhos abertos. Ser mulher é ser bela com sorriso no roso e com lágrimas nos olhos, é ser companheira quando nem sequer se está junto, é ver um abraço surgir e as mãos se abrirem a quem se aproxima.

E que não sejamos lembradas, homenageadas e elogiadas somente neste dia.

Beijos, abraços, colo, cafuné, em e para todas as mulheres que fazem deste lugar um mundo menos imundo.

sábado, 7 de março de 2009

Roberto Corrêa e Siba Veloso lançam CD em em show na Granja do Torto

Ana Rita Gondim

A fusão da cultura do planalto central com a do nordeste é a peculiaridade da terceira noite do 9º Encontro de Folia de Reis do Distrito Federal. O violeiro mineiro Roberto Corrêa, residente em Brasília há mais de 30 anos, e o pernambucano Siba Veloso - um dos criadores do extinto grupo Mestre Ambrósio - estarão juntos neste sábado (07/03), às 22h30, no palco da Granja do Torto para lançar o disco Violas de Bronze. A entrada é franca e a classificação indicativa, livre.

“Nós criamos as nossas músicas tendo como base nossas referências culturais. Então, o disco tem uma sonoridade peculiar, é um encontro singular das regiões. As pessoas vão apreciar o trabalho, tanto o público do Nordeste como o público daqui vão gostar do resultado”, promete Roberto Corrêa.

Para caracterizar suas respectivas regiões, Corrêa toca viola caipira e viola de cocho (instrumento típico de Mato Grosso). Siba entra com a viola nordestina e com a rabeca. “Ao mesmo tempo que representa a junção das duas regiões, é também um trabalho autoral de dois artistas individuais, com histórias bem diferentes. Para mim, foi uma experiência enriquecedora. O Corrêa me obriga a correr muito para acompanhá-lo, ele é um virtuose, dedicou-se a vida inteira a tocar muito bem um instrumento. Eu já sou mais ligado ao texto, à poesia rimada. A gente somou bastante um ao outro”, conta o músico pernambucano.

A apresentação de Roberto Corrêa e Siba integra o terceiro dia do encontro, que começou na última quinta-feira e vai até amanhã. O evento mantém viva a tradição das folias de reis, herdada da colonização portuguesa, e permite ao público assistir a um repertório variado da cultura popular, tanto em termos musicais como de crenças, valores e conhecimentos tradicionais (confira a programação).

Para o violeiro Roberto Corrêa, o encontro é uma oportunidade única tanto para os convidados quanto para o público. “É como assistir a um show num galpão, num bar, é bem informal. Na verdade, é um grande pouso de folia”, compara. Siba se diz animado com a apresentação de hoje à noite. “Brasília tem tradicionalmente um público bem aberto. Minha expectativa aqui é sempre a melhor possível”, revela. Após o show da dupla, André e Andrade sobem ao palco.

Amanhã, os brasilienses assistirão à grande dama da cena caipira brasileira, Inezita Barroso, que será acompanhada do Grupo Feminino de Folia de Reis de Vazante (MG). A abertura do show ficará por conta das duplas Kleuton & Karen, Rosa Branca & Canarinho e Caipira & Caipora.

Publicado no Divirta-se

quinta-feira, 5 de março de 2009

Eu quero um deste!

"…A mulher que ninguém quer, eu quero. Contraditória, incoerente, descabida. Que me envergonhe para respeitá-la. Que me reconheça para nos fortalecer.

A mulher que não sabe amar recuando e não tolera que eu ame atrasado. Que parcele em dez vezes seu dia, que não pague a conversa à vista na hora do jantar, que não junte suas notícias para contar de noite como um relatório. Admiro os bocados, as porções, as ninharias. Alegria pequena e preciosa de respirar rente ao seu nariz e definir com que roupa vou ao serviço.

O amor é uma comissão de inquérito, é abrir as contas, é grampear o telefone, é cheirar as camisas. É também o perdão, não conseguir dormir sem fazer as pazes.

O amor é cobrança, dor-de-cotovelo, não aceitar uma vida pela metade, não confundi-la com segurança. Exigir mais vontade quando ela se ofereceu inteira. Enlouquecê-la para pentear seus cabelos antes do vento. Enervá-la para que diga que não a entende. E entender menos e precisar mais.

