Semanas atrás, voltei à minha curiosidade com a música brasileira. Dessa vez, conheci um pouco da potiguar Roberta Sá. Tive a oportunidade de vê-la, no ano passado, em uma participação em show em homenagem a Gonzaguinha, mas ainda não conhecia sua história ou seu trabalho.
Em um dia que não me apetecia a introspecção de ler um livro, baixo seu último disco – Que belo estranho dia pra se ter alegria (sim, baixei o disco. Meu modesto salário não comporta que cada conhecimento origine um novo cd, apesar de adorar a idéia). Coloco o cd no carro e ele perdura lá por vários dias.
Encantada, busco também seu primeiro disco, leio sua biografia, faço propaganda a amigos. Poucos sabem me dizer sobre ela ou têm opinião sobre a artista. Descobri a delícia de “descobrir” algo sem alguém ter feito referências ou elogios e eu mesma tecer minha própria idéia sem induzimento de outra.
Considero a cantora no rol de pessoas que me colocam pra baixo, no bom sentido. Com apenas 27 anos, ela tem dois belos discos com participações de grandes como Lenine e Ney Matogrosso. Com repertório de boníssimo gosto, entre suas músicas estão composições de Lula Queiroga, Dorival Caymmi, Chico Buarque, Pedro Luís.
Uma linda voz, um ritmo gostoso, belas interpretações. A isso se somam sua beleza e simpatia percebidas (ressalte-se, pois posso estar enganada) em apenas uma música no palco do Centro de Convenções de Brasília com Daniel Gonzaga. Sua jovialidade encanta e faz pensar o que virá de tanto melhor ainda pela frente.
Espero que a impressão de discos iniciais se confirme após mais trabalhos e que o Brasil tenha mais uma artista de valor crescente. E que ela venha a Brasília para me presentear ao vivo com o que conheço de gravação em estúdio.
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
quinta-feira, 23 de outubro de 2008
209 km
Telefone toca
Voz grave
Fala relutante
Parte boa
Parte ruim
O que você acha?
Duas verdades
Dois caminhos
Vida e suas bifurcações
Vida e suas distâncias
Voz grave
Fala relutante
Parte boa
Parte ruim
O que você acha?
Duas verdades
Dois caminhos
Vida e suas bifurcações
Vida e suas distâncias
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Homem comum
Após haver lido metade de Homem comum, de Philip Roth, dias atrás, numa noite decido retomá-lo. Viajo em suas histórias e me assusto com o passar das horas. Interrompo o deleite como quem toma o brinquedo de uma criança. Já era tarde da noite e o cansaço do dia anterior com o início do horário de verão me fez preferir o descanso às palavras.
Na noite seguinte, recupero as páginas. Uma ansiedade feliz fez-me deitar para lê-lo com o maior dos prazeres. Roth é assim. Você lê na cama sem sentir sono, lê com os chinelos barulhentos da mãe pelo corredor sem perder a concentração, lê tranqüilamente com o som distante das desgraças transmitidas pelo Jornal Nacional que o pai assiste na sala.
Ao faltar umas sete páginas para terminá-lo, fecho a porta. Queria que nada interrompesse ou postergasse o prazer ímpar de descobrir o fim da história. Impacientava-me com o que faria com seus medos e remorsos ou o que eles fariam com ele próprio. Encantei-me de certa forma com o canalha que, idoso, sofre com seus arrependimentos e com o homem que se tornou.
Seu sexo descarado, seu egoísmo assumido, seus arrependimentos doídos, seu amor perdido, são contados de forma simples. A densidade está na história em si e não na costura de suas palavras. No início, uma leitora tem certo pavor de suas atitudes, mas, do meio pro fim, compadece-se de sua dor.
A penúltima linha causa aquele ardorzinho no nariz, como que chamando lágrimas aos olhos. Não queria que assim terminasse ou que, se assim fosse, tivesse mais coisas para me contar. E foi assim que Roth quase me devolveu à livraria para comprar mais um livro seu. Voltei lá, mas não saí com Roth na sacola. Decido comprar outro autor para que a paixão não se enleve e eu possa incluir outros canalhas em minhas prateleiras.
“E ele, pelo resto da eternidade, nunca mais receber os telefonemas matinais dela! Viu a si próprio correndo em todas as direções ao mesmo tempo pela principal interseção de Elizabeth – o pai fracassado, o irmão invejoso, o marido infiel, o filho impotente – e, a poucos quarteirões da joalheria da família, chamando os familiares que jamais poderia alcançar, por mais que corresse atrás deles. ‘Mamãe, papai, Howie, Phoebe, Nancy, Randy, Lonny – se naquele tempo eu soubesse como agir! Vocês não me escutam? Estou indo embora! Terminou, e estou deixando vocês para trás!’ E todos se afastando dele, tão depressa quanto ele deles, viravam as cabeças para trás para exclamar, por sua vez, com vozes carregadas de significado: ‘Tarde demais!’
