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segunda-feira, 29 de março de 2010

Os paradoxos e os enigmas de Manuel Carreiro

E-book do autor canadense é um convite a buscar a curiosidade infantil para então se divertir com sua obra

Ana Rita Gondim

"Este livro é dedicado para quem não tem voz", avisa o autor logo na dedicatória do livro. Paradoxalmente, também logo no início, o escritor antecipa o bom humor que virá em algumas das páginas seguintes com opiniões de David Foster Wallace, Friedrich Nietzsche, Johannes Gutenberg e Tomás Antônio Gonzaga, datadas de séculos passados e próximos anos. Os pequenos deuses da trapaça, de Manuel Carreiro, é um misto de universal e atual, de brincadeira e reflexão, de antigo e moderno, de catarse e ficção.

O livro, ou melhor, o e-book (livro eletrônico) do autor canadense, filho de pai português e mãe brasileira, vivido há muito tempo no Brasil, pode ser encomendado pelo site http://manuelcarreiro.com e o interessado pode pagar o valor que achar justo. Para os que preferem ler da forma tradicional, basta imprimir as 67 páginas. "Literatura é literatura impressa no papel, em arquivo virtual, rascunhada num guardanapo, inscrita num tronco de árvore. Foi-se o tempo em que ser publicado por uma editora de renome legitimava a boa qualidade (ou não) de um artista", explica Manuel Carreiro ao divulgar sua segunda obra (o primeiro é Eram os deuses escritores?, de 2004, uma brincadeira com Eram os deuses astronautas?, de Erick von Daniken) em site e por e-mail.

Resultado de um trabalho de seis anos - dois anos de rascunhos e quatro para afiar a linguagem -, o novo livro de Carreiro apresenta uma compilação de estórias - sim, estórias, que, apesar do desuso, ele mesmo assume e informa ao final: "o texto deste livro (des)obedece às normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. E também às regras do mercado editorial" - as mais variadas. Algumas são mais catárticas, outras se utilizam mais de espelhos, umas mais silenciosas, outras mais doloridas, algumas mais enigmáticas, outras mais paradoxais. O jogo com as palavras também é uma característica marcante na obra.

É comum se deparar com vestígios de Clarice Lispector e Nietzsche em suas páginas. Não à toa, além de escritor e leitor contumaz, Jason é bacharel em Filosofia (2002) e mestre em Letras (2006), ambos pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG). E hoje ele é doutorando e pesquisador em Filosofia da Educação na Simon Fraser University, no Canadá. Ademais, ele dá aulas inglês numa escola em Vancouver, terminou recentemente a tradução, do português para o inglês, do romance Monte verità, do carioca Gustavo Bernardo, e há um ano trabalha numa tradução, do inglês para o português, do conto Good old neon, do escritor americano David Foster Wallace. Apesar disso, o autor afirma que não é preciso bagagem ou iniciação filosófica para entender as suas palavras:

"É um livro pra quem gosta mesmo de pensar e se encantar com a falta de sentido. Tem muita vida no meio daquela solidão e tragédia toda dos contos. Precisa ser naturalmente curioso. Uma criança seria capaz de ler e se divertir com meu livro melhor do que um adulto porque elas sabem brincar e são curiosas. Mas, desde crianças, aprendemos a calar as perguntas. O menino pergunta: porque o céu é azul, pai? E a gente manda ele calar a boca. No fim das contas, a ideia é essa. Perdemos a capacidade de nos indignar com o mundo, de nos espantar. Quem tem essa indignação, esse encanto, acaba até se divertindo [com o livro]".

Apesar de divertir, o livro exige atenção para não cair nas armadilhas do autor. O próprio título é um enigma. Quem são os pequenos deuses da trapaça? Leia e descubra, assim como as demais relações, números e jogos de palavras. De antemão, o escritor adverte que a obra tem pistas falsas. E conclui: "é um livro pra pirar mesmo, não pra vender".

Trecho de Alma nômade

"(...) Agora me vejo, subitamente, apanhado por um desejo profundo de correr e correr, porque minha mente e meu espírito anteviram a cidade abaixo de mim - lá há crianças famintas, há adultos abusando de crianças, há maridos enganando suas esposas e esposas enganando os seus maridos (estou parecendo um código de ética, hoje, mas perceba leitor, que este comentário ultrapassa qualquer moralismo que você queira imbricar em minha narração - eu apenas constato as máscaras que os homens usam, esses pequenos deuses da trapaça) há pessoas matando por pouco dinheiro, e há jogos de dissimulação nojentos e mentiras mentiras mentiras e há também coisas boas, há também pessoas que se ajudam, não sou um pessimista, há aqueles que se dedicam com ardor a ajudar os perdidos, há muito amor sincero, há pessoas pacientes e calmas e alegres e contadores de estórias e (eu acho que vou desistir, vou me fundir aos prédios cinza da cidade e desistir) - (...)"

