quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Homem comum

Após haver lido metade de Homem comum, de Philip Roth, dias atrás, numa noite decido retomá-lo. Viajo em suas histórias e me assusto com o passar das horas. Interrompo o deleite como quem toma o brinquedo de uma criança. Já era tarde da noite e o cansaço do dia anterior com o início do horário de verão me fez preferir o descanso às palavras.

Na noite seguinte, recupero as páginas. Uma ansiedade feliz fez-me deitar para lê-lo com o maior dos prazeres. Roth é assim. Você lê na cama sem sentir sono, lê com os chinelos barulhentos da mãe pelo corredor sem perder a concentração, lê tranqüilamente com o som distante das desgraças transmitidas pelo Jornal Nacional que o pai assiste na sala.

Ao faltar umas sete páginas para terminá-lo, fecho a porta. Queria que nada interrompesse ou postergasse o prazer ímpar de descobrir o fim da história. Impacientava-me com o que faria com seus medos e remorsos ou o que eles fariam com ele próprio. Encantei-me de certa forma com o canalha que, idoso, sofre com seus arrependimentos e com o homem que se tornou.

Seu sexo descarado, seu egoísmo assumido, seus arrependimentos doídos, seu amor perdido, são contados de forma simples. A densidade está na história em si e não na costura de suas palavras. No início, uma leitora tem certo pavor de suas atitudes, mas, do meio pro fim, compadece-se de sua dor.

A penúltima linha causa aquele ardorzinho no nariz, como que chamando lágrimas aos olhos. Não queria que assim terminasse ou que, se assim fosse, tivesse mais coisas para me contar. E foi assim que Roth quase me devolveu à livraria para comprar mais um livro seu. Voltei lá, mas não saí com Roth na sacola. Decido comprar outro autor para que a paixão não se enleve e eu possa incluir outros canalhas em minhas prateleiras.

“E ele, pelo resto da eternidade, nunca mais receber os telefonemas matinais dela! Viu a si próprio correndo em todas as direções ao mesmo tempo pela principal interseção de Elizabeth – o pai fracassado, o irmão invejoso, o marido infiel, o filho impotente – e, a poucos quarteirões da joalheria da família, chamando os familiares que jamais poderia alcançar, por mais que corresse atrás deles. ‘Mamãe, papai, Howie, Phoebe, Nancy, Randy, Lonny – se naquele tempo eu soubesse como agir! Vocês não me escutam? Estou indo embora! Terminou, e estou deixando vocês para trás!’ E todos se afastando dele, tão depressa quanto ele deles, viravam as cabeças para trás para exclamar, por sua vez, com vozes carregadas de significado: ‘Tarde demais!’

Partir – a palavra que o fizera despertar sufocado, em pânico, vivo após abraçar um cadáver.”
(Essas não são as últimas linhas de Homem comum)

2 comentários:

paulopaniago disse...

oh, sim, grande amigo, o roth. vai lá, mergulha nas feridas, chafurda, remexe e remexe, expõe tudo, as vísceras, e nós ali, pobres leitores, tentando acompanhar o ritmo. é danado. e para ser lido, de fora a fora. fiz uma lista completa de títulos dele, traduzidos e não-traduzidos, lá-você-sabe-onde.

Srta T. disse...

Anita babe,

Eu preciso ler esse cara. Esses dias passei numa livraria e dei de cara com o livro - o cara tá começando a passar na frente da minha cara - leia-me leia-me... Tu já tinha falado tb, e o Mirisola tb. Só que em inglês por enquanto não me arrisco a ler. Mas vai pra fila, vou pular ele pro começo dela...