sábado, 29 de dezembro de 2012
É difícil...
É difícil ir embora depois de ter amado tanto. É difícil deixar ir quando ainda se ama tanto. É difícil mudar de ideia a cada instante. É difícil acreditar que não está mais por perto. É difícil vestir uma roupa que fez parte de um bom momento com você. É difícil lembrar cada momento ao seu lado. É difícil ser incoerente. É difícil recordar o primeiro olhar, o primeiro beijo. É difícil pensar o último olhar, o último beijo. É difícil andar por cada lugar que andamos juntos. É difícil não ter mais o meu melhor amigo. É difícil não ouvir mais o elogio que recebia a cada vez que saíamos. É difícil não ter mais a sua mão dada à minha. É difícil não receber as mensagens de boa noite. É difícil não ter mais seu corpo colado ao meu ao dormir. É difícil ouvir rock’n’roll. É difícil não encontrar mais os seus olhos. É difícil pensar em você a cada segundo. É difícil adivinhar o que está fazendo. É difícil saber que a minha boca não beijará mais a sua. É difícil ver uma nova foto sua. É difícil nos ver juntos nas fotos. É difícil não ter mais o melhor abraço. É difícil lembrar o seu cheiro. É difícil saber como lava o cabelo. É difícil não poder fazer mais cócegas. É difícil não sentir mais seus pés enquanto durmo. É difícil não dizer mais os nomes pelos quais te chamava. É difícil querer viajar e não ter mais você. É difícil não te ter mais no carro sem acreditar que sou tão desorientada. É difícil não ter você para me convencer a tomar uma Heineken. É difícil saber que não posso mais dizer que está na hora de cortar as unhas. É difícil não poder mais te apressar. É difícil não ver mais o seu andar. É difícil não ser mais sua personal stylist. É difícil lembrar como aprendeu a gostar de carpaccio e pesto. É difícil não beijar mais o canto do seu olho. É difícil não ter mais os nossos planos. É difícil não rir mais ao seu lado. É difícil usar os presentes que me deu. É difícil não ter mais de quem roubar o edredon. É difícil não ter mais o colo para ver um filme. É difícil não ter a quem pedir carinho. É difícil não ouvir você reclamar do tanto que gosto de um carinho. É difícil não comer mais spoleto depois de várias cervejas. É difícil não saber mais como está o seu trabalho. É difícil não ter lhe dado um presente no Natal. É difícil não estar com você na virada do ano. É difícil estar sozinha. É difícil te amar e estar longe. É difícil você ser meu grande amor. É difícil saber que me devolve este amor. É difícil... Demasiadamente difícil...
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
É uma merda fazer 30 anos
Desculpem-me os balzaquianos bonitos, em forma, bem-sucedidos e felizes, mas fazer 30 anos é uma merda. Eu já o sabia num inferno astral de um ano ao completar os 29. Não alcançaria, em um ano, o que sonhava para mim: um cantinho meu, um carrinho confortável, um bom emprego e uma boa viagem por ano. Mas, poucos meses antes do dia da virada da maldita dezena, as coisas tinham melhorado. No entanto, isso seria por pouco tempo. E, no íntimo, eu parecia saber disso porque chamei mal e pa(o)rcamente os amigos (mandei um e-mail ao fim do dia da véspera) para uma “comemoração”.
Não havia o que celebrar, apenas algumas mudanças recentes. Mas, ok, dei o braço a torcer e ouvi pessoas próximas e queridas que não me deixavam passar a data em branco. Escolhi um boteco que costumo, quer dizer, costumava frequentar (vocês vão entender o porquê do passado) e até me surpreendi com a presença de bons amigos. A surpresa foi porque o e-mail de aniversário enviado em cima da hora foi proposital, não queria muita gente festejando o que não havia para ser celebrado. Muitos diriam, porque não disseram (ufa!), “ah, mas são 30 anos!”. Eu apenas diria e digo: grande coisa, para não dizer, grande bosta, fazer 30 anos.
E não sofro pela ausência daqueles sonhos que muitas mulheres se veem vestidas de noiva e, menos ainda, da pressa em ter filhos porque o corpo começa a entrar em decadência para gerar uma vida. Nisso, acho que só nisso, acertei e agradeço todos os dias à minha santa pílula. Agradeço, mas com ressalvas. Apesar de não ter vindo uma Ritinha ao mundo, a santa pílula me trouxe, de brinde, um melasma. O que é isso? Uma mancha incurável no rosto por anos e anos ininterruptos de ingestão de hormônio para enganar e proteger meu organismo. É... E aí haja ácido, protetor solar, corretivo e pó para disfarçar o que muitos não enxergam, mas meu espelho denuncia a cada mirada.