Os pequenos deuses da trapaça
Manuel Carreiro
Preço sugerido (o interessado pode pagar quanto quiser): USD $ 9,90/ R$ 14,99
E-book em formato PDF - venda exclusiva pela Internet
Pelo endereço http://manuelcarreiro.com
Todos os cartões de crédito e débito são aceitos. Assim que o valor for creditado na conta, o livro será enviado por e-mail

Publicado no jornal Correio Braziliense e no site Diversão & Arte

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Luna Clara & Apolo Onze

Luna Clara & Apolo Onze foi um presente. Um livro que recebi de uma pessoa ímpar. Li 327 páginas como se me salvassem dos desatinos de cobras e lagartos em que a vida nos põe de vez em quando. As fantasias de Aventura, Doravante, Pilhério, Luna Clara, Apolo Onze, Equinócio, Seu Erudito, Odisséia, Divina, entre outros, me levaram longe, me transportaram às nuvens. Uma autora que desconhecia, mas que me foi apresentada da melhor forma.

Ao ler o calhamaço à noite, percebia despertar de forma incomum. Os devaneios de Adriana Falcão habitaram meus sonhos, profundos, não mais insones. Também de forma singular, não separei o último capítulo. As últimas cem páginas foram lidas ininterruptamente. Queria alcançar logo os encontros, as possibilidades.

E rezo a Nossa Senhora do Não me Torne Chata. Quero que o aniversário dos anos não me aborreça e que eu continue a me divertir com livros assim e filmes como o Divã... Além, também, de rezar para a "Nossa Senhora do Final Feliz"...

Obrigada, minha doce e querida amiga, Flavinha! (E não venham me dizer que esta vírgula não existe. Neste caso, ela é obrigatória)

“Luna Clara mais uma vez se deu conta do quanto era desorganizada sua cabeça.
Uma lembrança, uma imaginação, uma decepção, uma nova esperança, uma reflexão, um dane-se, um desejo, outro, muitos, tudo fora das gavetas, numa bagunça muito maior do que a de seu quarto.
Um lado queria ir, um lado preferia ficar, um pensava em Doravante, outro gostava de Apolo Onze, outro estava na dúvida, outro...”

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Tempo seco

Não posto mais minhas matérias no blog por motivos diversos. Algumas eu colocarei devido a algumas particularidades. A de hoje, por exemplo, é um texto que escrevi sobre o lançamento do livro da editora de cultura do jornal onde trabalho. Obviamente, a insegurança esteve comigo antes, durante e depois de entrevistar e escrever. No fim, acredito que saíram boas palavras... E, é claro, obrigada, Clara!

13/05/2009
Clara Arreguy lança seu terceiro livro nesta quarta-feira

Ana Rita Gondim

Miriam deixa sua cidade natal, Belo Horizonte, e chega a Brasília. Para se locomover, prefere os táxis ao transporte público. Nisso, se relaciona costumeiramente com os motoristas, para os quais se torna confidente e ouvinte. Um deles, Rodrigues, torna-se grande amigo devido à afinidade que sentem. Esses momentos, “enquanto o taxímetro está ligado”, são seus instantes menos solitários, únicos em que se relaciona com outras pessoas e onde encontra “umidade” na “secura” da capital federal.

É assim a história inicial do terceiro livro, segundo romance, de Clara Arreguy, editora do caderno de cultura do Correio Braziliense. Tempo seco, que será lançado nesta quarta-feira (13/05), às 19h30, no Bar Brahma (201 Sul), conta esses encontros e diálogos ambientados em corridas de táxi. Miriam e Rodrigues são os protagonistas, mas outros personagens, assim como o momento político do enredo, dão força às linhas inicialmente escritas durante as férias da jornalista.