Quem aspira ao conforto que se conserve solteiro. Eu me entrego para dependência. Não há nada mais agradável do que misturar os defeitos com as virtudes e perder as contas na partilha.

Não há nada mais valioso do que trabalhar integralmente para uma história. Não raciocinar outra coisa senão cortejá-la: avisá-la para espiar a lua cheia, recordar do varal quando começa a chover, decorar uma música para surpreendê-la, sublinhar uma frase para guardá-la.

Sou doido, mas doido varrido. Bem limpo. Aprendi a usar furadeira e agora entro fácil em parafuso. Quero uma mulher imatura, que possa adoecer e se recuperar do meu lado. Uma mulher que me provoque quando não estou a fim. Que dance em minhas costas para me reconciliar com o passado. Que me acalme quando estou no fim do filtro. Que me emagreça de ofensas.

Não me interessa um tempo comigo quando posso dividir a eternidade com alguém.

Quero uma mulher que esqueça o nome de seu pai e de sua mãe para nascer em meus olhos. Em todo momento. A toda hora. Incansavelmente. E que eu esteja apaixonado para nunca desmerecê-la, que esteja apaixonado para não diminuí-la aos amigos."

Texto de Fabrício Carpinejar

quarta-feira, 4 de março de 2009

Quarteto Radamés Gnattali apresenta o concerto Bem Brasileiro no Teatro da Caixa

Ana Rita Gondim
Do Correiobraziliense.com.br

Brasília será duplamente presenteada com espetáculos esta semana, no ano marcado pelos 50 anos de morte do maior compositor brasileiro de música erudita, Heitor Vill-Lobos, e pelo Dia Nacional da Música Clássica, comemorado em 5 de março. Para a homenagem, o celebrado Quarteto Radamés Gnattali faz duas apresentações pelo concerto Bem Brasileiro no Teatro da Caixa, nesta quarta e nesta quinta-feira (04 e 05/03), às 20h.

O quarteto de cordas – grupo musical formado tradicionalmente por dois violinos, uma viola e um violoncelo – é integrado por Carla Rincón (primeiro violino), Vinícius Ferreira (segundo violino), Fernando Thebaldi (viola) e Paulo Santoro (violoncelo). Para o violista Fernando Thebaldi, o quarteto de cordas é o filet mignon da música clássica. “Desde o classicismo, o quarteto de cordas é sempre um desafio, é o crème de la crème da composição. E Villa-Lobos é um dos compositores mundiais com maior número de obras para quarteto”.

O grupo vai apresentar ao público uma pequena parte da obra de Heitor Villa-Lobos, os Quartetos números 5 e 6. O violoncelista Paulo Santoro explica que o número 5 é o mais leve de Villa-Lobos (intitulado por ele próprio de popular), em que há elementos folclóricos brasileiros e que, por isso, há uma resposta muito rápida da plateia. Já o número 6 acompanha o músico há tempos, desde que começou a se embrenhar nas trilhas de Villa-Lobos.

Além de tocar peças do mestre carioca, os instrumentistas não podiam deixar de executar obras de outro grande compositor nacional, o Radamés Gnattali. “Nós temos, entre aspas, uma obrigação de tocar Radamés”, brinca o violoncelista, referindo-se ao fato de o nome do conjunto ser uma referência ao artista. Serão duas peças com cerca de três minutos cada. “Essas composições são referência na obra de Radamés, por isso quem não o conhece tem uma amostra de todo o seu trabalho”.

Diante da tamanha importância de Villa-Lobos para a música brasileira e da sua representatividade no exterior, Santoro lamenta que as comemorações feitas em Brasília e no restante do país são muito poucas. “Eu acho que ele deveria ter muito mais homenagens do que tem. Foi a partir de Villa-Lobos que a nossa música ficou conhecida lá for a. Hoje as orquestras já o incluem em seu repertório, mas deveriam tocá-lo ainda mais”.

Em novembro, o Quarteto Radamés Gnattali enfrenta o desafio de tocar ao vivo no Rio de Janeiro todas as 17 composições de Villa-Lobos para quarteto de cordas.