Muitos me condenam pela alergia que tenho pela ideia da reprodução. Mas se não consigo nem manter a mim própria quanto mais a um projeto de mim mesma. Mas, enfim, agradeço a minha pílula por isso e por não ter me trazido, até hoje, um derrame, uma trombose, um câncer ou um AVC. Isso porque, se não bastasse a bomba hormonal, sou fumante inveterada, assumida e sem previsão de largar o vício. E a combinação dos dois não é nada saudável, digamos assim.
Então, voltando aos famigerados 30 anos. Por ter sido induzida a “comemorar” mais um ano de vida, tomei várias cervejas no bar e um espumante em casa para quem sabe, inebriada, esquecer a data e ver a saída como qualquer ida a um boteco. Nada demais, infelizmente, aconteceu naquele dia nem nos posteriores. Mas comecei a fazer planos de economizar heroicamente e, dali a um ano, poderia quiçá pensar algo realmente grande: ter meu cantinho. Ou, pelo menos, fazer uma boa viagem e concretizar o plano de conhecer o México.
Mas, dois meses depois, recebo a notícia de que, em breve, eu estaria desempregada. No momento, também pela surpresa, não levei a notícia tão a ferro e fogo. Alguns colegas haviam passado pela mesma situação e não ficaram muito tempo sem alguma coisa. Mas esqueci de pensar, naquele instante, que isso se tratava de Ana Rita e, como ela sou eu, comigo tudo é possível, até passar um ano-novo no sofá com meus dois grandes companheiros do dia a dia desempregatício: meus meninos, isto é, meu dois gatinhos (os melhores filhos, no caso, os melhores sobrinhos, que eu poderia ter).
É desesperador. Digo como quem alerta um desavisado. O peso de dizer “estou desempregada” se assemelha a uma doença contagiosa tanto para o portador como para quem o rodeia. E esse objeto direto, passageiro ou insistente, vem acompanhado – na promoção pague um, leve 11 – de uma depressãozinha (que pode ser amenizada com comprimidos diários de fluoxetina), choros sem hora marcada, olhos inchados, solidão (a falta de renda obviamente muda a sua rotina de (não)trabalho assim como a sua vida social), cortes brutos no orçamento (para não falar em dívidas), brigas no relacionamento (uma desempregada não pode se dar ao luxo de acompanhar o namorado na vida social), visitas constantes à geladeira, banhos demorados (para ver se o tempo passa mais rápido), insônia, uma preguiça absurda para sair da cama e uma bela falta de vaidade.
Inevitavelmente, os desempregados padecem também de algumas intolerâncias. Jamais cumprimente automaticamente um desempregado com “tudo bem?”. Se ele decidir ser franco, você não vai querer ouvir as lamúrias. Tampouco o console com o clichê “vai dar tudo certo”. Isso só funciona em filmes, na maioria deles. E um desempregado, ao menos no meu caso, sofre com uma forte tendência ao pessimismo. E aquela máxima “uma desgraça nunca vem sozinha” parece funcionar mais do que nunca. “Se ainda não deu certo é porque não chegou a hora ou o fim”. Esta frase me soa como o anúncio da morte.
Como ajudar um desempregado? Dê-lhe dicas de trabalho, oportunidade. Se não, se for muito, mas muito próximo a ele, convide-o para algumas cervejas, mas, é claro, você terá de bancá-lo. E, apesar de a taxa de desemprego se manter estável no país, não são muitos os que ganham bem para sustentar alguém numa mesa de bar. Mas tem que ser um lugar chinfrim porque desempregado não está muito a fim de se arrumar. E isso normalmente ajuda na conta menos salgada. E se você não puder fazer nada disso, é melhor esquecê-lo, espero, temporariamente. Eles precisam de tempo para conseguir um emprego, se curar e voltar à vida. Não estou exagerando. Um desempregado é meio que um ser morto, invisível, excluído. Já disseram que tempo é dinheiro. E eu digo que o mundo é dinheiro, a vida é dinheiro. Sem isso, é óbvio, não se sobrevive. Mas tem o lado menos explícito. Passa-se realmente a não ter uma vida, a não ter planos, a encobrir os sonhos, a não poder sequer dar uma espairecida. E isso torna a vida, ou a sobrevivência, uma tortura.