Apesar das semelhanças entre Miriam e Clara, ambas vindas de Belo Horizonte e moradoras de Brasília, a autora avisa que o livro é uma ficção. “Miriam tem muito a ver comigo, mas é uma personagem mesmo. Ela não é autobiográfica, nem as histórias são reais”, elucida. Para provar a divergência entre as duas, Clara Arreguy conta que está satisfeita na cidade onde reside desde 2004. “Uma diferença é que a personagem chega a Brasília e tem uma adaptação difícil. Hoje eu sou feliz aqui. A personagem não, ela patinou aqui, é solitária, tem dificuldade de se relacionar com os desconhecidos, vive muito dessa conversa e dessa relação que dura enquanto o taxímetro está ligado”.

Ambientado no momento em que Luiz Inácio Lula da Silva torna-se, pela segunda vez, o presidente do país, a realidade é novamente trazida um pouco para a ficção nas páginas de Tempo seco. Política é outro assunto de que a autora gosta bastante e que foi tema de seu livro de memórias lançado em 2005, Fafich. Muitas das conversas nos bancos de táxis têm como base o momento da época. “Tem muita política no fundo, com personagens que defendem o Lula, que estava muito à frente nas eleições, ponho na fala dos personagens esse apoio. Mas a história é dela, não é a minha”, esclarece Clara, mais uma vez.

A imagem da capa e o título da obra remetem imediatamente ao quadrilátero central do Brasil, mas diz ainda mais. “A secura não é só meteorológica”, afirma a autora. Tempo seco é também a solidão de Miriam, de Rodrigues, da inabilidade em se adaptar, em construir laços, da dificuldade de se misturar onde tantos de origens diversas estão em convivência comum. “É uma marca da cidade e da infelicidade das personagens principais. Sou muito feliz aqui, mas muita gente não conseguiu. Ela é uma exilada”, pontua secamente a autora, em contraposição à “umidade” que transborda. Questionada sobre se era uma obra dramática, Clara afirma verbal e gestualmente: “muitos me perguntam isso e ele é um livro triste, sim”.

Nascida em 1959 em Belo Horizonte, Clara Arreguy é jornalista formada pela UFMG e escritora. Foi crítica de teatro, repórter, editora assistente de Cultura do Estado de Minas entre 1986 e 2004. Desde maio de 2004, atua como editora de cultura do Correio Braziliense. Ela é autora de Segunda divisão (romance, Editora Lamparina) e Fafich (memórias, Editora Conceito), lançados em 2005.

Publicado no Divirta-se

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Dois irmãos


Guardo o último capítulo, assim como já fiz com outros livros. Não gosto de despedidas, nem que sejam com as últimas páginas. Além disso, tenho receio de a obra me decepcionar com o final. Uma das manias que tenho não é ler as primeiras palavras de um livro em uma prateleira, mas procurar a última frase. Talvez como se pudesse me trazer uma resposta, talvez para descobrir como termina uma história.

Por um mês, Dois irmãos, de Miton Hatoum, me acompanhou nas manhãs e nas últimas horas do dia. Queria alcançar o fim da rinha entre os irmãos gêmeos, me fascinava o amor de Halim por Zana, desenhava Manaus em meus pensamentos com as descrições do autor. Por fim, o mistério de Domingas e do narrador tornou-se o cerne da leitura. E o mistério não se desvenda.

Opino, talvez, por bons ou maus livros pelas anotações e grifos que realizo. Houve alguns que gostei sem ter riscado muita coisa. Mas vários me chamam a atenção por passagens e ditos interessantes, inteligentes, que me põem a pensar e voltar um dia a reler. E Dois irmãos teve um pouco disso. E certamente outro volume de Milton Hatoum ocupará meu tempo.

“’Louca para ser livre’. Palavras mortas. Ninguém se liberta só com palavras. Ela ficou aqui na casa, sonhando com uma liberdade sempre adiada. Um dia, eu lhe disse: Ao diabo com os sonhos: ou a gente age, ou a morte de repente nos cutuca, e não há sonho na morte. Todos os sonhos estão aqui, eu dizia, e ela me olhava, cheia de palavras guardadas, ansiosa por falar. (...)
Naquela época, tentei, em vão, escrever outras linhas. Mas as palavras parecem esperar a morte e o esquecimento; permanecem soterradas, petrificadas, em estado latente, para depois, em lenta combustão, acenderem em nós o desejo de contar passagens que o tempo dissipou. E o tempo, que nos faz esquecer, também é cúmplice delas. Só o tempo transforma nossos sentimentos em palavras mais verdadeiras, disse Halim durante uma conversa, quando usou muito o lenço para enxugar o suor do calor e da raiva ao ver a esposa enredada ao filho caçula. (...) Alguns dos nossos desejos só se cumprem no outro, os pesadelos pertencem a nós mesmos.”