Dia Nacional da Música Clássica

A data foi instituída no município do Rio de Janeiro em 2006. No ano seguinte, o governo do estado oficializou a comemoração. Em 13 de janeiro deste ano, o dia 5 de março foi definido como o Dia Nacional da Música Clássica, assinado em decreto pelo presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva. A data foi escolhida em homenagem ao dia de nascimento de Heitor Villa-Lobos.

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terça-feira, 3 de março de 2009

Escolha mal feita

Encontrei um bichinho encolhido agarrado a uma raiz de planta em um lugar escondido, frio, deserto. Desorientada, não soube discernir o local. Olhava-o de longe, observando-o se realizava algum movimento. Tremia-se, estava mal, mas não tanto quanto poderia parecer. Percebi que sentia frio, que estava fraco, mas tinha força suficiente para segurar a raiz de uma hera que não sei porque razão a mantinha tão junto. Chego mais perto e vejo que não era só a raiz, mas também alguns pedadinhos que pareciam haver sido cortados e ele, de alguma forma, queria uni-los novamente.

Não sabia como me aproximar ou até se devia, mas algo não me deixava sair de perto daquele bichinho. Dou alguns passos e vejo que as suas garras estão escondidas para não machucar o que ele tanto protege. Em mais um passo, piso em folhas secas e reparo que há tantas mais espalhadas pelo chão. Não era tempo para isso, era tempo de as folhas ainda estarem presas aos galhos das árvores e tudo pintado de um verde vivo iluminado de tanto sol. Olho mais ao longe e tenho a impressão de que as estações se desentenderam e o outono chegou antes do tempo.

Começo a não entender mais nada e suponho que o que aconteceu ao bichinho aconteceu a tudo ao seu redor. Ando quilômetros para buscar alguma luz, algum verde ou algo que explicasse a mudança do tempo ou a atitude daquele bichinho. Quando começava a me sentir cansada de tanto procurar, enxergo um muro em ruínas, uma espada manchada e restos destruídos do que parecia ser de uma planta, semelhante àquela que o bichinho trazia recôndita em suas mãos. Pensei que pudesse salvar mais alguma coisa da hera e levar-lhe com a intenção de fazê-lo sentir-se melhor, mas tudo que podia ser salvo estava com ele.

Quem o fizera, porque o fizera, não pude descobrir. Vi apenas vestígios que seriam supostamente de alguém que veio de longe e, depois de desferido o golpe, retornou ao seu local. Olhava e não conseguia entender nada daquilo. Mas lembrar aquele bichinho me doía e eu queria encontrar algo que amenizasse o que quer que o estivesse acontecendo. O que restou da plantinha estava com ele. Então, reconstruir o muro me veio como a única idéia capaz de trazer-lhe forças novamente para se levantar e trazer o verde e o brilho a sua volta.

Retorno e ele ainda se encontra do mesmo jeito, na mesma posição, agarrado da mesma forma, com a mesma força àquilo que lhe fazia algum bem. Ao mostrar-lhe uma pedra que trouxe para começarmos a obra, ele suspira e me fala baixinho e lentamente que ainda não era hora e que ele precisava se restabelecer, poupar energia para o longo trabalho pela frente. E, em todo esse tempo, a plantinha não secava, não morria, em suas mãos. Seu calor, sua vida, mantinham-na viva.

Deito então ao seu lado. Faço-lhe carinho, aqueço-o com o meu corpo junto ao seu. A plantinha não morria, mas tampouco crescia. Percebo então que ela precisa do muro para crescer rente, ao alto, longe. E, para construir o muro, haveria necessidade de forças. Ao pensar isso, fiquei tranquila, pois só o tempo para reerguer o bichinho e ele reconstruir seu muro, fincar as raízes de sua hera no solo e deixá-la seguir seu caminho. Deitados ali, a aflição substituiu a tranquilidade inicial. Percebo que o braço que acaricia o bichinho acaricia a mim mesma, o corpo que o aquecia busca calor de outro lugar para aquecer a mim mesma.

Sem nem saber, tornei-me mãe e companheira de mim mesma porque descobri que sou minha única casa. Levanto-me, abro os olhos, um tanto inchados, me preparo para organizar a bagunça que fiz em meu próprio ninho e separo as sementes que se tornarão rosas, girassóis e begônias a embelezar meu caminho. E, assim, construirei meu muro e minha plantinha renascerá...