Portanto, se está trabalhando, agradeça o emprego que tem. Reclame, isso faz parte do ser humano. Mas não reclame ao ponto de ofender quem não tem um para poder reclamar. Espero que essa experiência de autoconhecimento não perdure por muito tempo nem para mim nem para quem esteja na mesma situação. E tampouco a desejo à pessoa que menos gosto na vida. “Isso não é de Deus”, como dizem. Mas hoje entendo como é sofrível ser desse grupo. E, no meu caso, os 30 anos e o desemprego se misturam. Não sei falar de um sem falar do outro. E sobrou pra você, 30 anos. Ou seja, fazer 30 anos é uma merda.
Não havia o que celebrar, apenas algumas mudanças recentes. Mas, ok, dei o braço a torcer e ouvi pessoas próximas e queridas que não me deixavam passar a data em branco. Escolhi um boteco que costumo, quer dizer, costumava frequentar (vocês vão entender o porquê do passado) e até me surpreendi com a presença de bons amigos. A surpresa foi porque o e-mail de aniversário enviado em cima da hora foi proposital, não queria muita gente festejando o que não havia para ser celebrado. Muitos diriam, porque não disseram (ufa!), “ah, mas são 30 anos!”. Eu apenas diria e digo: grande coisa, para não dizer, grande bosta, fazer 30 anos.
E não sofro pela ausência daqueles sonhos que muitas mulheres se veem vestidas de noiva e, menos ainda, da pressa em ter filhos porque o corpo começa a entrar em decadência para gerar uma vida. Nisso, acho que só nisso, acertei e agradeço todos os dias à minha santa pílula. Agradeço, mas com ressalvas. Apesar de não ter vindo uma Ritinha ao mundo, a santa pílula me trouxe, de brinde, um melasma. O que é isso? Uma mancha incurável no rosto por anos e anos ininterruptos de ingestão de hormônio para enganar e proteger meu organismo. É... E aí haja ácido, protetor solar, corretivo e pó para disfarçar o que muitos não enxergam, mas meu espelho denuncia a cada mirada.
Muitos me condenam pela alergia que tenho pela ideia da reprodução. Mas se não consigo nem manter a mim própria quanto mais a um projeto de mim mesma. Mas, enfim, agradeço a minha pílula por isso e por não ter me trazido, até hoje, um derrame, uma trombose, um câncer ou um AVC. Isso porque, se não bastasse a bomba hormonal, sou fumante inveterada, assumida e sem previsão de largar o vício. E a combinação dos dois não é nada saudável, digamos assim.
Então, voltando aos famigerados 30 anos. Por ter sido induzida a “comemorar” mais um ano de vida, tomei várias cervejas no bar e um espumante em casa para quem sabe, inebriada, esquecer a data e ver a saída como qualquer ida a um boteco. Nada demais, infelizmente, aconteceu naquele dia nem nos posteriores. Mas comecei a fazer planos de economizar heroicamente e, dali a um ano, poderia quiçá pensar algo realmente grande: ter meu cantinho. Ou, pelo menos, fazer uma boa viagem e concretizar o plano de conhecer o México.
Mas, dois meses depois, recebo a notícia de que, em breve, eu estaria desempregada. No momento, também pela surpresa, não levei a notícia tão a ferro e fogo. Alguns colegas haviam passado pela mesma situação e não ficaram muito tempo sem alguma coisa. Mas esqueci de pensar, naquele instante, que isso se tratava de Ana Rita e, como ela sou eu, comigo tudo é possível, até passar um ano-novo no sofá com meus dois grandes companheiros do dia a dia desempregatício: meus meninos, isto é, meu dois gatinhos (os melhores filhos, no caso, os melhores sobrinhos, que eu poderia ter).