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Memórias de velhos tristes

A leitura de Memória de minhas putas tristes é deliciosa. Havia imaginado García Márquez complexo, mas os olhos passam por suas palavras sem precisar de retorno. Não me envergonho de minha ignorância porque contra ela há o prazer ímpar de viver várias vidas, conhecer palavras, descobrir mundos inesgotáveis.

Vi no "sábio triste" de García Márquez o Homem comum de Roth. E, por um momento, alegrei-me por não conhecê-los anos à frente. Em alguns instantes, inquietei-me com sua frustração, estagnação; ausência de vida, de amor; preferência pela ilusão à realidade. Sem desistir, ele apazigua, e, no fim, ele acalenta com sua busca.

Numa coincidência das duas leituras, enxerga-se a contemporaneidade: "O sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança". E ao encontrar uma ex-companheira de cama, o "sábio triste" ouve de Casilda Armenta: "não vá morrer sem experimentar a maravilha de trepar com amor".

Tantos anos, ou melhor, tantas décadas, como conta a idade o personagem, servem também para acalmar sonhadores e os que têm "joie de vivre" como norte. Mas mesmo com muitas alegrias a vir por um século, assim como ele, "não trocaria por nada neste mundo as delícias do meu desassossego".

E que venham Cem anos de solidão.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Um brasileiro em Berlim

No que se prenuncia início da minha morte semanal, recebo de volta meu Roth e tenho como empréstimo um livro de crônicas de João Ubaldo Ribeiro. Eu e uma das bibliotecas com quem trabalho conversamos geralmente sobre hábitos literários, entre outros assuntos, e uma vez confessei que nunca havia lido esse baiano de voz grave que mal se entende o que fala numa entrevista televisiva.

A fim de descobrir outros mundos, imponho-me um livro de cada autor, pelo menos intercalado. E minha curiosidade sobre Ubaldo aumentou ao ler uma matéria em que falava de seu novo livro e ao concordar com ele sobre os “problemas” da reforma ortográfica.

Então, aceitei o empréstimo, um tanto a contragosto porque gosto de ter os livros que leio, para sublinhar os trechos que me apetecem ou mesmo voltar um dia para reler algo (e eu volto mesmo). E para não embarcar no tédio invariável da segunda-feira, de uma semana que saberei longa devido ao plantão, preparo-me com travesseiros para o deleite inaugural.

Ubaldo é a simplicidade das palavras, é a comicidade em atos banais, é atinar para o “amanhã” brasileiro, é leve e divertido, é uma deliciosa indicação para sobreviver aos dias em que tudo parece meio cinza. Um brasileiro em Berlim faz-nos lembrar como é bom ser brasileiro, como é bom sermos alegres e solidários, como sabemos rir de nós mesmos, como é bom ser Brasil mesmo no primeiro mundo.

Obrigada pela salvação, Ubaldo!

“No Brasil, muitas vezes me queixo de que as pessoas falam alto demais, se olham, pegam, esfregam, abraçam e beijam demais. Já aqui, sinto uma espécie de privação sensorial. Penso em Montaigne, que, se não me engano, escreveu que o casamento é como uma gaiola: o passarinho que está dentro quer sair, o que está fora quer entrar. Acho que isso pode estender-se a tudo na vida, porque hoje, particularmente, eu gostaria, de ter voltado para casa com a sensação de que alguém na rua me viu, e fiquei com saudades de casa”.
(Pequenos choques – quatro anotações de um visitante distraído)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

O visconde partido ao meio

Como me tudo, ou quase tudo, é tardio, descubro que o fantástico também é literatura. Penso que era, e ainda sou, à imagem e semelhança do narrador de O visconde partido ao meio de Italo Calvino: “Às vezes a gente se imagina incompleto e é apenas jovem”.

Então, na minha incompletude ainda maior, pressupunha que um bom livro devia ser pesado, reflexivo, dramático, sofrido. Não à toa meus escritores preferidos eram; ainda são, mas somados a outros; Dostoievski, Clarice e Rawet.

Numa busca sem alvo, disparei os olhos para a leitura e desvirginei-me para autores que, se até ontem tocasse em suas páginas, poderia não passar do primeiro capítulo. Mas, calma e divertidamente, esses homens ilustres me conquistaram.