"A esperança é um urubu pintado de verde".
Mario Quintana

"Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos…"
Vinicius de Moraes

segunda-feira, 2 de março de 2009

Cineclube bancários abre a temporada de 2009

Ana Rita Gondim
Do Correiobraziliense.com.br

Assistir a filmes brasileiros e poder debater em seguida com entendidos do assunto parece um sonho para quem aprecia a sétima arte. Ainda mais quando a exibição é de graça. Mas, contrariando a lógica, o Cineclube Bancários abre temporada nesta segunda-feira (02/03), às 20h, pelo terceiro ano consecutivo, com exibições gratuitas e bate-papos inteligentes.

As sessões do mês de março foram escolhidas para homenagear as mulheres devido à comemoração do Dia Internacional da Mulher (08/03). Para o primeiro dia de exibição, foi eleito o clássico Todas as mulheres do mundo, longa-metragem de Domingos Oliveira, com Leila Diniz e Paulo José no elenco.

O filme, de 1967, é baseado no relacionamento do cineasta com Leila Diniz. Trata-se do jornalista bon vivant Paulo (Paulo José), que pretende interromper as suas constantes paqueras nas praias cariocas para viver uma história com apenas uma mulher após encontrar o seu verdadeiro amor, Maria Alice (Leila Diniz).

Compromisso com o público
O projeto contabiliza desde a sua criação, em agosto de 2007, mais de 50 sessões com cerca de 90 filmes exibidos (curtas e longas-metragens) e com aproximadamente 7.500 espectadores no total. A produtora cultural Ana Arruda alegra-se com o respaldo do público. “O que propomos é uma solução ativa, que está funcionando. No projeto, as pessoas não ficam passivas, têm um contato direto e constante, pois o projeto é semanal, não é efêmero. A gente tem um compromisso com o público e com o cinema”.

A proposta de difundir o cinema nacional gratuitamente surgiu do próprio Sindicato dos Bancários e, segundo Ana Arruda, era uma ideia planejada há mais de uma década. Em 2009, o projeto completa três anos e promete ficar. “É muito bacana, temos um público fiel, a maioria das pessoas permanece na sala. São cinéfilos de plantão. Mas os espectadores também variam conforme o filme”, conta Ana Arruda.

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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Estréia cultural

Hoje registro a minha estréia (meu espaço fica fora da nova ortografia até eu decidir o contrário) jornalística na área em que sempre sonhei atuar. E, modéstia à parte, inaugurei-me com três gênios da música brasileira.

A quem quiser criticar, fique à vontade. :-)

Confira no Divirta-se

Hamilton de Holanda, Marcos Suzano e Jaques Morelenbaum gravam CD em show em Brasília


Ana Rita Gondim
Do Correiobraziliense.com.br



Um palco com grandes músicos interpretando obras-primas brasileiras e um CD que marque a união de um trio inédito é algo que um apreciador da boa música não pode perder. Os cariocas Marcos Suzano (pandeiro e percussão) e Jaques Morelenbaum (cello) e o carioca de nascença e brasiliense de criação Hamilton de Holanda (bandolim 10 cordas) gravarão CD ao vivo no Espaço Brasil Telecom em duas apresentações, nesta sexta-feira e neste sábado (27 e 28/02).

Os músicos privilegiarão os brasilienses em estreia mundial do trio com nada menos que um repertório que inclui Dorival Caymmi, Tom Jobim, Baden Powell e Egberto Gismonti, além de outros compositores brasileiros. “O disco manterá aquela respiração diferente, aquela nota que só sai em um show, diferentemente de um trabalho feito em estúdio”, garante aos fãs o bandolinista Hamilton de Holanda.

O artista explica que o trio oferecerá o máximo no espetáculo e espera que o público também vá com esse desejo. "Tocarei para encontrar a beleza, para encontrar as músicas certas, no roteiro certo, e para sentir o retorno do público sobre isso, quer dizer, a expectativa que eu tenho é de ter um namoro muito amoroso com a plateia".