É desesperador. Digo como quem alerta um desavisado. O peso de dizer “estou desempregada” se assemelha a uma doença contagiosa tanto para o portador como para quem o rodeia. E esse objeto direto, passageiro ou insistente, vem acompanhado – na promoção pague um, leve 11 – de uma depressãozinha (que pode ser amenizada com comprimidos diários de fluoxetina), choros sem hora marcada, olhos inchados, solidão (a falta de renda obviamente muda a sua rotina de (não)trabalho assim como a sua vida social), cortes brutos no orçamento (para não falar em dívidas), brigas no relacionamento (uma desempregada não pode se dar ao luxo de acompanhar o namorado na vida social), visitas constantes à geladeira, banhos demorados (para ver se o tempo passa mais rápido), insônia, uma preguiça absurda para sair da cama e uma bela falta de vaidade.
Inevitavelmente, os desempregados padecem também de algumas intolerâncias. Jamais cumprimente automaticamente um desempregado com “tudo bem?”. Se ele decidir ser franco, você não vai querer ouvir as lamúrias. Tampouco o console com o clichê “vai dar tudo certo”. Isso só funciona em filmes, na maioria deles. E um desempregado, ao menos no meu caso, sofre com uma forte tendência ao pessimismo. E aquela máxima “uma desgraça nunca vem sozinha” parece funcionar mais do que nunca. “Se ainda não deu certo é porque não chegou a hora ou o fim”. Esta frase me soa como o anúncio da morte.
Como ajudar um desempregado? Dê-lhe dicas de trabalho, oportunidade. Se não, se for muito, mas muito próximo a ele, convide-o para algumas cervejas, mas, é claro, você terá de bancá-lo. E, apesar de a taxa de desemprego se manter estável no país, não são muitos os que ganham bem para sustentar alguém numa mesa de bar. Mas tem que ser um lugar chinfrim porque desempregado não está muito a fim de se arrumar. E isso normalmente ajuda na conta menos salgada. E se você não puder fazer nada disso, é melhor esquecê-lo, espero, temporariamente. Eles precisam de tempo para conseguir um emprego, se curar e voltar à vida. Não estou exagerando. Um desempregado é meio que um ser morto, invisível, excluído. Já disseram que tempo é dinheiro. E eu digo que o mundo é dinheiro, a vida é dinheiro. Sem isso, é óbvio, não se sobrevive. Mas tem o lado menos explícito. Passa-se realmente a não ter uma vida, a não ter planos, a encobrir os sonhos, a não poder sequer dar uma espairecida. E isso torna a vida, ou a sobrevivência, uma tortura.
Portanto, se está trabalhando, agradeça o emprego que tem. Reclame, isso faz parte do ser humano. Mas não reclame ao ponto de ofender quem não tem um para poder reclamar. Espero que essa experiência de autoconhecimento não perdure por muito tempo nem para mim nem para quem esteja na mesma situação. E tampouco a desejo à pessoa que menos gosto na vida. “Isso não é de Deus”, como dizem. Mas hoje entendo como é sofrível ser desse grupo. E, no meu caso, os 30 anos e o desemprego se misturam. Não sei falar de um sem falar do outro. E sobrou pra você, 30 anos. Ou seja, fazer 30 anos é uma merda.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
O mendigo da Esplanada
Divagações sobre um homem à margem da sociedade que circula entre os prédios do Poder Executivo da capital federal
Quem trabalha na Esplanada dos Ministérios ou vai lá com frequência provavelmente sabe de quem vou falar. Durante os quase dois meses em que prestei serviço num dos prédios ao lado direito de quem segue em direção ao Congresso Nacional, prestava atenção a uma figura que perambulava todos os dias entre os imponentes edifícios. Ao chegar pela manhã, ao sair para o almoço, ao descer para fumar, era raro não me deparar com ele, um homem de uns 35 anos – mas não me levem a sério, sou péssima para chutar a idade das pessoas. Posso dizer que é negro, de barba, nem magro nem gordo, de estatura média.
O que me intrigava neste homem não era o fato de apenas encontrá-lo sempre nas redondezas porque, é claro, sempre vemos aquelas mesmas pessoas no local onde trabalhamos. Seguia-o com o olhar porque sempre o via andando ou deitado no chão da Esplanada, com suas vestes rotas, pés descalços, mas, nunca, nunca mesmo, o vi pedir nada a ninguém que por ali caminhasse. Nem dinheiro, nem comida, nem cigarro. Posso apenas dizer que já o vi pegar as bitucas jogadas ao chão pelos fumantes que passavam próximos a ele. Talvez, em um desses momentos que não presenciei, ele tenha pedido a alguém, pelo menos, um isqueiro emprestado.