O último desses cavalheiros e que me levou a um segundo encontro foi Italo Calvino. As metades do nobre bombardeado por um canhão entretiveram-me, sem serem fúteis; puseram-me a refletir, sem me causarem insônia; encantaram-me, sem me aprisionarem.

Há quem possa ser metade, há quem possa encontrar metades. Mas, principalmente, há quem possa ser uma metade temporária. Como diz Pamela, “cada encontro de duas criaturas no mundo é uma dilaceração”. E, no fim, a união dos pedaços pode nos tornar menos incompletos, menos divididos, menos incompreensíveis; assim como a costura de Mesquinho e Bom tornou Medardo di Terralba “nem mau nem bom, uma mistura de maldade e bondade”.

A quem se conte superficialmente o enredo, vê-se uma testa franzida, o olho deslocar-se ao canto, um leve movimento do rosto. Atire o primeiro Calvino quem nunca teve fantasias e quisesse transformá-las em realidade. Ou, pelo menos, em páginas...

“Ó, Pamela, isso é o bom de ser partido ao meio: entender de cada pessoa e coisa no mundo a tristeza que cada um e cada uma sente pela própria incompletude. Eu era inteiro e não entendia, e me movia surdo e incomunicável entre as dores e feridas disseminadas por todos os lados, lá onde, inteiro, alguém ousa acreditar menos. Não só eu, Pamela, sou um ser dividido e desarraigado, mas você também, e todos. Mas, agora, tenho uma fraternidade que antes, inteiro, não conhecia: aquela com todas as mutilações e as faltas do mundo. Se vier comigo, Pamela, vai aprender a sofrer os males de cada um e a tratar dos seus tratando dos deles.”

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Homem comum

Após haver lido metade de Homem comum, de Philip Roth, dias atrás, numa noite decido retomá-lo. Viajo em suas histórias e me assusto com o passar das horas. Interrompo o deleite como quem toma o brinquedo de uma criança. Já era tarde da noite e o cansaço do dia anterior com o início do horário de verão me fez preferir o descanso às palavras.

Na noite seguinte, recupero as páginas. Uma ansiedade feliz fez-me deitar para lê-lo com o maior dos prazeres. Roth é assim. Você lê na cama sem sentir sono, lê com os chinelos barulhentos da mãe pelo corredor sem perder a concentração, lê tranqüilamente com o som distante das desgraças transmitidas pelo Jornal Nacional que o pai assiste na sala.

Ao faltar umas sete páginas para terminá-lo, fecho a porta. Queria que nada interrompesse ou postergasse o prazer ímpar de descobrir o fim da história. Impacientava-me com o que faria com seus medos e remorsos ou o que eles fariam com ele próprio. Encantei-me de certa forma com o canalha que, idoso, sofre com seus arrependimentos e com o homem que se tornou.

Seu sexo descarado, seu egoísmo assumido, seus arrependimentos doídos, seu amor perdido, são contados de forma simples. A densidade está na história em si e não na costura de suas palavras. No início, uma leitora tem certo pavor de suas atitudes, mas, do meio pro fim, compadece-se de sua dor.

A penúltima linha causa aquele ardorzinho no nariz, como que chamando lágrimas aos olhos. Não queria que assim terminasse ou que, se assim fosse, tivesse mais coisas para me contar. E foi assim que Roth quase me devolveu à livraria para comprar mais um livro seu. Voltei lá, mas não saí com Roth na sacola. Decido comprar outro autor para que a paixão não se enleve e eu possa incluir outros canalhas em minhas prateleiras.

“E ele, pelo resto da eternidade, nunca mais receber os telefonemas matinais dela! Viu a si próprio correndo em todas as direções ao mesmo tempo pela principal interseção de Elizabeth – o pai fracassado, o irmão invejoso, o marido infiel, o filho impotente – e, a poucos quarteirões da joalheria da família, chamando os familiares que jamais poderia alcançar, por mais que corresse atrás deles. ‘Mamãe, papai, Howie, Phoebe, Nancy, Randy, Lonny – se naquele tempo eu soubesse como agir! Vocês não me escutam? Estou indo embora! Terminou, e estou deixando vocês para trás!’ E todos se afastando dele, tão depressa quanto ele deles, viravam as cabeças para trás para exclamar, por sua vez, com vozes carregadas de significado: ‘Tarde demais!’