A união dos virtuoses surgiu de uma participação especial de Marcos Suzano em um recente show do grupo do bandolinista – Hamilton de Holanda Quinteto – em Curitiba. No final de novembro de 2008, a parceria ganhou força no Festival de Jazz de Barcelona e seguiu para Itália e França com uma ideia a mais: gravar um disco juntos. No início de 2009, Jaques Morelenbaum surgiu para incrementar a turma. "O trio é de uma nacionalidade única, nunca vi esse tipo de formação, dá um ineditismo, e isso é bom pra gente, é bom para o público", vangloria-se o artista de gestos inquietos e apaixonados.

"Confesso que eu estou gostando e acho que as pessoas vão gostar também. O trabalho está sendo feito com critério de arrepiar, muita gente vai ficar emocionada. Eu sou muito crítico com as coisas que faço, é um repertório agradável e de releituras", conta o "Jimmy Hendrix do bandolim", alcunhado dessa forma pela imprensa americana.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Mares nos olhos

Perco o norte dos olhos distantes
Perco o brilho dos meus em instantes

Sem maracatus e sem Naná
Inundo por tanto sonhar

Tempestade após tempestade
Não é bonança, é calamidade

Mais um triste e longe carnaval
a ver de perto a alegria no jornal
vida com mais um ponto final

Solidão que se calcifica
O carnaval é triste para quem fica

E eu aguardo a alvorada
De um novo dia ensimesmada

Volto para Gabriel García Marquez – "Cem anos de solidão" faz-me sentir menos cem/sem

"A vida não faz mesmo sentido - a gente nasce pra morrer, a gente se encontra pra se perder, a gente se une pra separar, ama pra odiar."
Jason Manuel Carreiro

"Ou talvez a vida faça mais sentido já que a gente morre pra renascer, perde-se para se encontrar, separa pra sentir saudades, odeia por amar."
Poetriz

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Oração aos pés

Acordei com a sensação de que ali não me pertencia, de que ali eu não cabia. O corpo já não era mais confortável no espaço onde se despertava sorrindo. Não sabia a fórmula do riso. Os lábios amanheceram colados. O medo de pisar o chão fez-me tentar caber por mais um tempo. Não, não cabia. Para fugir da lucidez ou da quimera de antes, piso o chão. O medo fez-lhes trêmulos, indecisos, hesitantes. Talvez mais um passo em falso, em direção errada, com o sonho fabricado sob medidas e cálculos errados. Olhei meus pés e eles eram tortos. Entendi que deveria lutar contra eles, contra a direção a que me conduziam. Olho novamente e eles não são tortos, parecem ter vida própria e quererem me levar a lugares desconhecidos, a lugares que outros não iriam, a tantos lugares quantos sejam necessários para experimentar o máximo que cabe em uma vida. Mas descobri-me cansada de tantos vales, montanhas, cavernas, planaltos, desertos. Não queria mais visitar e despedir-me. Pedi, então, na manhã sem riso, que meus pés me levem a um lugar em que eu possa ficar, descansar, caber com meu riso, levantar-me sem medo, sem olhar o chão.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Espinhos frágeis

Disseram que sou negativa
É minha carapaça de caranguejo
No fundo, coração mole
Recheado de esperança
Frustrações tenho muitas
Decepções incontáveis
Não me prometa o sempre
Me garanta o presente
Este se tornará eterno
E por ti terei amor intenso

Disseram que sou intensa
Não soube refutar
A emoção é minha vida
Não economize atitudes
Não poupe elogios
Não meça palavras
Sou de aparência forte
E de interior frágil
Não se esqueça de me regar
Sou sentimento à flor da pele

“Um barco sem porto
sem rumo sem vela
cavalo sem sela
um bicho solto
um cão sem dono
um menino um bandido
às vezes me preservo
noutras suicido”
(Vapor barato – Jards Macalé e Wally Salomão)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Memórias de velhos tristes

A leitura de Memória de minhas putas tristes é deliciosa. Havia imaginado García Márquez complexo, mas os olhos passam por suas palavras sem precisar de retorno. Não me envergonho de minha ignorância porque contra ela há o prazer ímpar de viver várias vidas, conhecer palavras, descobrir mundos inesgotáveis.

Vi no "sábio triste" de García Márquez o Homem comum de Roth. E, por um momento, alegrei-me por não conhecê-los anos à frente. Em alguns instantes, inquietei-me com sua frustração, estagnação; ausência de vida, de amor; preferência pela ilusão à realidade. Sem desistir, ele apazigua, e, no fim, ele acalenta com sua busca.