Partir – a palavra que o fizera despertar sufocado, em pânico, vivo após abraçar um cadáver.”
(Essas não são as últimas linhas de Homem comum)
Na noite seguinte, recupero as páginas. Uma ansiedade feliz fez-me deitar para lê-lo com o maior dos prazeres. Roth é assim. Você lê na cama sem sentir sono, lê com os chinelos barulhentos da mãe pelo corredor sem perder a concentração, lê tranqüilamente com o som distante das desgraças transmitidas pelo Jornal Nacional que o pai assiste na sala.
Ao faltar umas sete páginas para terminá-lo, fecho a porta. Queria que nada interrompesse ou postergasse o prazer ímpar de descobrir o fim da história. Impacientava-me com o que faria com seus medos e remorsos ou o que eles fariam com ele próprio. Encantei-me de certa forma com o canalha que, idoso, sofre com seus arrependimentos e com o homem que se tornou.
Seu sexo descarado, seu egoísmo assumido, seus arrependimentos doídos, seu amor perdido, são contados de forma simples. A densidade está na história em si e não na costura de suas palavras. No início, uma leitora tem certo pavor de suas atitudes, mas, do meio pro fim, compadece-se de sua dor.
A penúltima linha causa aquele ardorzinho no nariz, como que chamando lágrimas aos olhos. Não queria que assim terminasse ou que, se assim fosse, tivesse mais coisas para me contar. E foi assim que Roth quase me devolveu à livraria para comprar mais um livro seu. Voltei lá, mas não saí com Roth na sacola. Decido comprar outro autor para que a paixão não se enleve e eu possa incluir outros canalhas em minhas prateleiras.
“E ele, pelo resto da eternidade, nunca mais receber os telefonemas matinais dela! Viu a si próprio correndo em todas as direções ao mesmo tempo pela principal interseção de Elizabeth – o pai fracassado, o irmão invejoso, o marido infiel, o filho impotente – e, a poucos quarteirões da joalheria da família, chamando os familiares que jamais poderia alcançar, por mais que corresse atrás deles. ‘Mamãe, papai, Howie, Phoebe, Nancy, Randy, Lonny – se naquele tempo eu soubesse como agir! Vocês não me escutam? Estou indo embora! Terminou, e estou deixando vocês para trás!’ E todos se afastando dele, tão depressa quanto ele deles, viravam as cabeças para trás para exclamar, por sua vez, com vozes carregadas de significado: ‘Tarde demais!’
Partir – a palavra que o fizera despertar sufocado, em pânico, vivo após abraçar um cadáver.”
(Essas não são as últimas linhas de Homem comum)
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Nomes e suas heranças
Mas nome é só um nome. Recordamo-nos das pessoas, às vezes, mais pela alegria contagiante, pela figura taciturna sentada ao lado, por uma gargalhada, por bons e maus momentos vividos juntos, por uma expressão maldita ou bendita, por uma viagem, por confidências trocadas, por um abraço na hora certa, por uma foto amarelada. Não sei porque me ligo em um nome...
Mas percebo que dou importância às pequenas coisas. Muitas pessoas têm o costume de imaginar nome dos filhos antes de pensar em tê-los. Mas eu não tenho lista dos nomes pretendidos, tenho a lista dos nomes “incolocáveis”.
O costume que eu tenho, então, é o de que um nome transmite, o que ele me lembra. Se dor, sofrimento, traição, desgosto, mentira, esperteza pequena e barata, desses indignos um filho meu jamais herdaria a carga negativa em um nome. Não poderia chamá-lo de uma forma que traria à memória coisas ruins, lembranças dolorosas, pessoas desgostosas.
Mas, como sempre disse, não penso em ter filhos. Em alguns, encontro salvação. Neste caso, em Machado de Assis: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. Ou, quem sabe, o dia que eu tiver extirpado a miséria de meus olhos, eu venha a pensar em nomes pretendidos...
Mas percebo que dou importância às pequenas coisas. Muitas pessoas têm o costume de imaginar nome dos filhos antes de pensar em tê-los. Mas eu não tenho lista dos nomes pretendidos, tenho a lista dos nomes “incolocáveis”.
O costume que eu tenho, então, é o de que um nome transmite, o que ele me lembra. Se dor, sofrimento, traição, desgosto, mentira, esperteza pequena e barata, desses indignos um filho meu jamais herdaria a carga negativa em um nome. Não poderia chamá-lo de uma forma que traria à memória coisas ruins, lembranças dolorosas, pessoas desgostosas.
Mas, como sempre disse, não penso em ter filhos. Em alguns, encontro salvação. Neste caso, em Machado de Assis: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. Ou, quem sabe, o dia que eu tiver extirpado a miséria de meus olhos, eu venha a pensar em nomes pretendidos...