Partir – a palavra que o fizera despertar sufocado, em pânico, vivo após abraçar um cadáver.”
(Essas não são as últimas linhas de Homem comum)

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Agora, sim, Borges.

Preservei uma impressão, adquiri opinião distinta, e hoje construí a minha própria idéia. Jorge Luis Borges é um gênio. Em tempos de faculdade, dizia-se que ele era isso e aquilo, mas ainda não tinha me apaixonado por literatura ou sentido sua necessidade. Anos mais à frente, li uma matéria e... Que decepção! Como alguém tão sublime podia ser racista e a favor de militares no governo?

Então parti Borges ao meio até a literatura virar um vício e ele ocupar um lugar na fileira de livros que me impus. Com a mania assumida publicamente, ganho O Aleph de presente de aniversário de meus 27 anos. Ao terminar outras leituras, mergulho em seus contos. Sim, demorei propositalmente em suas histórias. Dificilmente me concentrava em seus dois primeiros parágrafos, lia e relia, mas, rapidamente, me encantei por suas palavras.

O Aleph foi o típico livro que adiei o fim. Não queria terminá-lo nunca, apesar da lista de obras crescer incessantemente. Admirava-me a sua criatividade, a sua delicadeza, suas referências, as surpresas, o fantástico dos enredos. Certamente sonhei entrevistando-o a fim de descobrir de onde tantas idéias brotavam, mas infelizmente não me recordo de minhas atividades jornalísticas oníricas.

Ao fim de cada conto, precisava desligar-me. Só lia outro no dia seguinte, pois precisava viver e digerir tamanha genialidade. O Aleph também é um dos meus livros que não empresto. É expor-me demasiadamente a quem o abrir. Grifos, círculos, anotações de dicionário. Outra mania que adquiri junto ao próprio vício pela literatura. Costumo imaginar sendo enterrada junto a eles como se ali estivessem meus segredos, meus mistérios, meus medos, meus sonhos.

Todos os contos são um mergulho, mas uns são ainda mais profundos. Chamaram-me a atenção especialmente O imortal, Os teólogos, História do guerreiro e da cativa, Biografia de Tadeo Isidoro Cruz, Deutsches requiem, A busca de averróis, O zahir, A escrita do deus, e, obviamente, O Aleph.

Borges é definitivamente fantástico, em suas duas acepções. No entanto, há ainda outros tantos autores a descobrir... Philip Roth, Milton Hatoum, Inês Pedrosa, Leon Tolstoi, Virginia Woolf... E outros tantos a redescobrir... Samuel Rawet, Italo Calvino, Fiodor Dostoievski, Julio Cortazar, Franz Kafka, Machado de Assis, Guimarães Rosa... E, é claro, Jorge Luis Borges.

“Na rua, nas escadas da Constitución, no metrô, todos os rostos me pareceram familiares. Temi que não restasse uma só coisa capaz de me surpreender, temi que nunca mais me abandonasse a impressão de voltar. Felizmente, ao cabo de algumas noites de insônia, de novo agiu sobre mim o esquecimento”.
(O Aleph, pg. 151)

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Selva aqui dentro II

Em menos de uma semana, em exatos cinco dias de disponibilidade, curiosidade e paixão, termino a leitura de um romance de mais de duzentas páginas. Ao fim, não repito a questão que deixei em texto anterior. Não desejo especular se aquilo tudo ocorreu na realidade ou não. Seria, no mínimo, indiscreto e inútil sabê-lo.

O que me ocorreu, surpreendentemente, foi a transposição da história para a minha vida ou a inversão da realidade para papéis que não escrevi. Fui Adriano Pontes, fui Lana Martins. Agora não me vejo como aqueles cidadãos que abordam atores e atrizes nas ruas. Vi-me nos personagens e questiono se todo leitor e/ou espectador se vêem nas páginas e tela à sua frente?! É narcisismo ver-se dessa forma ou é busca do conforto da semelhança?