Numa coincidência das duas leituras, enxerga-se a contemporaneidade: "O sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança". E ao encontrar uma ex-companheira de cama, o "sábio triste" ouve de Casilda Armenta: "não vá morrer sem experimentar a maravilha de trepar com amor".

Tantos anos, ou melhor, tantas décadas, como conta a idade o personagem, servem também para acalmar sonhadores e os que têm "joie de vivre" como norte. Mas mesmo com muitas alegrias a vir por um século, assim como ele, "não trocaria por nada neste mundo as delícias do meu desassossego".

E que venham Cem anos de solidão.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Domingo nostálgico

Num domingo depois do trabalho e o almoço ainda em vias de preparo, sento em frente ao computador para dedicar atenção a algo que devia há alguns dias. Era a música que um amigo querido (e distante) havia enviado por e-mail. Podia tê-la ouvido assim que a tivesse recebido, mas tenho uma mania de reservar às coisas boas da vida uma atenção especial. Não queria ouvi-la com pressa ou imbuída de apatia.

Para tornar o restante do dia mais agradável, abro o e-mail, faço o download da música, aumento o som e deito os ouvidos no teclado. O violão e a voz que junto a outras cordas e outras vozes fizeram parte de inúmeras reuniões em casa em tempos atrás, tempos esses mais fáceis, sem tantas preocupações e tão inesquecíveis. Tempos em que nos víamos diariamente.

Antes, rock’n’roll. Hoje, bossa-nova. Antes, todos os dias. Hoje, raros encontros. Antes, passado. Hoje, presente e futuro. Amigos de afeto indubitável e amor ad infinitum.

Hoje

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Um brasileiro em Berlim

No que se prenuncia início da minha morte semanal, recebo de volta meu Roth e tenho como empréstimo um livro de crônicas de João Ubaldo Ribeiro. Eu e uma das bibliotecas com quem trabalho conversamos geralmente sobre hábitos literários, entre outros assuntos, e uma vez confessei que nunca havia lido esse baiano de voz grave que mal se entende o que fala numa entrevista televisiva.

A fim de descobrir outros mundos, imponho-me um livro de cada autor, pelo menos intercalado. E minha curiosidade sobre Ubaldo aumentou ao ler uma matéria em que falava de seu novo livro e ao concordar com ele sobre os “problemas” da reforma ortográfica.

Então, aceitei o empréstimo, um tanto a contragosto porque gosto de ter os livros que leio, para sublinhar os trechos que me apetecem ou mesmo voltar um dia para reler algo (e eu volto mesmo). E para não embarcar no tédio invariável da segunda-feira, de uma semana que saberei longa devido ao plantão, preparo-me com travesseiros para o deleite inaugural.

Ubaldo é a simplicidade das palavras, é a comicidade em atos banais, é atinar para o “amanhã” brasileiro, é leve e divertido, é uma deliciosa indicação para sobreviver aos dias em que tudo parece meio cinza. Um brasileiro em Berlim faz-nos lembrar como é bom ser brasileiro, como é bom sermos alegres e solidários, como sabemos rir de nós mesmos, como é bom ser Brasil mesmo no primeiro mundo.

Obrigada pela salvação, Ubaldo!

“No Brasil, muitas vezes me queixo de que as pessoas falam alto demais, se olham, pegam, esfregam, abraçam e beijam demais. Já aqui, sinto uma espécie de privação sensorial. Penso em Montaigne, que, se não me engano, escreveu que o casamento é como uma gaiola: o passarinho que está dentro quer sair, o que está fora quer entrar. Acho que isso pode estender-se a tudo na vida, porque hoje, particularmente, eu gostaria, de ter voltado para casa com a sensação de que alguém na rua me viu, e fiquei com saudades de casa”.
(Pequenos choques – quatro anotações de um visitante distraído)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Avessos e direitos

Sinto que vivo dois dias da semana. Nos outros, estou morta ou hiberno de olhos abertos. Perdi o hábito de acordar e logo depois espiar para ver se o céu está azul. Se ele está nublado, não faz mais diferença de segunda a sexta-feira. O máximo que continuo a fazer após verticalizar o corpo é acariciar e alimentar minhas duas alegrias diárias.