Nas lentas subidas do elevador e nos rápidos instantes de manutenção do vício da nicotina, divagava sobre aquela figura que via todos os dias. O que fazia da vida? Tinha família? Como comia? Tinha casa? Tinha tido problemas com drogas? Era impossível ter qualquer pista daquele solitário caminhante da Esplanada dos Ministérios. E era sempre só. Não tinha um amigo e tampouco era acompanhado pelo melhor amigo do homem, um cachorro para companhia mútua. Lembrava-me, nesse instante, de uma figura que também atraiu a minha atenção em São Paulo, nas proximidades da Rua Augusta. Este era já um senhor de cabelos grisalhos às margens da sociedade que perambulava sempre acompanhado de seu enorme cachorro. O animal parecia-me doente, pois era carregado numa espécie de carrinho de supermercado. Encontrei-os umas três vezes enquanto estive na metrópole e admirava o carinho entre ambos.
Mas com o mendigo da Esplanada nem isso, ninguém, nem um animal, para fazer-lhe companhia, para dividir um prato de comida, para diminuir a solidão. Como ele conseguia viver os dias, as horas, os minutos, sem ter um papo e sem ter um bicho que seguisse seus passos? Aprecio alguns momentos de solidão, mas me incomodam demasiadamente quando se prolongam por vários dias. Acredito que o ser humano não tenha sido feito para ser só porque a vida é uma eterna e constante troca. Mas para ele não parecia fazer falta, ou fizesse e ele precisasse aceitar a sua condição. Talvez alguém já tivesse se aproximado dele e ele tivesse afastado qualquer interação com o mundo que o havia marginalizado ou que ele próprio havia repelido. Talvez ele não aceitasse o mundo da forma como o é e por isso preferiria viver no acostamento a viver na pista principal ou na via de mão dupla.
E outra pergunta para que tampouco ja - mais tive resposta, nem mesmo uma pista: por que não pedia nada a ninguém? Sempre vejo os pedintes pedindo. Sempre vejo os mendigos mendigando. Definitivamente, ele não é um pedinte, pelo próprio significado da palavra. E mendigo? Pelas definições do Dicionário Houaiss, ele não o seria porque não pede esmolas. Mas “valer- se da caridade alheia”? Nunca o vi pedindo, mas talvez ele sobrevivesse da ajuda dos que eram invisíveis aos meus olhos. Como todos, ele precisa comer. E acredito mesmo que provavelmente alguém lhe entregasse um prato ou um pão em determinadas horas do dia. E, por isso, apelidei-o de o mendigo da Esplanada. Precisei dar nome para saber como me referir a ele.
Às vezes o via caminhando com seu cobertor sobre um dos ombros. Às vezes o via deitado – momento em que eu mais fantasiava a respeito de sua história – sob a copa de uma grande árvore, de barriga pra cima, pernas estendidas, olhos abertos, ou fechados. Esse detalhe eu não conseguia ver, pois tinha receio de me aproximar e incomodá-lo com a minha curiosidade. Assim como já quis descobrir quem era ele, mas seu silêncio e sua individualidade impunham tal respeito que me impediam, naturalmente, de qualquer investida. Cabia a mim apenas imaginar como seria a vida dele.
Já não trabalho mais por lá, mas, de vez em quando, a imagem do “mendigo da Esplanada” volta à minha mente como a me perguntar quem é aquela pessoa tão sozinha, calada, aparentemente autossuficiente e, na realidade, tão próxima, mas ao mesmo tempo tão distante. No centro do poder do Brasil, por onde circulam servidores públicos e autoridades do governo, entre as obras de Oscar Niemeyer que atraem tantos turistas e maravilham os brasilienses, estava ele, com sua simplicidade a se destacar.
Quiçá eu tivesse trabalhado mais tempo por lá e soubesse algo de sua vida, tivesse ouvido a sua voz ou mesmo ele me pedisse algo. Ou talvez alguém me contasse causos daquela pessoa que eu via apenas ali, entre os ministérios, andando ou descansando, ou dormindo. Mas um dia outras figuras provavelmente vão me intrigar e o “mendigo da Esplanada” será apenas uma lembrança quieta entre tantas outras inquietas. E é bom que não se fechem os olhos para não enxergá-las (pessoas). O dia em que o mundo estiver completamente cego para figuras como o mendigo da Esplanada e o senhor e seu cão, certamente será o dia em que o mundo não mais se perceberá como mundo.