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Ana Rita
Que agradável surpresa a que encontrei nesta segunda-feira! Sempre brinquei de padecer de nunca meu nome haver sido cantado, escrito, declamado, declarado, em músicas ou livros. Encontrava-os separados, jamais unidos.
Hoje, ao receber o link de uma interessantíssima revista eletrônica, deparo-me com o conto Ana Rita, do poeta angolano João Tala.
Uma apreensão me fez guardá-lo para ler sozinha a história. Senti um alívio por gostar da escrita, apesar de não apreciar o desenvolver dos acontecimentos e o fim nada conto-de-fadas ou, no mínimo, esperançoso. Ainda bem que somos Ana Rita apenas no nome, no apelido, na paixão e no sorriso.
Pelo menos agora posso dizer: “Existe, sim, uma história com meu nome”. E que, ao contrário da Ana Rita contada, minhas opções não sejam sempre agravadas por azar e, sim, que meus olhos continuem sorridentes como os dela e que, desculpe João Tala, jamais seja tarde para recomeçar.
“– Ana Rita, quanto tempo já nos comeram – disse-lhe ansioso de ouvir de novo o timbre agudo da sua garganta; tinha voz receosa, talvez cautelosa. E sofrimento.
Respondeu-me finalmente, agora fazendo sobressaltar a voz.
– Tem muitos anos, nos conhecemos. Aonde estavas durante essa vida em que nos puseram fogo? – disse, a sua linguagem é o retrato da guerra.
...
Então. Restou aqui fora aquele sorriso que nem velhice consegue riscar, num rosto que perambulava aí, no susto das épocas que degradaram nossos semblantes – como se vê, pessoas ainda assustadas, esquinadas na espera de qualquer coisa que vem aí, ninguém sabe o quê, mas qualquer raiva de novo a deflagrar de nós próprios. Aliás, sempre fomos assim, não tem conversa.
...
Contaram-me tudo o que aconteceu com esse amor desaparecido, a Ana Rita.
...
– Eu me desgastei. Onde tu estavas enquanto eu aqui me desgastava de todas as dores?
– Ana Rita, ouça-me: nunca um homem pode ser tanto. Ninguém desgasta à toa mulher que seja.
– Nunca mais vou sentir a dor de uma voz. – Ironizou, era uma crítica à minha ausentada vida enquanto ela procurava...
– Eu procurei o teu nome... vai estar sempre perdido como ninguém. – Finalizou desesperançada. Afinal nem conhecia meu nome...”
Hoje, ao receber o link de uma interessantíssima revista eletrônica, deparo-me com o conto Ana Rita, do poeta angolano João Tala.
Uma apreensão me fez guardá-lo para ler sozinha a história. Senti um alívio por gostar da escrita, apesar de não apreciar o desenvolver dos acontecimentos e o fim nada conto-de-fadas ou, no mínimo, esperançoso. Ainda bem que somos Ana Rita apenas no nome, no apelido, na paixão e no sorriso.
Pelo menos agora posso dizer: “Existe, sim, uma história com meu nome”. E que, ao contrário da Ana Rita contada, minhas opções não sejam sempre agravadas por azar e, sim, que meus olhos continuem sorridentes como os dela e que, desculpe João Tala, jamais seja tarde para recomeçar.
Fragmentos de Ana Rita
“– Ana Rita, quanto tempo já nos comeram – disse-lhe ansioso de ouvir de novo o timbre agudo da sua garganta; tinha voz receosa, talvez cautelosa. E sofrimento.
Respondeu-me finalmente, agora fazendo sobressaltar a voz.
– Tem muitos anos, nos conhecemos. Aonde estavas durante essa vida em que nos puseram fogo? – disse, a sua linguagem é o retrato da guerra.
...
Então. Restou aqui fora aquele sorriso que nem velhice consegue riscar, num rosto que perambulava aí, no susto das épocas que degradaram nossos semblantes – como se vê, pessoas ainda assustadas, esquinadas na espera de qualquer coisa que vem aí, ninguém sabe o quê, mas qualquer raiva de novo a deflagrar de nós próprios. Aliás, sempre fomos assim, não tem conversa.
...
Contaram-me tudo o que aconteceu com esse amor desaparecido, a Ana Rita.
...
– Eu me desgastei. Onde tu estavas enquanto eu aqui me desgastava de todas as dores?
– Ana Rita, ouça-me: nunca um homem pode ser tanto. Ninguém desgasta à toa mulher que seja.
– Nunca mais vou sentir a dor de uma voz. – Ironizou, era uma crítica à minha ausentada vida enquanto ela procurava...
– Eu procurei o teu nome... vai estar sempre perdido como ninguém. – Finalizou desesperançada. Afinal nem conhecia meu nome...”
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