Com os pés fora de casa, sigo os dias no embalo, na inércia, no piloto automático. É como se eu estivesse castrada, estéril, e só voltasse a me sentir viva, jovem, nos dias que demoram uma eternidade para chegar e terminam num piscar de olhos. Intervalos entre paradoxos, avessos e direitos.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Caraminholas

Depois de quatro dias na presença da companhia que me disse uma vez "eu escolhi você pra mim", adoeço. A volta à realidade desta vez se transformou em fraqueza no corpo, sensação incômoda ao mexer nos fios do cabelo, dor na garganta. Havia estado bem e disposta por todos os dias até acordar na minha cama, sem ele ao lado para pular em cima para desejar bom dia, além de um dia inteiro de trabalho pela frente.

Raramente isso me ocorre, quer dizer, raramente fico doente e, se fico, no dia seguinte volto ao meu estado normal. Desta vez, pelo segundo dia, sinto os pêlos arrepiados o tempo inteiro, pernas que se negam a andar e uma cabeça que pesa uma tonelada. Fico a pensar se permanecerei assim até tornar a encontrá-lo… Então abro um sorriso como se ouvisse ele a me dizer: "pára de ficar ‘caraminholando’ sua cabeça".

Mas o sol arregalado em despedida parece levar embora também o meu mal-estar. Talvez tenha sido proposital, uns instantes concedidos para trazer calmaria, descanso, sono; coisas que normalmente não tenho. Mas as caraminholas me disseram que a saudade dói...

“Saudade, meu filho, é dormir com dois travesseiros para o corpo não doer pelo excesso da cama.” (Fabrício Carpinejar)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

O visconde partido ao meio

Como me tudo, ou quase tudo, é tardio, descubro que o fantástico também é literatura. Penso que era, e ainda sou, à imagem e semelhança do narrador de O visconde partido ao meio de Italo Calvino: “Às vezes a gente se imagina incompleto e é apenas jovem”.

Então, na minha incompletude ainda maior, pressupunha que um bom livro devia ser pesado, reflexivo, dramático, sofrido. Não à toa meus escritores preferidos eram; ainda são, mas somados a outros; Dostoievski, Clarice e Rawet.

Numa busca sem alvo, disparei os olhos para a leitura e desvirginei-me para autores que, se até ontem tocasse em suas páginas, poderia não passar do primeiro capítulo. Mas, calma e divertidamente, esses homens ilustres me conquistaram.

O último desses cavalheiros e que me levou a um segundo encontro foi Italo Calvino. As metades do nobre bombardeado por um canhão entretiveram-me, sem serem fúteis; puseram-me a refletir, sem me causarem insônia; encantaram-me, sem me aprisionarem.

Há quem possa ser metade, há quem possa encontrar metades. Mas, principalmente, há quem possa ser uma metade temporária. Como diz Pamela, “cada encontro de duas criaturas no mundo é uma dilaceração”. E, no fim, a união dos pedaços pode nos tornar menos incompletos, menos divididos, menos incompreensíveis; assim como a costura de Mesquinho e Bom tornou Medardo di Terralba “nem mau nem bom, uma mistura de maldade e bondade”.

A quem se conte superficialmente o enredo, vê-se uma testa franzida, o olho deslocar-se ao canto, um leve movimento do rosto. Atire o primeiro Calvino quem nunca teve fantasias e quisesse transformá-las em realidade. Ou, pelo menos, em páginas...

“Ó, Pamela, isso é o bom de ser partido ao meio: entender de cada pessoa e coisa no mundo a tristeza que cada um e cada uma sente pela própria incompletude. Eu era inteiro e não entendia, e me movia surdo e incomunicável entre as dores e feridas disseminadas por todos os lados, lá onde, inteiro, alguém ousa acreditar menos. Não só eu, Pamela, sou um ser dividido e desarraigado, mas você também, e todos. Mas, agora, tenho uma fraternidade que antes, inteiro, não conhecia: aquela com todas as mutilações e as faltas do mundo. Se vier comigo, Pamela, vai aprender a sofrer os males de cada um e a tratar dos seus tratando dos deles.”