O livro é delicioso, de fato, mas senti o gosto doce e amargo de suas páginas. Doce pela fruição da história, pelo despudor de cenas e personagens, pelo português bem escrito, pela convergência de admiração e realidade. Amargo por uma questão estritamente pessoal. Vi-me demasiadamente nas cenas e descrições do capítulo final. O desenrolar dos últimos acontecimentos tocaram-me no âmago, e o autor deixou-me sem chão… Li ininterruptamente para buscar o desfecho, mas ele propositadamente o deixa em reticências…

O gosto do encontro é acre-doce, bom e ruim, confortável e desagradável. É como se a língua não soubesse discernir qual sabor prepondera ao deparar-se com o alimento em sua boca. É um delicioso que intriga, incomoda, perturba. E o autor, em sua maestria, enfatiza o que sabe ser o seu intento e sabor. E, assim, mantém o suspense do leitor ao comunicá-lo para as próximas leituras. Ou melhor, não é bem uma comunicação, mas uma convocação. Sente-se falta de um ponto final, pois se busca o que é diferente no plano real, visível, tangível.

Infelizmente o livro não está disponível em estantes. Posso gabar-me de haver sido enviado por e-mail para o meu inexpressível deleite. Só posso esperar que o autor decida publicá-lo e ele possa integrar a minha modesta prateleira de livros, com uma dedicatória e um belo autógrafo, e que outros também possam deliciar-se. Parabenizo quem um dia foi meu professor. E, um dia professor, eterno mestre. "Tim-tim" a todos que habitam a selva, não se utilizam de máscaras ou os que dela se utilizam para que a invisibilidade seja uma defesa, uma necessidade ou uma mera exigência da loucura e da inadaptabilidade ao cotidiano, ao morno, ao linear.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Selva aqui dentro I

Neste último sábado, entre pintar as unhas e cuidar do cabelo, abri um romance no computador que há muito devia leitura. Acendo um cigarro para examinar as primeiras páginas a fim de saber do que se trataria a história. Envolvo-me. O belo português, a ansiedade pela história, a curiosidade pelos personagens e a admiração pelo autor fizeram com que eu lesse quase o capítulo inteiro numa tarde enquanto não chegava a hora do encontro com os amigos.

Por alguns instantes, cheguei a não querer me ausentar do quarto para manter a leitura até o fim. No entanto, não podia mais ficar envolta somente entre palavras escritas, precisava de contato humano, social. Além disso, quis também postergar o prazer pela semana que se aproximava. Ela me ocuparia após o expediente e me permitiria conhecer a literatura de um daqueles que considero seres mortais. Não digo isso para diminuir o autor. É pelo simples fato de tê-lo conhecido e tê-lo como uma de minhas metas profissionais.

Decido dar-lhe notícia da leitura de seu romance e ele me diz de sua falta de autoconfiança. Como? Como isso é possível em um dos seres mortais que tive o prazer de conhecer e a quem devoto tanta admiração? Não, este mundo está mesmo com os valores invertidos. Conheço outras tantas pessoas a quem não sinto qualquer admiração e se comprazem em levantar o nariz por serem não sei o quê… Resolvo dar-lhe uma bronca porque nada daquilo fazia sentido. Aos poucos, acho que ele recobra a lucidez e percebe a grandeza que é. Assim, espero. Ao mesmo tempo também espero que ele não a retome de forma a integrar-se ao grupo repugnante de raposas e urubus que às vezes são alguns jornalistas.

Noutra tarde, no terceiro dia completamente envolvida pelas mais de duzentas páginas de uma "selva lá fora", leio todo o segundo capítulo. É estranho ler algo de quem se conhece. Ainda não tinha tido esta experiência tão larga, feroz e exuberante. Descubro sentir-me como aquelas pessoas que abordam atores nas ruas com comentários sobre suas novelas televisivas. Fiquei imaginando se ele seria o protagonista da história, se havia realmente feito todas aquelas aventuras e se estaria tornando-se ou teria se tornado o "porco" do enredo. Obviamente, não tive ou ainda não tive a coragem de especular sobre isso…

...

Próximo capítulo em breve

terça-feira, 3 de junho de 2008

Estranho de volta ao ninho


Após quatro anos da reedição de sua obra ficcional, Rawet encontra-se mais abundante nas prateleiras. Agora foi a vez de seus ensaios ganharem novamente os olhos do mundo. O volume Samuel Rawet: ensaios reunidos é continuação do projeto da editora Civilização Brasileira, que publicou, em 2004, Contos e novelas reunidos.

A nova coletânea abrange textos que Rawet escreveu e publicou entre as décadas de 1960 e 1980. Apesar de gêneros distintos, os temas são semelhantes aos perseguidos em seus contos e suas novelas, mas com um tom especulativo, filosófico. Os organizadores do novo volume, Rosana Kohl Bines e José Leonardo Tônus, explicam, no prefácio, que ler os ensaios de Samuel Rawet é sempre um desafio.