Crônica publicada na 7ª edição da revista MeiaUm
Quem trabalha na Esplanada dos Ministérios ou vai lá com frequência provavelmente sabe de quem vou falar. Durante os quase dois meses em que prestei serviço num dos prédios ao lado direito de quem segue em direção ao Congresso Nacional, prestava atenção a uma figura que perambulava todos os dias entre os imponentes edifícios. Ao chegar pela manhã, ao sair para o almoço, ao descer para fumar, era raro não me deparar com ele, um homem de uns 35 anos – mas não me levem a sério, sou péssima para chutar a idade das pessoas. Posso dizer que é negro, de barba, nem magro nem gordo, de estatura média.
O que me intrigava neste homem não era o fato de apenas encontrá-lo sempre nas redondezas porque, é claro, sempre vemos aquelas mesmas pessoas no local onde trabalhamos. Seguia-o com o olhar porque sempre o via andando ou deitado no chão da Esplanada, com suas vestes rotas, pés descalços, mas, nunca, nunca mesmo, o vi pedir nada a ninguém que por ali caminhasse. Nem dinheiro, nem comida, nem cigarro. Posso apenas dizer que já o vi pegar as bitucas jogadas ao chão pelos fumantes que passavam próximos a ele. Talvez, em um desses momentos que não presenciei, ele tenha pedido a alguém, pelo menos, um isqueiro emprestado.
Nas lentas subidas do elevador e nos rápidos instantes de manutenção do vício da nicotina, divagava sobre aquela figura que via todos os dias. O que fazia da vida? Tinha família? Como comia? Tinha casa? Tinha tido problemas com drogas? Era impossível ter qualquer pista daquele solitário caminhante da Esplanada dos Ministérios. E era sempre só. Não tinha um amigo e tampouco era acompanhado pelo melhor amigo do homem, um cachorro para companhia mútua. Lembrava-me, nesse instante, de uma figura que também atraiu a minha atenção em São Paulo, nas proximidades da Rua Augusta. Este era já um senhor de cabelos grisalhos às margens da sociedade que perambulava sempre acompanhado de seu enorme cachorro. O animal parecia-me doente, pois era carregado numa espécie de carrinho de supermercado. Encontrei-os umas três vezes enquanto estive na metrópole e admirava o carinho entre ambos.
Mas com o mendigo da Esplanada nem isso, ninguém, nem um animal, para fazer-lhe companhia, para dividir um prato de comida, para diminuir a solidão. Como ele conseguia viver os dias, as horas, os minutos, sem ter um papo e sem ter um bicho que seguisse seus passos? Aprecio alguns momentos de solidão, mas me incomodam demasiadamente quando se prolongam por vários dias. Acredito que o ser humano não tenha sido feito para ser só porque a vida é uma eterna e constante troca. Mas para ele não parecia fazer falta, ou fizesse e ele precisasse aceitar a sua condição. Talvez alguém já tivesse se aproximado dele e ele tivesse afastado qualquer interação com o mundo que o havia marginalizado ou que ele próprio havia repelido. Talvez ele não aceitasse o mundo da forma como o é e por isso preferiria viver no acostamento a viver na pista principal ou na via de mão dupla.
E outra pergunta para que tampouco ja - mais tive resposta, nem mesmo uma pista: por que não pedia nada a ninguém? Sempre vejo os pedintes pedindo. Sempre vejo os mendigos mendigando. Definitivamente, ele não é um pedinte, pelo próprio significado da palavra. E mendigo? Pelas definições do Dicionário Houaiss, ele não o seria porque não pede esmolas. Mas “valer- se da caridade alheia”? Nunca o vi pedindo, mas talvez ele sobrevivesse da ajuda dos que eram invisíveis aos meus olhos. Como todos, ele precisa comer. E acredito mesmo que provavelmente alguém lhe entregasse um prato ou um pão em determinadas horas do dia. E, por isso, apelidei-o de o mendigo da Esplanada. Precisei dar nome para saber como me referir a ele.