“A cada linha e cada página o leitor é convocado a acompanhar a ruminação obstinada pela palavra adequada que não se deixa apropriar e que finalmente se desdobra em tantas outras, martelando o drama da incompreensão do homem diante da impossibilidade de dizer o mundo, de dizer-se a si mesmo e de se fazer compreender pela linguagem. Nessa busca sem limites, seu pensamento se dilui e torna-se errante, como se o próprio autor recusasse o estabelecimento em seus textos de uma ‘leitura-fechada, leitura-atenta ou leitura-rigorosa’”, preambulam Bines e Tonus.

Os ensaios rawetianos, assim como as obras em geral, proporcionam uma falta de ar, uma insônia que não permite o descanso, uns pontos de interrogação que bóiam em suas linhas e entrelinhas que permearam sua vida e permeiam a de quem se torna espectador e ator de suas obras. É concomitantemente uma leitura perigosa e atraente, atenta e inquieta, angustiante e fascinante. “Se a escrita de Rawet é desconcertante, intrigante, até enigmática, não é óbvia sua importância para a literatura brasileira”, assevera Saul Kirschbaum na tese de doutorado Ética e literatura na obra de Samuel Rawet.

Stefania Chiarelli esclarece a relevância de Rawet. “A obra rawetiana reúne características que situam o autor em um lugar especial na literatura brasileira: sua escolha pelo tema do imigrante, sua configuração como estranho e a ruptura que fez com uma determinada tradição do conto brasileiro fazem dele figura ímpar em nossa literatura. Assim, adquire a capacidade de tocar fundo em questões anteriormente apenas esboçadas no conjunto de nossas narrativas, uma vez que é pioneira a conquista do espaço enunciativo a partir da ótica descentrada do imigrante”, discorre Stefania na tese de doutorado Vidas em trânsito: as ficções de Samuel Rawet e Milton Hatoum.

“O solitário caminhante do mundo” foi e ainda é um escritor desconhecido de muitos e conhecido mais particularmente de estudiosos. É como se a criatura seguisse o caminho de seu criador. Uma vez se disse que jamais houve no Brasil um poeta que viveu verdadeiramente como poeta como o foi Vinicius de Moraes. Daí é possível uma paródia: talvez não haja alguém além de Rawet que tenha não só escrito, mas vivido visceralmente o que se propriamente escreveu – a estrangeiridade, o estranhamento, o exílio, “o silêncio do estrangeiro”.

Ensaio

Em Consciência e valor, um dos ensaios presentes na coletânea, Rawet parte da burrice para tratar dessa dicotomia. Para isso, ele experimenta a idiotice e a ingenuidade diante do mundo e disserta que são a consciência e o valor os problemas da loucura e, ao mesmo tempo, da filosofia. E são essas as questões tratadas nas linhas deste ensaio. A partir da discussão, o autor alcança os sonhos como mecanismo de estudo para se chegar à consciência e finaliza com o relato de um devaneio pessoal para finalizar sua experiência.

Trecho:

“(...) Estava eu nessa etapa, vagabundo da consciência, embrenhado em algumas pesquisas ligadas à sexualidade. Deixo o aspecto fisiológico e hormonal para os sábios da matéria, deixo o aspecto psicológico para os eminentes monges dos divãs bem forrados, deixo o aspecto ético para quem de direito. Como é impossível efetuar essa pesquisa em laboratório, só havia um caminho: o mundo. E o mundo é a rua, a praça, o bairro, a cidade, a estrada, o bordel, o parque, o cinema, o hotel de luxo, a hospedaria de cubículos sem luz nem ar, onde mal se fica de pé, porque de um pavimento fizeram dois, o mundo é o ônibus, o saguão de um edifício, uma sala de visitas de madrugada, um mictório, um consultório, um gabinete bem atapetado. (...)”


O silêncio do estrangeiro

A literatura rawetiana é “uma literatura do ponto de vista do estranhamento geográfico, existencial, étnico, social e econômico. O estrangeiro, no seu sentido mais amplo, que não significa somente a mudança geográfica, mas toda a estranheza que um indivíduo causa aos outros, a estranheza dentro de si perante o mundo ao seu redor”.
Trecho da monografia de conclusão do curso de jornalismo em que se analisou seu livro de estréia Contos do imigrante.

Brasília, 29 de maio de 2008

Texto também publicado no site Biblioteca de Babel