Às vezes o via caminhando com seu cobertor sobre um dos ombros. Às vezes o via deitado – momento em que eu mais fantasiava a respeito de sua história – sob a copa de uma grande árvore, de barriga pra cima, pernas estendidas, olhos abertos, ou fechados. Esse detalhe eu não conseguia ver, pois tinha receio de me aproximar e incomodá-lo com a minha curiosidade. Assim como já quis descobrir quem era ele, mas seu silêncio e sua individualidade impunham tal respeito que me impediam, naturalmente, de qualquer investida. Cabia a mim apenas imaginar como seria a vida dele.
Já não trabalho mais por lá, mas, de vez em quando, a imagem do “mendigo da Esplanada” volta à minha mente como a me perguntar quem é aquela pessoa tão sozinha, calada, aparentemente autossuficiente e, na realidade, tão próxima, mas ao mesmo tempo tão distante. No centro do poder do Brasil, por onde circulam servidores públicos e autoridades do governo, entre as obras de Oscar Niemeyer que atraem tantos turistas e maravilham os brasilienses, estava ele, com sua simplicidade a se destacar.
Quiçá eu tivesse trabalhado mais tempo por lá e soubesse algo de sua vida, tivesse ouvido a sua voz ou mesmo ele me pedisse algo. Ou talvez alguém me contasse causos daquela pessoa que eu via apenas ali, entre os ministérios, andando ou descansando, ou dormindo. Mas um dia outras figuras provavelmente vão me intrigar e o “mendigo da Esplanada” será apenas uma lembrança quieta entre tantas outras inquietas. E é bom que não se fechem os olhos para não enxergá-las (pessoas). O dia em que o mundo estiver completamente cego para figuras como o mendigo da Esplanada e o senhor e seu cão, certamente será o dia em que o mundo não mais se perceberá como mundo.
Crônica publicada na 7ª edição da revista MeiaUm
sábado, 24 de setembro de 2011
Um mês
Eu que sempre amei a imprevisibilidade, as surpresas, não suporto a ideia de não saber nada do que virá, nem sequer, do que não virá. Quer dizer, imagino a inércia, mas, no fundo, espero que não seja ela a convidada repentina e rotineira. Como é possível tudo mudar tão inesperadamente? Seria um castigo? O que fiz de tão errado? Sonhar? É, talvez eu tenha sonhado demasiadamente, talvez eu tenha me superestimado, imaginado uma vida em ascensão, lenta, mas sem pausas. Mas hoje se completa um mês de interrupção de planos, de lágrimas que vêm e vão, de leituras, espero, não em vão. Sinto-me a par de tudo que acontece, nada do que acontece me afeta. Estou só. Todos estão envolvidos em suas vidas movimentadas, com o saldo a sair e entrar. O meu vai pingando dia a dia pelo ralo. Conto os centavos para que a receita de dias passados me mantenha pelo maior tempo possível. Não sei planejar a vida daqui uma semana. O fim do ano se aproxima e ele parece ainda mais terrível que os anteriores. Dois anos atrás, me preparava para realizar a viagem dos meus sonhos. Hoje não sei o que fazer com os dias mais lentos de toda a minha vida. De fato, nunca havia pensado sobre essa situação, jamais me preparei para esta condição. E, por mais que eu pergunte, não há respostas. A única frase que se me repetem... “Vai dar tudo certo”. Por que dizem isso? Uma forma de dizer qualquer coisa? Uma forma de ter que dizer alguma coisa? Como vai dar tudo certo? Eu não sei dizer nada a mim mesma. Desaprendi as leis básicas da vida. Aprendi mais um lado triste da realidade. Experimentar, como digo, é, definitivamente, o verbo da minha vida.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Mau tempo
Segregaram-me. Encarceraram-me. Vivo na cela de meus pensamentos. Estes me ferem gravemente. Vejo o mundo lá fora. Não pareço mais pertencer-lhe. As horas que antes voavam, agora passam como a me torturar. Os pesadelos não habitam mais apenas as noites. Acordar é como entrar num sonho ruim repetitivo. Os dias agora são todos tão iguais. Nem uma boa notícia. Vivo uma reportagem mal escrita que ninguém editou. Ouço um violão distante. Ele não me leva pra fora, traz-me mais para dentro. A trilha sonora da velocidade de minhas lágrimas. Meus pés não ultrapassam a porta. Não há motivo. Não sinto calor. Sinto frio pela desnecessidade de locomoção. Olho o espelho. Não me reconheço. Ou jamais me conheci. Meus sonhos foram inundados, meus planos, fuzilados. Resta a esperança de a página virar...
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